
Por João Guató
Calendário brasileiro tem dessas ironias que fariam qualquer cronista coçar a cabeça. No dia 8 de março a gente compra flores, posta foto bonita nas redes sociais, escreve mensagens açucaradas e declara amor às mulheres. No resto do ano, estatística vira rotina. E rotina, como todo mundo sabe, é o jeito mais educado de esconder uma tragédia.
Mato Grosso, esse estado que adora se apresentar como potência agrícola, também cultiva um outro tipo de safra. Uma safra amarga. Em 2025 foram cerca de 2,7 assassinatos de mulheres por 100 mil habitantes, bem acima da média nacional, que ficou em torno de 1,6. Em algumas cidades o cenário parece coisa de filme ruim. Cáceres, por exemplo, chegou a registrar 15,3 feminicídios por 100 mil habitantes, um número tão grotesco que faria qualquer sociedade minimamente decente entrar em estado de choque.
Mas aqui a gente aprende rápido a conviver com o absurdo.
Em 2023, Mato Grosso liderou o ranking nacional de feminicídios: 103 mulheres assassinadas por razão de gênero. No ano seguinte, foram 100 mortes. Não é estatística. São cem histórias interrompidas. Cem mães, filhas, companheiras, trabalhadoras. Mulheres entre 20 e 49 anos, com filhos, contas para pagar, sonhos ainda em andamento.
Grande parte delas morreu dentro da própria casa.
O lugar que deveria ser abrigo virou cena de crime.
A filósofa Simone de Beauvoir escreveu uma frase que virou farol para o pensamento moderno:
“Não se nasce mulher: torna-se.”
No Brasil, muitas vezes, parece que se nasce mulher já com um risco no corpo.
Os números da violência doméstica mostram que a tragédia não é exceção. É sistema. Entre 2023 e 2025, mais de 52 mil mulheres pediram medidas protetivas em Mato Grosso. Dessas, milhares precisaram carregar o chamado botão do pânico. Uma espécie de talismã eletrônico contra o terror cotidiano.
Mesmo assim, o descumprimento dessas medidas mais que dobrou, saltando de 411 para 1.022 casos.
Traduzindo para português claro: a lei manda parar. O agressor ignora. E a mulher continua vivendo na fronteira do medo.
A escritora Virginia Woolf deixou uma observação incômoda:
“Pela maior parte da História, ‘anônimo’ foi uma mulher.”
Talvez por isso tantas histórias terminem antes de serem plenamente contadas.
A Pesquisa Estadual de Violência contra a Mulher, feita com 808 mato-grossenses, revelou algo que dispensa retórica:
32% das mulheres afirmam já ter sofrido violência doméstica ou familiar.
20% sofreram violência apenas no último ano.
Ou seja, enquanto você lê esta crônica, provavelmente há uma mulher tentando disfarçar um hematoma com maquiagem, tentando explicar para os filhos por que o silêncio da casa pesa tanto.
A poeta Gioconda Belli avisou, com aquela sinceridade que só a poesia permite:
“Se és uma mulher forte, prepara-te para a batalha.”
No Brasil, essa batalha muitas vezes começa dentro da sala de casa.
Mesmo assim, as mulheres continuam. Trabalham, criam filhos, sustentam famílias, enfrentam o mundo e ainda encontram tempo para ensinar ao país inteiro algo que ele ainda não aprendeu: dignidade.
A poeta Cora Coralina disse numa frase simples e monumental:
“Mulher é desdobrável. Eu sou.”
Talvez esteja aí a grande força feminina. A capacidade de se reinventar mesmo quando o mundo insiste em quebrá-las.
E enquanto isso, no nosso teatro político, autoridades fazem discursos bonitos, inauguram campanhas coloridas e posam para fotos ao lado de cartazes contra a violência.
A foto sai boa.
A realidade, nem tanto.
A ativista Angela Davis resumiu melhor que qualquer relatório oficial:
“Eu não estou aceitando as coisas que não posso mudar; estou mudando as coisas que não posso aceitar.”
Talvez seja esse o verdadeiro espírito do Dia das Mulheres. Não flores, não discursos, não hashtags.
Mas a coragem diária de milhões de mulheres que acordam, enfrentam o mundo e ainda assim seguem de pé.
Porque, no fundo, este 8 de março não é apenas uma homenagem.
É um lembrete.
E lembretes costumam ser desconfortáveis para quem prefere fingir que está tudo bem.