
Foram condenados Domingos Brazão, conselheiro do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro, João Francisco Brazão, conhecido como Chiquinho, e Ronald Paulo Alves Pereira, por planejarem o crime que atravessou o país como uma bala perdida na consciência nacional.
O colegiado também reconheceu que os irmãos Brazão e Robson Calixto, o Peixe, integravam organização criminosa armada. E condenou Rivaldo Barbosa, delegado da Polícia Civil do Rio de Janeiro, por obstrução da Justiça e corrupção passiva. Não é pouca coisa. Não é detalhe técnico. É a arquitetura do poder sendo chamada pelo nome.
Marielle foi executada por aquilo que representava. Mulher negra, cria da Maré, socióloga, vereadora eleita com votos que não cabiam no silêncio. Anderson foi morto porque estava ao volante. A assessora sobreviveu para carregar a memória e o trauma. O país assistiu, durante anos, à romaria de versões, ao teatro das investigações que pareciam girar em círculo, ao cansaço calculado da opinião pública.
A decisão da Primeira Turma não devolve vidas. Não recompõe famílias. Não apaga o eco dos tiros na Rua Joaquim Palhares. Mas faz algo que o Brasil raramente faz com consistência: afirma que mandato, farda ou cargo de confiança não são capas de invisibilidade moral.
Há quem diga que a Justiça tarda. Tarda mesmo. Tarda porque enfrenta labirintos construídos para confundir. Tarda porque mexe com estruturas que aprenderam a se proteger. Ainda assim, quando chega, muda o registro da história. Deixa de ser pergunta e vira sentença.
A condenação unânime não encerra o luto, mas organiza a narrativa. Não foi acaso. Não foi descontrole. Foi planejamento. Foi organização criminosa. Foi tentativa de apagar uma voz política que incomodava. E, ao nomear isso, o Supremo escreve uma linha dura no caderno da República.
Marielle virou símbolo. Símbolos incomodam porque não morrem fácil. Eles insistem em reaparecer na forma de flor amarela, de cartaz em passeata, de nome citado em plenário. Anderson, menos lembrado nos discursos, segue lembrando que a violência política atinge também quem está ao lado, trabalhando, vivendo.
A Justiça, quando funciona, não é espetáculo. É procedimento. É voto fundamentado. É unanimidade quando os fatos falam alto demais para serem ignorados. Desta vez, falaram.
E o país, que tantas vezes aprende pelo trauma, recebe uma lição simples e rara: memória não é vingança. É compromisso.