EM MATO GROSSO, ATÉ A ESQUERDA PASSA PELA PORTEIRA DA DIREITA: ESTÁ TUDO DOMINADO


Por João Guató - Reportagem e produção de charges 

Em Mato Grosso, eleição não é guerra ideológica. É assembleia de acionistas com ata lavrada e lucro projetado. A direita tradicional implica com a direita performática, que acusa a direita mais ruidosa de exagero, enquanto todas dividem o mesmo cofre emocional e financeiro: o agronegócio.

Aqui não há essa delicadeza universitária de separar conservador, liberal ou extrema direita. No fim do expediente, todos se encontram na mesma varanda olhando a mesma plantação. Divergem no discurso, convergem na porteira. A diferença costuma ser o modelo da caminhonete e o tom do palanque.

O cuiabano resolveu essa equação faz tempo. Partido que está “no esquema” é partido que sabe onde fica a merenda. E merenda, no vocabulário político regional, nunca foi apenas lanche escolar. Foi método de poder. Durante décadas, a máquina pública, especialmente a Educação, funcionou como eixo de fidelização. Quem controlava orçamento controlava apoio. Quem distribuía cargos distribuía silêncio.

O antigo PMDB, hoje MDB, foi conduzido por anos por Carlos Bezerra, especialista em sustentar discurso de centro no estado e pragmatismo absoluto em Brasília. A régua era objetiva: apoiar quem oferecesse mais espaço institucional. Ideologia era adereço. Cargo era estrutura.

A família Pinheiro jamais foi estranha a essa lógica. A narrativa recente de que teria “se aliado ao agro” soa como revelação tardia. Depois de perder o controle do MDB, descobriu-se que o agro estava na sala. Como se fosse hóspede inesperado.

A epifania ganhou força após publicação de Enock Pinheiro sugerindo que o grupo liderado por Manoel Pinheiro, o Nenel, teria migrado para o campo produtivo. A pergunta inevitável é: migrado de onde? Jonas Pinheiro, técnico da antiga EMATER–MT, virou senador representando o agronegócio sem precisar cultivar um pé de cebola. Manoel sempre orbitou essa mesma constelação. A surpresa é teatral. O que houve não foi ruptura ideológica. Foi rearranjo de cadeiras.

O capítulo seguinte é protagonizado pelo deputado federal Emanuelzinho. Ele declara que pode deixar o MDB por não suportar aliança com a extrema direita. Busca abrigo no PSD, a convite do ministro da Agricultura Carlos Fávaro. O mesmo PSD que dialoga confortavelmente com o agro local. A cena é quase literária: a família sempre alinhada ao agronegócio, o filho discursando centro-esquerda e o destino possível sendo um partido articulado pelo próprio ministro da Agricultura. Realismo pantaneiro.

Se o MDB praticou pragmatismo, o PT estadual aperfeiçoou a convivência estratégica. Historicamente apoiou governos de Blairo Maggi e Mauro Mendes, ambos símbolos do agronegócio. Hoje, sob influência de Rosa Neide, ex-secretária de Educação no governo Maggi por indicação de Ságuas Moraes e Carlos Abicalil, o partido mantém dupla performance: resistência discursiva e governabilidade operacional.

Rosa circula em congressos do Sintep como liderança sindical, publica fotos ao lado de Edinho Silva para demonstrar sintonia nacional e capitaliza políticas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Até aí, manual partidário.

O ponto mais revelador é o anúncio da chamada “casa de preta”, programa habitacional apresentado como conquista social da esquerda. O financiamento e a execução, porém, pertencem ao governo Mauro Mendes, identificado com a ala mais conservadora do estado. A política pública tem verniz progressista, mas nasce no orçamento de uma gestão de direita. A capitalização política ocorre no campo petista. A esquerda posa. A direita banca. O eleitor tenta descobrir quem assina a obra.

No Parlamento, Lúdio Cabral mantém oposição calibrada enquanto organiza sua própria trajetória eleitoral. Valdir Barranco articula o lançamento da esposa reproduzindo métodos consagrados por grupos tradicionais como os de Julio Campos e Jaime Campos. Renovação com sobrenome conhecido continua sendo tradição regional.

E há ainda o capítulo da disputa feminina que expõe o funcionamento do sistema. Janaína Riva cresce nas pesquisas para o Senado e imediatamente vira “problema técnico” a ser resolvido. Parte do agro sugere promovê-la a vice de Otaviano Pivetta. Protege Fávaro. Pacifica o grupo. Organiza o quintal. Eficiência rural aplicada à política.

Eduardo Botelho repete que ela “tem que ser vice”, como se candidatura feminina fosse peça de reposição em chapa majoritária. O detalhe doméstico adiciona camada ideológica: Janaína é casada com o filho do senador Wellington Fagundes, aliado do PL de Jair Bolsonaro. A direita local divide slogan e parentesco com a mesma naturalidade.

Só esqueceram de combinar com a protagonista. Ela declarou que quer o Senado. E quando mulher decide não caber na moldura desenhada por caciques, a parede treme.

No fim das contas, Mato Grosso não vive ausência de disputa. Vive uniformidade estrutural. O agro é eixo gravitacional. Partidos orbitam. Lideranças adaptam discurso. A eleição que se aproxima não decidirá entre direita e esquerda. Decidirá qual ala da direita administrará o mesmo modelo.

A soja pauta o PIB. O agro pauta o debate. E a democracia regional segue funcionando como empresa familiar: troca-se o diretor, preserva-se o contrato social.


O ESQUEMA COMO ENGENHARIA DE PODER




A expressão cuiabana “estar no esquema” não caiu do céu numa tarde quente de agosto. Foi lapidada na prática. Durante décadas, a máquina pública, especialmente a Educação, funcionou como central de distribuição de afeto político. Orçamento virou ferramenta de persuasão. Cargo virou prova de amizade. E a tal “merenda” deixou de ser só arroz com feijão para virar ciência aplicada de manutenção de poder.

A engrenagem é tão resistente que merecia tombamento histórico. Passou por governos de discursos inflamados, partidos de cores diferentes e legislaturas que juravam ser novidade. Mudaram os sobrenomes, trocaram os slogans, mas a lógica ficou ali, firme como concreto de silo. Política social com carimbo oficial vira vitrine pessoal. O benefício é público, a foto é privada.

O eleitor, que não é bobo mas também não tem tempo para tese de doutorado em engenharia política, vota em quem aparece entregando algo concreto. Casa, asfalto, uniforme, programa anunciado com microfone aberto. Pouca gente pergunta quem desenhou o sistema que transforma direito em favor exibido.

E aí está o ponto. O problema nunca foi construir escola ou distribuir moradia. O problema é quando o direito vira troféu eleitoral e a política pública ganha dono informal. Quando todos operam dentro do mesmo arranjo, a disputa não é para mudar o modelo. É para assumir o volante da máquina.

No fim, a eleição parece renovação. Mas, no fundo, é só troca de operador no painel do mesmo esquema.


PT ENTRE DISCURSO E GOVERNABILIDADE




O PT estadual vive numa crise existencial crônica, dessas que não se resolvem com terapia, só com cargo. De um lado, tenta manter a identidade ideológica, aquela camiseta histórica que já foi vermelha vibrante e hoje anda meio desbotada pelo sol do Cerrado. Do outro, pratica um pragmatismo digno de manual técnico: apoiar governos como os de Blairo Maggi e Mauro Mendes não foi acidente de percurso, foi escolha estratégica. Melhor estar dentro da sala com ar-condicionado do que gritando do lado de fora no calor de 40 graus.

A opção pela participação institucional garantiu secretarias, espaços administrativos, trânsito no poder. Em compensação, as fronteiras ideológicas ficaram tão borradas que hoje precisam de lupa. A esquerda local aprendeu que, em Mato Grosso, oposição pura dá discurso bonito. Mas governabilidade dá orçamento.

O caso da chamada “casa de preta” é praticamente um estudo de marketing político. Programa social com roupagem progressista, executado e financiado por um governo identificado com a direita conservadora, divulgado como conquista social da esquerda. É uma obra coletiva onde cada um segura a ponta que mais lhe convém. Quando a pauta é inclusão, o crédito é progressista. Quando o assunto é eficiência administrativa, o mérito é do governo. Uma parceria que não se assume como parceria, mas funciona como tal.

A dúvida que insiste em aparecer é simples e desconfortável: existe um projeto claro de transformação estrutural ou apenas gestão cuidadosa de imagem? Estamos diante de estratégia de longo prazo ou de fotografia bem enquadrada?

Quando lideranças vestem o figurino da resistência nas redes sociais e, nos bastidores, mantêm diálogo afinado com o poder dominante, o eleitor começa a sentir que está assistindo a duas peças encenadas no mesmo palco. O discurso inflamado convive com alianças táticas. A crítica dura termina em reunião cordial.

O resultado é uma ambiguidade confortável para quem ocupa espaço institucional e profundamente confusa para quem tenta entender o jogo. A oposição existe, mas com cláusulas. A governabilidade justifica quase tudo. E, no fim, o partido que nasceu para confrontar o sistema parece cada vez mais especializado em administrá-lo com delicadeza.


AGRO: PARTIDO INFORMAL E INSTITUIÇÃO PARALELA


O agronegócio em Mato Grosso já não é apenas setor econômico. Virou quase elemento da tabela periódica regional. Está no ar, na água e, principalmente, nas atas partidárias. Não é lobby. É ecossistema. Influencia partidos, escolhe candidaturas, define o volume do discurso e estabelece aquela linha invisível que ninguém ousa atravessar se ainda quiser convite para a próxima reunião.

Projetos que enfrentam o modelo de frente até aparecem, mas costumam ter vida útil parecida com chuva de verão: fazem barulho, molham um pouco o chão e logo evaporam sob o sol do pragmatismo. Aqui, confronto estrutural é coisa de tese acadêmica. Na prática, todo mundo aprende rápido a falar em “desenvolvimento sustentável” olhando para o silo.

A influência não para no plenário. Ela passeia por secretarias, tribunais, federações empresariais e até nas discussões sobre criação de novos municípios. Reorganizar território, expandir estrutura administrativa, redefinir mapa político. Tudo conversa, de algum jeito, com o interesse produtivo. A política local não segue calendário eleitoral. Segue calendário de safra. Se a colheita vai bem, o discurso floresce. Se o preço cai, o tom endurece.

Nesse ambiente tão harmônico quanto monocultura, a disputa eleitoral acontece dentro da mesma moldura ideológica. O embate não é sobre romper com o modelo. É sobre quem assume o volante da máquina. Não se discute a estrada. Discute-se quem dirige o comboio.

Mato Grosso não sofre de falta de política. Sofre de excesso de uniformidade estratégica. As divergências existem, mas cabem todas dentro da mesma cerca. A eleição decidirá quem administra o sistema com mais habilidade, carisma ou articulação. O sistema, por sua vez, permanece firme, robusto e bem armazenado. Sólido como silo de concreto. E, convenhamos, muito bem protegido contra qualquer vento de mudança.


ESQUERDA DE ALUGUEL: QUANDO O ANTISSISTEMA PEDE ABRIGO AO CENTRÃO




Em Mato Grosso, a esquerda anda tão confortável dentro do sistema que já nem finge desconforto. A última cena desse teatro político atende pelo nome de Mauro César Lara de Barros, o Procurador Mauro, figura histórica do PSOL no estado, que resolveu trocar quase duas décadas de discurso antissistema por uma filiação ao PSD, comandado em Mato Grosso pelo ministro da Agricultura Carlos Fávaro.

Sim, o mesmo PSD que integra o chamado Centrão. Sim, o mesmo grupo que orbita a política pragmática do agronegócio. Sim, a mesma estrutura que sempre foi alvo preferencial de crítica da esquerda combativa.

Mauro ajudou a fundar o PSOL em Mato Grosso, em 2006. Foi candidato recorrente, disputou governo, Senado, Câmara Federal e Prefeitura de Cuiabá. Nove eleições no currículo. A votação mais expressiva veio em 2014, quando ultrapassou 80 mil votos para deputado federal, mas ficou fora por conta do quociente eleitoral. O discurso sempre foi o mesmo: crítica ao sistema tradicional, enfrentamento ao poder econômico, denúncia da velha política.

Em maio de 2025, porém, o enredo mudou. Aceitou convite de Fávaro e filiou-se ao PSD. A justificativa é estratégica. Projeto eleitoral para 2026. O partido está montando um “chapão” competitivo, reunindo nomes como Emanuelzinho e Irajá Lacerda. Estrutura maior, mais tempo de televisão, alianças amplas. Traduzindo: chance real de eleição.

Nada de ilegal. Nada de surpreendente no manual da sobrevivência política. Mas profundamente revelador do momento ideológico em Mato Grosso.

A esquerda local, que já vinha operando em modo governabilidade, agora aceita publicamente o abrigo do pragmatismo. O procurador que denunciava o sistema agora integra uma engrenagem central dele. A crítica vira estratégia. O discurso vira currículo.

O movimento expõe algo maior do que uma simples troca partidária. Mostra que, no estado onde o agronegócio dita ritmo e pauta, até a esquerda entende que, fora da porteira, não há mandato. E dentro da porteira, o preço é adaptação.

A filiação coloca Mauro num partido com musculatura eleitoral e articulação robusta. Também o coloca num campo político mais pragmático e menos ideológico. Ele se prepara para disputar sua décima eleição em 2026. A pergunta inevitável é: o eleitor que o acompanhou como voz de enfrentamento aceitará a guinada estratégica?

Há um risco calculado. Ao buscar viabilidade eleitoral, pode diluir a identidade que o diferenciava. E, num cenário em que a direita já administra a direita e dialoga com a esquerda, a tentativa de ocupar espaço no PSD pode representar tanto uma oportunidade quanto uma descaracterização.

Em Mato Grosso, a esquerda não está sendo derrotada. Está sendo absorvida. Não é mais confronto estrutural. É adaptação ao ambiente dominante.

No fim, o que se desenha para 2026 é menos uma disputa ideológica e mais uma competição por espaço dentro do mesmo modelo. A direita organiza o tabuleiro. A esquerda decide se joga com as peças disponíveis ou se aceita ficar fora da partida.

E, pelo visto, ficar fora já não é opção.