
Por João Guató
O jaleco branco, símbolo antigo de confiança, virou peça de inquérito. No lugar do estetoscópio, planilhas. No lugar da receita, transferências fracionadas. A Operação Argos, deflagrada pela Polícia Civil da Paraíba com apoio das polícias de Mato Grosso, São Paulo e Bahia, desenhou o que investigadores chamam de “holding do crime”, um consórcio organizado para transportar cocaína e lavar dinheiro com a disciplina de empresa de capital aberto.
A investigação aponta que o grupo teria movimentado cerca de R$ 500 milhões desde 2023. A Justiça bloqueou R$ 104,8 milhões em ativos e determinou o sequestro de 13 imóveis de alto padrão e 40 veículos de luxo avaliados em mais de R$ 8 milhões. Foram 44 mandados de prisão e 45 de busca e apreensão em 13 cidades. A escala impressiona. O método também.
Um delegado que participa da investigação resumiu assim: “É uma estrutura empresarial. Cada núcleo tem função definida. Transporte, distribuição e, principalmente, o financeiro.” O coração da engrenagem, segundo a polícia, pulsava em contas bancárias aparentemente comuns.

Naiara Batistello, 38 anos, médica formada na Bolívia, atuava em Nova Santa Helena, interior de Mato Grosso. Segundo as investigações, teria funcionado como “hub de liquidez” da organização. Em termos menos técnicos, seria a central que recebia, redistribuía e dava aparência lícita ao dinheiro da cocaína.
Em 29 meses, conforme a apuração, mais de R$ 10,9 milhões passaram por contas pessoais e pela empresa Batistello Serviços Médicos, aberta em julho de 2023. A polícia afirma que valores oriundos da venda de droga em vários estados eram concentrados ali antes de serem pulverizados novamente.
No cumprimento do mandado de prisão preventiva, em 26 de fevereiro, foram apreendidos carro de luxo, joias, notebook e celular. Um investigador afirmou: “Ela não transportava droga. O papel era mais sofisticado. Centralizava o dinheiro e redistribuía para a cúpula.”
A defesa da médica não havia se manifestado até as últimas publicações. O registro profissional dela segue ativo no Estado. No papel, clínica-geral. No inquérito, elo financeiro.
A EX-BANCÁRIA E A ENGENHARIA DA LAVAGEM

Outra peça central é Giovanna Parafatti, ex-bancária. De acordo com a polícia, teria movimentado cerca de R$ 15 milhões por meio de uma holding familiar e empresas de fachada. A experiência no sistema financeiro, afirmam os investigadores, ajudava a dar verniz técnico à ocultação patrimonial.
A estratégia incluía fracionamento de valores, uso de familiares para registrar bens e aquisição de veículos esportivos destinados à cúpula do grupo. Um agente resumiu: “Era lavagem com método. Não era improviso. Havia conhecimento bancário aplicado.”
A organização utilizava carretas de empresas formalmente constituídas para transportar cocaína entre estados. Enquanto a droga cruzava rodovias, o dinheiro atravessava contas, contratos e CNPJs. Tudo com aparência de normalidade contábil.
R$ 104 MILHÕES BLOQUEADOS E O BRASIL DAS EMPRESAS DE FACHADA

A Justiça determinou o bloqueio de R$ 104,8 milhões e o sequestro de 13 imóveis de alto padrão. Quarenta veículos de luxo foram apreendidos. Documentos e equipamentos eletrônicos seguem sob análise. A investigação continua, com cruzamento de movimentações bancárias e rastreamento patrimonial.
Um promotor ouvido na apuração afirmou que o caso revela “uma profissionalização do crime organizado, que replica modelos empresariais tradicionais”. A expressão “holding do crime” não é figura de linguagem. É descrição funcional.
A Operação Argos expõe uma realidade incômoda: o tráfico não vive apenas na esquina escura. Ele frequenta escritórios, clínicas, empresas abertas na Junta Comercial. Usa contratos, notas fiscais e transferências eletrônicas. O dinheiro ilícito, quando bem vestido, passa despercebido até que a conta feche.
No interior de Mato Grosso, uma médica atendia pacientes enquanto, segundo a polícia, cifras milionárias circulavam em paralelo. No Nordeste, investigadores desmontavam uma engrenagem que cruzava fronteiras estaduais com naturalidade corporativa.
A presunção de inocência permanece. A investigação segue. Mas o retrato já é perturbador: o crime organizado não improvisa. Planeja. Investe. Diversifica. E, quando possível, veste jaleco.