CATIMBAU: O DIA EM QUE O CÉU FICOU MAIS BAIXO

 

Reportagem especial e charges de João Guató para o Pasquim Cuiabano

Eu não estava no Catimbau quando o primeiro vídeo chegou. Estava em Cuiabá, calor de costume, tentando entender por que o país insiste em ser maior que a nossa capacidade de narrá-lo. O celular vibrou. Era Zé Guilherme.

“João, presta atenção nisso.”

O vídeo tinha poucos segundos. O suficiente.

Gaiolas no chão de terra. Papagaios espremidos. Periquitos amontoados. Um homem agachado falando ao telefone como se negociasse tijolo. Outro encostado num carro. Tudo à luz do dia.

Não era flagrante escondido. Era cotidiano.

Ali começou a terceira reportagem da série que venho publicando sobre a Serra do Catimbau, em Pernambuco. As duas primeiras falaram de beleza e conflito. Esta fala de silêncio. Do silêncio que começa quando o canto é retirado do céu.


O PARAÍSO VENDIDO EM POST E O SERTÃO QUE NÃO CABE NA LEGENDA

O Catimbau é monumental. Não escrevo isso por licença poética. Escrevo porque é factual.

São cerca de 62 mil hectares de cânions, paredões rochosos, pinturas rupestres milenares. O Vale foi reconhecido recentemente como um dos destinos mais impressionantes do país para quem busca natureza e aventura. As imagens são mesmo irretocáveis. Céu aberto, vegetação de caatinga resistindo, formações geológicas que parecem ter sido desenhadas por um deus paciente.

Eu vi as fotos enviadas por Zé. Ele de chapéu de couro, óculos redondos, rosto queimado de sol, apontando para o horizonte como quem aponta um argumento. Atrás dele, a imensidão.

Turismo sustentável. Experiência única. Interior pulsando.

Tudo verdade.

Mas o que me inquieta é a parte que não entra na foto.

Na segunda reportagem da série, tratei dos conflitos no entorno do parque. Comunidades que vivem ali há décadas disputando espaço com a burocracia ambiental. Parque criado por decreto em 2003. Gente criada ali muito antes.

Conflito não é exceção no Brasil. É método histórico.

Enquanto plataformas celebram o Catimbau como destino incrível, moradores discutem regularização, uso do território, sobrevivência. É o mesmo espaço. Duas narrativas. Uma vendável. Outra incômoda.

E então veio o vídeo das aves.

Se o Catimbau é cartão-postal, por que existem gaiolas empilhadas no chão?

Porque o sertão não é cenário. É território social.

E território social é sempre contraditório.


O MERCADO DO CANTO: COMO FUNCIONA O TRÁFICO DE AVES NO AGRESTE E NO SERTÃO

Eu revi o vídeo várias vezes.

Não havia clandestinidade cinematográfica. Havia normalidade. Gaiolas de madeira e arame. Bebedouros improvisados. Um homem negociando ao telefone. Outro contando dinheiro. Um carro estacionado ao lado.

O tráfico de aves em Pernambuco não é lenda. É estatística.

O estado figura como corredor importante do comércio ilegal de fauna no Nordeste. Operações recentes mostram a dimensão do problema. No Sertão, uma ação apreendeu 216 aves silvestres, incluindo 171 papagaios, 32 graúnas, 10 periquitos e 3 maritacas. Em outra operação, Ibama e Polícia Rodoviária Federal interceptaram 1.368 animais silvestres em estradas do interior. A maioria aves.

Araripina. Garanhuns. Venturosa. Municípios que fazem parte da rota que atravessa o Agreste e o Sertão. O Catimbau está inserido nesse corredor.

Não encontrei registro específico de apreensão dentro do Parque Nacional nas fontes consultadas. Mas o padrão regional ajuda a compreender o contexto.

O modus operandi é conhecido.

Captura ilegal em áreas naturais. Armadilhas simples. Redes. Alçapões. Sons reproduzidos por celular para atrair aves adultas. Retirada de filhotes de ninhos, especialmente papagaios e periquitos.

Depois vem o transporte. Caixas de sapato. Caixas de leite. Gaiolas minúsculas. Sem água. Sem alimento adequado. A mortalidade é brutal. Estimativas apontam que até nove em cada dez aves morrem antes de chegar ao comprador final.

As sobreviventes são vendidas em feiras, por redes sociais, em grupos de WhatsApp. Aceita-se cartão. Entrega combinada.

A cadeia é lucrativa. Movimenta bilhões globalmente. No Brasil, aves representam mais de 60% dos animais traficados.

Pergunta incômoda: por que existe?

Lucro. Demanda por “pets exóticos”. Vulnerabilidade social. Em regiões economicamente frágeis, a captura vira fonte de renda.

Mas pobreza não absolve devastação.

As consequências ambientais são severas.

Redução de populações nativas. Perda de diversidade genética. Risco de extinção local. Desequilíbrio ecológico. Muitas aves são dispersoras de sementes. Sem elas, a regeneração da vegetação da caatinga fica comprometida.

O impacto não é apenas moral. É estrutural.

Quando se retira um papagaio do ninho, não se retira apenas um indivíduo. Retira-se uma função ecológica.


O DIA EM QUE EU ENTENDI QUE O SILÊNCIO TAMBÉM É DENÚNCIA

Escrever sobre tráfico de aves é fácil quando se fala em números. Difícil é quando se fala em ausência.

Eu fechei os olhos e tentei imaginar o Catimbau sem canto.

A paisagem continuaria impressionante. Os cânions não se movem. As pinturas rupestres permanecem. O turista ainda fotografa.

Mas o céu ficaria vazio.

Zé me disse numa das ligações: “João, aqui até a pedra tem opinião.”

Eu acrescento: e a ausência também.

As instituições atuam. Ibama, CPRH, PRF, Batalhão Ambiental realizam fiscalizações. Aves apreendidas são encaminhadas para centros de triagem como o Cetras Tangará, no Recife, ou unidades da CPRH, onde passam por reabilitação antes da soltura. Multas podem ultrapassar três milhões de reais em grandes operações.

O Estado existe. Mas o mercado ilegal também.

Entre fiscalização e demanda há uma tensão permanente.

O vídeo que recebi não mostra violência explícita. Mostra banalidade. E isso é mais perigoso.

Quando o crime vira rotina, ele se instala na paisagem como se fosse parte dela.

A Serra do Catimbau é patrimônio natural. É sítio arqueológico de relevância internacional. É bioma sensível. É território humano.

Esta série não busca demonizar o sertão. Busca compreender suas contradições.

O turismo pode ser ferramenta de desenvolvimento sustentável. A fiscalização é necessária. A educação ambiental é urgente. A redução da demanda urbana por animais silvestres é essencial.

Mas, sobretudo, é preciso enxergar.

O Catimbau não é apenas destino. É ecossistema vivo.

Se o canto desaparecer, não haverá hashtag capaz de substituí-lo.

Escrevo esta reportagem em primeira pessoa porque fui provocado pelo vídeo. Não por sensacionalismo, mas por responsabilidade.

O jornalismo literário me permite olhar demoradamente. José Hamilton Ribeiro ensinou que contar o Brasil exige paciência e rigor. Não basta descrever. É preciso compreender.

O Catimbau é belo. O Catimbau é conflituoso. O Catimbau é vulnerável.

Entre o cartão-postal e a gaiola existe o mesmo chão.

E é nesse chão que esta reportagem pisa.