ABÍLIO E A ARTE DE APOIAR DOIS GOVERNADORES SEM SAIR DO LUGAR

Por João Guató 

Cuiabá sempre teve calor, poeira e política criativa. Não necessariamente nessa ordem. E agora a capital mato-grossense ganhou uma nova modalidade esportiva: o apoio simultâneo a dois candidatos ao governo. O inventor da modalidade atende pelo nome de Abílio Brunini, prefeito da cidade e, ao que tudo indica, pioneiro na técnica do “apoio quântico”.


Funciona assim: o sujeito apoia Wellington Fagundes e Otaviano Pivetta ao mesmo tempo. Está com os dois. Ou com nenhum. Depende do ângulo, da fé política do observador e, claro, do resultado das urnas.


O anúncio veio durante um evento do PL na capital. Abílio, com a tranquilidade de quem pede um pastel na feira, explicou que pretende dividir seu apoio entre o senador Wellington Fagundes e o vice-governador Otaviano Pivetta.


Dividir apoio.


Na teoria parece elegante. Na prática lembra aquela história do sujeito que tenta namorar duas moças da mesma rua e acaba tomando tapa das duas.


Dentro do PL, claro, o ambiente ficou meio constrangido. Partido político ainda preserva uma superstição antiga chamada coerência. O senador Wellington Fagundes, percebendo que a coisa poderia virar uma feira livre, tratou de afirmar que vai trabalhar pela unidade do partido em torno da sua pré-candidatura ao Palácio Paiaguás.


Em português claro: alguém precisa impedir que o barco vire uma jangada.




Abílio, por sua vez, explicou que mantém boa relação com ambos e que pretende preservar o diálogo institucional com quem assumir o governo do Estado. Segundo ele, a posição já havia sido sinalizada antes e reflete sua relação pessoal com os dois pré-candidatos.


Tradução para o português cuiabano: é uma paçoca política.


Bate tudo no pilão e depois tenta explicar que virou receita gourmet.


Mas há lógica nessa confusão. Política nunca é apenas desorganização. Às vezes é cálculo.


Abílio tem uma dívida política com Otaviano Pivetta. Foi Pivetta quem atravessou a candidatura do deputado Eduardo Botelho na disputa pela Prefeitura de Cuiabá para ajudar financeiramente Abílio contra Lúdio Cabral, do PT.


Naquela eleição municipal, a direita mato-grossense parecia um churrasco de família em fim de festa: todo mundo discutindo quem pagou a carne.


De um lado estava o grupo que acabou financiando e sustentando Abílio. Do outro, a ala da extrema direita ligada ao senador Carlos Fávaro, hoje ministro da Agricultura.


Abílio venceu. E vitória em política costuma vir acompanhada de uma pequena coleção de dívidas invisíveis.


Só que a vida política resolveu complicar o enredo.


Porque Abílio também precisa apoiar Wellington Fagundes. Não por entusiasmo, mas por hierarquia partidária. Wellington ajudou pouco financeiramente na campanha do prefeito, fama de mão de vaca que corre solta pelos corredores da política mato-grossense, mas carrega algo bem mais pesado: o carimbo do bolsonarismo.


Flávio Bolsonaro já declarou que Wellington Fagundes é o nome do PL para o governo de Mato Grosso. E quando um Bolsonaro escolhe um candidato, muita gente no partido passa automaticamente para o modo continência.


Resultado: Abílio ficou espremido entre dois compromissos.


Um com quem ajudou a pagar a campanha.


Outro com quem controla o partido.


A solução encontrada pelo prefeito é digna de tese de doutorado em malabarismo eleitoral: apoiar os dois.


Mas o enredo ainda reserva um capítulo religioso.


Existe outro território delicado nessa história: o eleitorado evangélico, especialmente dentro das Assembleias de Deus. Ali o prefeito também precisa administrar expectativas, memórias e alguns tapetes que foram discretamente puxados ao longo da caminhada política.


Nesse cenário reaparece o ex-deputado federal Vitório Galli.


Galli será candidato a deputado federal em 2026 pelo Progressistas. A informação aparece nas articulações que envolvem a federação entre União Brasil e PP em Mato Grosso.


Essa federação deve compor a base política da candidatura de Otaviano Pivetta ao governo do Estado.


E aí entra o pequeno detalhe que incomoda.


Vitório Galli conhece bem o território evangélico. Sabe conversar com pastores, entende o idioma dos templos e tem trânsito em várias denominações pentecostais.


Em outras palavras, Galli pode funcionar como uma ponte poderosa dentro desse eleitorado.


O problema é que esse espaço religioso sempre foi uma das vitrines políticas de Abílio Brunini. A entrada de Galli na disputa pode acabar reduzindo o protagonismo do prefeito no mundo gospel da política.


Em política, protagonismo é como cadeira em igreja cheia: se alguém levanta, outro senta.


No meio dessa reengenharia política, Abílio tenta equilibrar partido, financiadores, bolsonarismo, governo do Estado e igrejas. Um exercício digno de equilibrista atravessando fio de arame em tarde de vento no Porto de Cuiabá.


Mas política tem uma característica inconveniente: chega uma hora em que o sujeito precisa escolher um lado.


E aqui vai o palpite deste cronista que já viu promessa política evaporar mais rápido que água no asfalto cuiabano ao meio-dia:


Quando a disputa apertar, Abílio Brunini deve apoiar de verdade Otaviano Pivetta.


Porque na política brasileira existe uma regra antiga, silenciosa e quase científica:


Entre o padrinho ideológico e quem ajudou a pagar a campanha, quase sempre vence quem pagou a conta.


E como diriam os irmãos mais fervorosos nos cultos de domingo:


Que Deus tenha misericórdia dessa engenharia política.


Porque quando o sujeito entra na política com o bolso vazio e muita ambição, às vezes vende até a coerência.


E, se o mercado estiver aquecido, quase vende a alma junto no pacote.