O FRANCÊS QUE ESCREVE COM OCO DE VENTO E SANGUE DE JIBOIA


 

Por João Guató 

Tem escritor que a gente lê e fecha o livro satisfeito, como quem termina um café bem tirado na esquina. E tem escritor que não se lê: mastiga-se devagar, como carne de sol dura, que obriga o dente a pensar. Jacques Moendy Gauthier é desse segundo tipo. Não entrega frases, entrega travessias.

Francês de nascimento, baiano por insistência existencial, radicado em Salvador, Gauthier escreve como quem não separa cabeça de corpo nem teoria de terreiro. Há décadas no Brasil, ele parece ter entendido algo que muitos doutores ainda fingem não ver: conhecimento não é propriedade privada do laboratório, é mutirão.

Em O Oco do Vento, publicado em 2020, ele apresenta uma espécie de autobiografia intelectual que não pede licença à neutralidade acadêmica. Ali estão o candomblé, o Santo Daime, as lutas anticoloniais e uma ética da fragilidade. Fragilidade como método, veja só. Num mundo obcecado por produtividade e certeza, o homem propõe emoção, escuta e não separação entre pesquisador e pesquisado. Não é fraqueza. É recusa de violência epistemológica.

O livro soa como manifesto e confissão. A sociopoética, conceito que ele vem amadurecendo há décadas, aparece como prática sensível: o saber nasce do encontro. Parece simples. Não é. Exige abdicar do trono acadêmico, coisa que muita gente defende com unhas, Lattes e vaidade.

Já no artigo A Sociopoética, ou…, de 2009, ele organiza o núcleo duro de sua proposta. O texto é enxuto, mas detonador. Ali surgem os grupos-pesquisadores, os “confetos”, os ritornelos, personagens conceituais que lembram Deleuze passeando pelo Recôncavo. A pesquisa deixa de ser coleta e vira criação coletiva. Todos pensam. Todos produzem conceito. Inclusive quem sempre foi tratado como objeto.

Há cinco orientações básicas na sociopoética, entre elas a participação ativa de todos, a valorização de racionalidades sensíveis e a centralidade das culturas historicamente dominadas. Não é adorno multicultural. É deslocamento de eixo. Sai o eurocentrismo como régua única, entra a pluralidade como condição.

Em Sociopoética e Contracolonialidade, de 2024, o pensamento ganha densidade política ainda mais clara. O diálogo com Ailton Krenak e Nêgo Bispo atravessa as páginas como quem atravessa rio em cheia: não se passa seco. Gauthier aproxima sua metodologia da contracolonialidade, essa prática de afirmar modos de vida que o colonialismo tentou reduzir a folclore ou silêncio.

A metáfora da Jiboia sagrada sintetiza o movimento do saber: espiralado, vivo, ancestral. Conhecimento não como linha reta rumo ao progresso, mas como corpo que se enrola, troca de pele, permanece e se transforma. A sociopoética aqui não é só método. É ética de confluência. É política de presença.

Nos livros de poesia, como Os Cantos do Nahual e O Cristal do Orvalho, essa filosofia deixa a sala de aula e entra no ritual. Os poemas nascem de iniciações, medicinas, estados ampliados de percepção. Não são textos para análise fria. São registros de experiência. A linguagem é imagética, sensorial, atravessada por animais, minerais, vento e orvalho. Há algo de canto e de reza, sem pedir desculpa à academia.

Lidos em conjunto, seus trabalhos revelam coerência rara. Não há ruptura oportunista, há aprofundamento. De O Oco do Vento à Contracolonialidade, a aposta é a mesma: conhecimento se cria com os outros, especialmente com aqueles que a história tentou calar.

Num tempo em que muita produção intelectual parece linha de montagem, Gauthier insiste na lentidão do encontro. Talvez por isso não se leia suas obras. Degustam-se. E saímos delas com uma sensação incômoda e fértil: a de que pensar pode ser um ato de cuidado.

E isso, para os cínicos de plantão, é quase subversivo.

Se você gosta de livro que serve apenas para confirmar o que já pensa, passe longe. Agora, se aceita o risco de sair um pouco desalinhado por dentro, vale abrir O Oco do Vento, atravessar a arquitetura conceitual de Sociopoética e Contracolonialidade, compreender as bases em A Sociopoética, ou… e se permitir a experiência sensível de Os Cantos do Nahual e O Cristal do Orvalho.

Não é leitura para consumo apressado nem para foto em rede social. É para quem aceita pensar com o corpo, com o território, com a história. Em tempos de opinião instantânea e certezas plastificadas, talvez o gesto mais radical seja sentar, abrir um livro e escutar outras epistemologias respirarem.

Leia Jacques Moendy Gauthier. Não para concordar. Para ampliar. Porque há livros que informam. E há livros que deslocam. Os dele pertencem à segunda espécie.