
Por João Guató
Teerã amanheceu sob o peso de uma notícia que muda a história contemporânea do Oriente Médio. O líder supremo do Irã, Ali Khamenei, morreu em 28 de fevereiro de 2026 durante um ataque militar coordenado por Estados Unidos e Israel. A confirmação veio pela própria mídia estatal iraniana, que classificou o episódio como “martírio” e decretou luto oficial. O bombardeio atingiu o complexo Beit-e Rahbari, centro simbólico e político do poder religioso iraniano.
A morte ocorreu durante o Ramadã, período mais sagrado do islamismo, o que intensificou o impacto simbólico do ataque. Aos 86 anos, Khamenei era a figura central do regime desde 1989, sucessor de Ruhollah Khomeini e autoridade máxima sobre Forças Armadas, Judiciário e política externa. Seu desaparecimento não é apenas uma mudança de liderança. É uma ruptura institucional.
A ofensiva também matou integrantes do alto escalão iraniano, incluindo o ministro da Defesa, Amir Nasirzadeh; o comandante da Guarda Revolucionária, Mohammed Pakpour; o chefe do Estado-Maior, Abdolrahim Mousavi; o conselheiro Ali Shamkhani; e o chefe de Inteligência da polícia, Gholamreza Rezaian. Segundo veículos iranianos, membros da família do líder também morreram no ataque.
O governo decretou 40 dias de luto nacional e sete dias de feriado oficial. Nas ruas de Teerã, milhares participaram de vigílias e manifestações. No plano internacional, a tensão se espalhou com rapidez previsível. A ONU convocou reuniões emergenciais. O mercado de petróleo reagiu com volatilidade imediata. O mundo observa um país-chave do Golfo atravessar sua maior crise desde 1979.
RETALIAÇÃO E ESCALADA MILITAR

A resposta iraniana veio em poucas horas. A Guarda Revolucionária declarou que o ataque foi uma violação grave de princípios religiosos e do direito internacional. Mísseis foram lançados contra Israel e contra bases norte-americanas no Catar, Bahrein, Kuwait, Arábia Saudita, Jordânia e Emirados Árabes Unidos.
O Estreito de Ormuz foi temporariamente fechado. Cerca de um quinto do petróleo mundial passa por esse corredor marítimo. O bloqueio elevou preços e reacendeu o temor de choque energético global. Companhias marítimas suspenderam rotas enquanto governos avaliavam riscos.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, confirmou a operação e declarou que Khamenei era “uma das pessoas mais perversas da história”. Israel afirmou ter eliminado altos funcionários do regime e disse possuir indícios sólidos da morte antes mesmo da confirmação oficial iraniana.
A escalada eleva o risco de um conflito regional amplo. A disputa já extrapola o campo diplomático e assume contornos militares diretos. A estabilidade do Golfo Pérsico, vital para a economia global, tornou-se novamente frágil.
A SUCESSÃO E O VAZIO DE PODER

Com a morte do líder supremo, o Irã passou a ser governado provisoriamente por uma junta composta pelo presidente Masoud Pezeshkian, pelo chefe do Judiciário Gholamhossein Mohseni-Ejei e por um representante do Conselho dos Guardiões, o aiatolá Alireza Arafi.
A Constituição iraniana prevê que a escolha do novo líder supremo cabe à Assembleia de Especialistas, órgão religioso-eleitoral responsável por indicar o sucessor. O processo ocorre sob tensão interna e pressão externa inéditas.
O líder supremo concentra poderes que ultrapassam os de um presidente. Controla as Forças Armadas, influencia diretamente a política externa e exerce poder decisivo sobre nomeações estratégicas. Sua ausência cria um vácuo institucional sensível.
Analistas apontam três cenários: continuidade rígida da linha ideológica, escolha de um perfil mais pragmático ou aprofundamento da disputa interna entre alas conservadoras. Cada possibilidade altera o equilíbrio regional de maneira distinta.
QUEM FOI ALI KHAMENEI

Ali Khamenei assumiu como líder supremo em 1989, após a morte de Khomeini. Antes disso, foi presidente do Irã entre 1981 e 1989, período marcado pela guerra Irã-Iraque e pela consolidação do regime revolucionário.
Durante quase quatro décadas, moldou a política externa iraniana com postura de confronto em relação aos Estados Unidos e a Israel. Sob sua liderança, o país expandiu influência regional por meio de alianças e apoio a grupos no Líbano, Síria e Iraque.
Internamente, consolidou o papel da Guarda Revolucionária como eixo estratégico do regime. Também enfrentou protestos populares em diferentes momentos, reprimidos com firmeza.
Sua morte encerra um ciclo iniciado com a Revolução Islâmica de 1979. O Irã agora entra em uma fase imprevisível. E o Oriente Médio, que nunca foi exatamente calmo, volta a caminhar sobre terreno instável.
NOTA DO REPÓRTER

Esta reportagem literária não pretende encerrar o assunto. Seria presunção demais diante de um episódio que ainda reverbera como explosão em câmara lenta. O que se apresenta aqui é um retrato possível, construído com base em informações confirmadas por fontes oficiais e agências internacionais, mas atravessado pela consciência de que a história continua a se mover enquanto o texto é lido.
A morte de Ali Khamenei, figura central do poder iraniano por quase quatro décadas, não é apenas um fato político. É um acontecimento simbólico, carregado de camadas religiosas, estratégicas e humanas. Entre comunicados oficiais, declarações inflamadas e reações militares, há também silêncio, luto e incerteza.
Optou-se por uma narrativa que combina rigor factual com leitura interpretativa do cenário geopolítico. Em tempos de versões instantâneas e ruído digital, a tentativa aqui é organizar o caos, sem simplificá-lo. O Oriente Médio raramente oferece respostas simples, e este momento não foge à regra.
Se a história é um tabuleiro, as peças ainda estão em movimento. Esta nota é apenas o registro de um instante decisivo, escrito enquanto o mundo recalcula seus próprios limites.