
Por João Guató
O jornalismo tem um defeito curioso: vive correndo atrás do que acabou de acontecer e quase nunca tem tempo de olhar para trás. É como um sujeito que passa a vida inteira anotando o presente e esquece de guardar o caderno. Ainda bem que existem alguns teimosos.
Um deles atende pelo nome de Eduardo Ricci. Para os íntimos, simplesmente Dudu. Figura dessas que parecem ter nascido com uma chave antiga no bolso, dessas que abrem baús de memória. E Dudu gosta de abrir esses baús.
Outro dia ele apareceu com uma dessas relíquias que fazem o tempo dar uma paradinha. Uma fotografia antiga, daquelas em que o jornalismo ainda tinha cheiro de poeira de estrada e gravador de fita.
Na imagem, Laura Lucena segura o microfone e entrevista Dante de Oliveira.
Cena simples. Mas cheia de história.
Dante, aliás, dispensaria apresentação em qualquer mesa de conversa política decente. O homem que virou símbolo de um grito nacional por eleições diretas aparece na foto com aquele ar de quem já estava acostumado a responder perguntas maiores que o próprio dia.

E Laura estava ali. Repórter na essência da palavra.
Microfone firme, olhar atento, postura de quem sabia que perguntar também é um ato de responsabilidade. Não era apenas uma entrevista. Era jornalismo acontecendo no meio do mundo real.
Laura fez história na TV Gazeta, onde ajudou a narrar um Mato Grosso que ainda se desenhava entre estradas vermelhas, política intensa e muita história por contar.
Mas ela não se limitou à televisão. Foi também presença marcante no jornalismo impresso com a revista Camalote, publicação dedicada ao ecoturismo numa época em que falar da natureza ainda não era moda, era convicção.
E como gente inquieta raramente se contenta com uma só estrada, Laura ainda criou a Pousada Château Camalote, na Chapada dos Guimarães. O lugar virou parada obrigatória para artistas, viajantes e curiosos que chegavam pela paisagem e ficavam pela hospitalidade.
Era uma mistura rara de jornalista e construtora de sonhos.
Quando Eduardo Ricci publicou aquela lembrança, escreveu que Laura virou estrela.
E talvez esteja certo.
Porque algumas pessoas realmente viram estrela. Não por causa da morte, como gostam de dizer os mais sentimentais, mas porque continuam brilhando nas histórias que deixaram espalhadas pelo caminho.
Dudu faz um serviço que o jornalismo anda esquecendo: lembrar.
E lembrar, neste ofício apressado, é quase um ato de resistência.
Enquanto houver alguém abrindo esses velhos baús de memória, o jornalismo ainda terá alguma chance de não virar apenas notícia de ontem.