A COLUNA PRESTES E OS REVOLTOSOS ESTIVERAM EM DIAMANTINO, MATO GROSSO

Por João Guató

Diamantino é dessas cidades do interior de Mato Grosso que parecem dormir em pé. Quem passa pela praça imagina que o tempo ali foi guardado em armário de cedro, junto com as atas da Câmara e as fotografias em sépia. Mas a história, quando resolve acordar, faz barulho de tropa.


O historiador Joel Praxedes abriu o Facebook e, no meio das selfies e das receitas milagrosas, lançou uma lembrança de pólvora. Falou da passagem da Coluna Prestes por Diamantino. Chamados de revoltosos pelo povo, aqueles homens atravessaram o país como quem atravessa um rio turvo, deixando margem em sobressalto. Em Mato Grosso, a poeira deles não foi metáfora.


A chamada Coluna Prestes nasceu do incêndio político da Revolução de 1924. Jovens oficiais, armados de ideal e carabina, cruzaram treze estados entre 1924 e 1927. Para uns, eram esperança. Para outros, ameaça com cartucheira. Nos jornais da época, o rótulo vinha seco: revoltosos.


Joel recorda que, em 1924, Diamantino sentiu o sopro dessa marcha. O intendente municipal, doutor Mário Ferreira Mendes, virou alvo do medo coletivo. Não é difícil imaginar a cena. A cidade pequena, o boato correndo mais rápido que cavalo, mães fechando portas, homens reunidos na esquina como se o simples ato de ficar juntos fosse defesa.


O delegado, capitão João Capistrano da Silva, e o oficial de justiça Venâncio Praxedes de Carvalho, descrito de lenço no pescoço e armado, teriam dado guarida ao prefeito e à família. Levaram-nos para lugar seguro. Não houve heroísmo de estátua. Houve prudência de gente que conhecia o peso de um tiro.


A história maior confirma que a Coluna passou por Mato Grosso, atacou cidades como Cáceres e percorreu regiões como Barra do Bugres. Saques, prisões, gado levado no grito. Isso está documentado. O que não aparece nos compêndios nacionais é o capítulo diamantinense com seus nomes próprios e seus gestos de urgência.


E talvez seja assim que a história municipal sobrevive. Não nos grandes livros, mas na memória que atravessa gerações. Joel Praxedes escreve como quem passa adiante uma lamparina. Há ainda a lembrança de que o ministro Gilmar Mendes tem raízes no município, ramos de uma árvore que viu o século virar mais de uma vez. A política brasileira, que hoje se resolve em plenário e transmissão ao vivo, já foi decidida no ranger das botas na rua de terra.


Diamantino não foi só cenário. Foi personagem. Cidade acuada, mas não muda. Cidade que viu autoridades fugirem não por covardia, mas por estratégia. Em tempos de pólvora, sobreviver já era forma de resistência.


A Coluna virou capítulo de livro. Os revoltosos ganharam verbete. Mas a noite em que um prefeito foi escoltado para longe do perigo permanece naquelas histórias que não pedem aplauso. Pedem apenas que alguém as conte direito


OS MENDES EM DIAMANTINO


Diamantino não produz apenas poeira vermelha e histórias sussurradas em varanda. Produz sobrenomes. E poucos sobrenomes ali pesam tanto quanto Mendes. Não é exagero. É constatação de arquivo, ata e sentença.


Desde o fim do século XIX, a família Mendes foi se entranhando na vida pública como raiz que não aceita vaso pequeno. O desembargador Joaquim Pereira Ferreira Mendes e Francisco Ferreira Mendes são apontados como os troncos iniciais dessa árvore. Não eram apenas homens de seu tempo. Eram homens que moldavam o tempo, sentados à mesa do Judiciário quando Mato Grosso ainda aprendia a se organizar como Estado moderno.


A partir deles, a linhagem não se dispersou. Ao contrário, se adensou. Magistrados gerando magistrados, como se o ofício fosse passado junto com o sobrenome. No Brasil, onde as instituições costumam ter memória curta, a permanência já é uma forma de poder.


No centro dessa engrenagem está o Dr. Mário Ferreira Mendes. Filho de Joaquim Pereira Ferreira Mendes, tornou-se também desembargador do Tribunal de Justiça de Mato Grosso. Não foi apenas herdeiro. Foi elo. É dele que parte a geração que atravessa o século XX e chega ao XXI ainda ocupando espaços estratégicos.


Entre seus descendentes está o ministro Gilmar Mendes, figura nacional, protagonista de debates que fazem Brasília ferver. Outro ramo levou ao comando municipal: Francisco Ferreira Mendes, prefeito de Diamantino no período do regime militar. A política local, que parece pequena no mapa, é sempre imensa para quem vive nela.


Outros nomes seguiram o curso do Direito. Ítalo Fioravanti Sabo Mendes tornou-se desembargador do TRF-1. Yale Sabo Mendes ganhou projeção como juiz e estudioso do Direito do Consumidor. Francisco Ferreira Mendes Júnior, conhecido como Chico Mendes, voltou à prefeitura de Diamantino em dois mandatos. A família ainda se projetou na educação superior, com a criação da UNED, ligada à iniciativa de Gilmar Mendes. Não se trata de um caso isolado. É continuidade.


Diamantino, vista de fora, pode parecer cidade de passado quieto. Mas basta folhear seus registros para perceber que ali se formou uma espécie de dinastia civil, dessas que não precisam de coroa. Precisam de concurso público, eleição e toga.


Há quem admire. Há quem critique. Famílias longas em poder sempre despertam sentimentos mistos. Mas ignorar o papel dos Mendes na formação política e jurídica de Mato Grosso seria amputar parte da história do Estado.


No fundo, a cidade segue vivendo entre a praça, o fórum e a igreja. E o sobrenome Mendes continua ecoando pelos corredores. Em Diamantino, certos nomes não são apenas assinatura. São capítulo.



A SOMBRA DO PASSADO 



Diamantino nasceu do ouro. E ouro, no Brasil colonial, quase nunca vinha sem corrente. Antes de sobrenomes ilustres ocuparem o fórum e a prefeitura, havia braços negros cavando barranco, peneirando esperança em bateia, erguendo igreja e casa de sobrado.


No século XVIII, a cidade se firmou como arraial minerador. Como em outras regiões do Centro-Oeste, a economia dependia de trabalho escravizado africano e afrodescendente, além de formas compulsórias de exploração indígena. A Província de Mato Grosso criou normas para vigiar, punir e tributar pessoas escravizadas. Quilombos surgiram como resposta e foram perseguidos pelo poder provincial. A escravidão ali não foi detalhe. Foi estrutura.


Quando o 13 de Maio chegou, em 1888, não apagou o que já estava desenhado. Mudou o estatuto jurídico, não a hierarquia social. A população negra permaneceu majoritária nas camadas pobres, trabalhando na lavoura, no serviço urbano, nas ocupações mais duras e menos reconhecidas. A cidade que parecia pacata carregava um passado tenso sob a terra vermelha.


É nesse cenário pós-abolição que a família Mendes ganha relevo. O desembargador Joaquim Pereira Ferreira Mendes e seu filho, o Dr. Mário Ferreira Mendes, aparecem como magistrados e figuras centrais do poder local. Não há registros documentais que os apontem como proprietários de pessoas escravizadas. Atuam já em outra fase histórica, quando o regime legal da escravidão havia sido encerrado.


Mas ninguém governa no vazio. A elite política e jurídica do final do século XIX e início do XX administrava uma sociedade moldada por séculos de desigualdade racial. Decidia sobre terras, conflitos, impostos, polícia e justiça em um ambiente onde a maioria negra carregava as marcas recentes da exclusão formal e informal.


A relação, portanto, não precisa ser lida como posse direta para existir. Ela se manifestava no exercício do poder. Magistrados julgavam causas que envolviam trabalhadores pobres. Prefeitos definiam prioridades de investimento. Autoridades mediavam conflitos rurais que, muitas vezes, atingiam comunidades negras. O Estado local tinha rosto e sobrenome.


Diamantino também viu a formação de comunidades negras rurais e remanescentes de quilombos, parte essencial de sua identidade cultural. Essas comunidades preservaram memória, religiosidade, práticas agrícolas e redes de solidariedade que sustentaram gerações. Enquanto isso, as famílias tradicionais consolidavam influência nas instituições.


A família Mendes, que mais tarde projetaria nomes como Gilmar Mendes no cenário nacional, é parte dessa história maior. Não como exceção isolada, mas como componente de uma engrenagem social que herdou desigualdades e as administrou segundo as regras de seu tempo.


A história racial de Diamantino ainda tem lacunas. Muitos documentos permanecem dispersos em cartórios, arquivos domésticos, jornais amarelados. Parte significativa vive na memória oral, que resiste mesmo quando o papel falha. Reconstruir essa trama exige cuidado e rigor, sem condenações automáticas nem absolvições apressadas.


O que se pode afirmar com segurança é simples e desconfortável: Diamantino foi construída por mãos negras. Depois da abolição, o poder continuou concentrado em poucas famílias. Entre elas, os Mendes. Entender essa convivência é compreender que a cidade não se explica apenas pelo brilho das togas ou pela solidez dos sobrenomes, mas também pela história profunda daqueles que raramente tiveram o próprio nome registrado nos livros oficiais.


QUANDO O PAPEL SOME E A MEMÓRIA FICA



Existe uma fé moderna de que só é real aquilo que aparece na tela. Se não está digitalizado, indexado e com lupa de busca, então virou lenda. Diamantino ri disso em silêncio. A cidade sabe que o Brasil foi construído muito antes do “ctrl + F”.


No início do século XX, delegados eram nomeados muitas vezes de forma local e provisória. Capitães da Guarda Nacional acumulavam funções, autoridade e risco. Nem tudo subia para registro estadual organizado. Parte ficava em livro de capa dura guardado em armário de madeira. Parte ficava na cabeça das pessoas.


Três fatores explicam o silêncio digital. Primeiro, os documentos policiais do período não foram integralmente digitalizados. Segundo, muitas nomeações eram circunstanciais, feitas para resolver urgências locais, sem grande formalização burocrática. Terceiro, Diamantino perdeu parte de seus arquivos antigos. Incêndios, descuido, mudança de sede. O Brasil não é exatamente um país obcecado por preservação documental.


Isso não transforma pessoas em ficção. Apenas desloca a prova para outros lugares. Arquivos físicos, cartórios, jornais regionais, atas de Câmara, registros de batismo e óbito. E, sobretudo, memória familiar.


João Capistrano da Silva aparece nesse território híbrido entre papel e lembrança. Indicado como delegado e capitão da Guarda Nacional, ligado a uma família tradicional, atuando em período de tensão regional. É citado como aquele que, junto com Venâncio Praxedes de Carvalho, teria protegido o intendente Mário Ferreira Mendes durante a invasão de revoltosos associada à Coluna Prestes.


Não há prontuário digital com carimbo azul. Há narrativa persistente. E narrativa persistente, em história local, não é detalhe descartável. Muitas vezes é o único fio que restou.


Diamantino depende desse fio. Cidade antiga, marcada por mineração, escravidão, disputas políticas e surtos de modernização, construiu parte de sua identidade no boca a boca responsável. Famílias guardam documentos em gavetas. Sobrenomes funcionam como arquivos ambulantes.


A ausência de registro online não invalida a existência histórica de João Capistrano da Silva. Apenas revela o estágio da nossa organização documental. Confundir silêncio digital com inexistência é erro confortável. E conforto raramente combina com investigação séria.


Em cidades como Diamantino, a história sobrevive porque alguém decide contá-la antes que o pó a cubra por inteiro.



VENÂNCIO PRAXEDES DE CARVALHO, O HOMEM DO LENÇO E DA LEI




Cidades antigas costumam ter dois tipos de personagem: os que aparecem nos livros e os que aparecem quando a porta bate às pressas. Venâncio Praxedes de Carvalho pertence ao segundo grupo. Não deixou coleção de discursos. Deixou rastros de cumprimento de mandado.


Na Diamantino do início do século XX, o oficial de justiça não era figura burocrática de corredor silencioso. Era braço visível da lei. Cumpria mandados, efetuava prisões, entregava notificações, atravessava estrada de chão com papel na algibeira e arma na cintura. A Comarca não era abstrata. Era território, distância e risco.


Venâncio Praxedes de Carvalho surge nesse cenário como oficial de justiça, auxiliar direto do juiz e parceiro operacional do delegado. O sobrenome Praxedes aparece em registros locais e genealogias da cidade desde o século XIX, associado a funções públicas e liderança comunitária. Não era homem isolado. Era parte de uma linhagem que orbitava o poder institucional.


A memória local o descreve como aliado do capitão João Capistrano da Silva, delegado da cidade, e figura de confiança do intendente Dr. Mário Ferreira Mendes. Em tempos de instabilidade ligados à movimentação da Coluna Prestes, teria participado da retirada do intendente e de sua família para local seguro. Não há ata digitalizada com selo escaneado. Há tradição oral consistente e referências em acervos físicos da comarca.


Convém lembrar que, em cidades pequenas, oficiais de justiça frequentemente acumulavam funções que hoje seriam divididas entre polícia, defesa civil e aparato administrativo. Quando a ordem pública vacilava, eram eles que atravessavam a rua primeiro. Não por bravura romântica, mas porque o cargo exigia.


A ausência de registros em bases estaduais online não surpreende. Documentos da época permanecem em cartórios, livros manuscritos e arquivos ainda não digitalizados. O Brasil republicano do interior produziu muito papel e pouca preservação sistemática.


Venâncio Praxedes de Carvalho representa esse tipo de personagem que sustenta a engrenagem sem aparecer na fotografia oficial. Homem da execução da lei, da diligência cumprida, do risco cotidiano. Em Diamantino, seu nome permanece menos por decreto publicado e mais por memória transmitida.


E, em cidades assim, memória é arquivo vivo.




Nota Literária

Entre a sensibilidade da crônica e o rigor da reportagem literária, nasce uma obra que transforma fatos em narrativa viva e reflexão crítica. A crônica-reportagem assinada por João Guato revela, com olhar atento e linguagem envolvente, os contornos humanos por trás dos acontecimentos, costurando realidade e interpretação com maestria.

Complementando a narrativa, a criação da charge amplia o discurso textual por meio da força simbólica da imagem, traduzindo em traços e ironia aquilo que as palavras denunciam e anunciam. A colaboração do canal Canal do Conhecimento, com a contribuição intelectual do historiador diamantinense Joel Praxedes, acrescenta densidade histórica e contextual à obra, promovendo um diálogo entre passado e presente.

O resultado é uma produção que ultrapassa a informação: convida à reflexão, instiga o senso crítico e reafirma o poder da literatura e do humor gráfico como instrumentos de consciência social.