
Por João Guató
Há histórias que o Brasil prefere deixar enterradas debaixo da terra vermelha dos engenhos. Não porque sejam raras. Pelo contrário. Porque são comuns demais para caber na narrativa confortável que aprendemos nos livros escolares.
No final do século XVIII, quando Pernambuco era um dos motores da economia açucareira da colônia portuguesa, o poder real não estava exatamente em Lisboa. Estava nos engenhos. E nos homens que os comandavam como pequenos monarcas de barro, açúcar e sangue.
Um deles atendia pelo nome de Joaquim Ferreira da Costa.
Dono de mais de oitocentos alqueires de terra nas proximidades da vila de Goiana, entre Recife e a Paraíba, o coronel parecia, à primeira vista, um homem respeitável. Frequentava a missa, pagava impostos à Coroa e recebia autoridades com modos elegantes. A casa-grande erguia-se no alto da colina como símbolo de ordem e autoridade. Aos seus pés, mais de duzentos africanos escravizados sustentavam o funcionamento do engenho Santo Antônio.
A fachada era perfeita.
Mas o Brasil colonial sempre foi especialista em esconder abismos atrás de portas bem polidas.
Viúvo três vezes e sem herdeiros legítimos, o coronel carregava desejos que nunca haviam sido mencionados em público. Durante anos, permaneceram reprimidos sob o verniz da moral católica. Até que, numa tarde abafada de 1798, ele tomou uma decisão incomum mesmo para os padrões brutais daquele tempo.
Mandou construir uma nova senzala.
Não uma senzala comum. Aquela propriedade já possuía cinco delas. A nova construção deveria ficar afastada, próxima a um pequeno bosque de mangabeiras, longe dos olhos do engenho. O projeto previa doze quartos individuais, um salão central amplo, cozinha própria e até área de banho com água corrente.
Luxo inimaginável para quem vivia no regime escravocrata.
O encarregado da obra foi Antônio, um carpinteiro negro liberto que já havia servido ao pai do coronel. Homem experiente, entendeu rapidamente que perguntas demais poderiam custar caro. Limitou-se a calcular madeira, tijolo e prazo. Seis meses de trabalho.
Enquanto as paredes se erguiam, Joaquim iniciava outra etapa do projeto.
A escolha dos moradores.
Ele passou a percorrer o engenho com olhar diferente. Não mais como administrador avaliando força de trabalho, mas como alguém que seleciona peças de um jogo privado. Um a um, escolheu doze homens jovens, fortes ou de aparência singular.
Miguel, alto e inteligente, filho de africanos da Costa da Mina.
Francisco, mulato de beleza delicada que trabalhava dentro da casa-grande.
Benedito, domador de cavalos.
Sebastião, ainda adolescente.
Carlos, que aprendera algumas palavras de francês com comerciantes.
Domingos, o mais jovem de todos.
Ao todo, doze.
A escolha chamou atenção entre os demais escravizados. Nos barracões do engenho começaram os murmúrios. Uns diziam que seriam artesãos especializados. Outros acreditavam que seriam enviados para trabalhos mais leves.
A verdade era outra.
Em outubro de 1798, a construção ficou pronta. A nova senzala possuía paredes reforçadas, janelas altas e estreitas e portas com trancas internas. Camas de madeira com colchões de palha limpa substituíam o chão batido das senzalas comuns.
Anos depois, documentos da Inquisição mencionariam o lugar por um nome que revela muito sobre o que acontecia ali:
“A senzala dos prazeres.”
No Brasil colonial, os limites do poder senhorial eram praticamente inexistentes. Dentro das propriedades, os senhores controlavam trabalho, punição, alimentação e destino de centenas de vidas. A escravidão não era apenas um sistema econômico. Era um sistema de domínio total sobre corpos e vontades.
O caso do coronel pernambucano expõe uma face ainda mais perturbadora desse regime. Uma mistura de poder absoluto, desejo e silêncio institucional. A Igreja sabia de muita coisa. A Coroa sabia de algumas. E quase sempre preferia não saber do resto.
Afinal, enquanto o açúcar continuasse embarcando rumo à Europa, certas histórias podiam permanecer enterradas.
Mas o Brasil é feito de memórias que insistem em voltar.
E quando elas voltam, revelam que a violência da escravidão não se limitava ao chicote ou ao tronco. Ela também habitava espaços fechados, construídos longe dos olhos do mundo, onde o poder se exercia sem testemunhas.
A tal senzala isolada no engenho Santo Antônio foi uma dessas construções.
Um prédio pequeno na paisagem do agreste.
Mas enorme na dimensão daquilo que revela sobre o país que fomos.
Fonte: História baseada no relato “O Coronel que Criou a Senzala dos Prazeres com 12 Escravos: O caso proibido de Pernambuco, 1763”, divulgado pelo canal Heranças da Senzala.