Por J oão Guató Minha filha Ana Bella está no Jardim 5, esse território curioso onde a infância ainda respira, mas já começa a ser empurrada, com delicadeza aparente, para dentro de um futuro que exige demais. Chamam de pré-escola, como se fosse apenas um ensaio, um aquecimento leve antes do espetáculo principal. Mas há algo de definitivo ali, algo que não combina com a palavra “pré”. Porque já não se trata apenas de brincar de aprender, e sim de aprender com a urgência de quem não pode perder tempo. As letras já se apresentam como obrigação, os números como fronteira, e o mundo, antes um quintal aberto, agora começa a ser dividido em disciplinas. Ela ainda carrega nas mãos o cheiro de tinta e nas roupas a distração própria de quem se interessa por tudo e não se fixa em nada por muito tempo. Mas já soletra, já junta sílabas, já atravessa o território da alfabetização como quem é guiada por uma pressa que não nasceu nela. É como se a escola contemporânea tivesse decidido que a infância ...
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