CAITITU FORA DO BANDO VIRA JANTAR DE ONÇA — E NA POLÍTICA A SELVA COBRA MAIS CARO




Por João Guató

A sabedoria popular brasileira tem uma virtude que muitos tratados acadêmicos jamais conseguiram alcançar: ela não precisa de rodapé para funcionar. Não depende de bibliografia extensa nem de nota de rodapé em latim. Nasce da experiência concreta, da observação da vida real, do mato, do erro repetido e da lição aprendida sem seminário nem banca avaliadora. Entre essas pérolas da filosofia pantaneira que circulam de boca em boca no Mato Grosso existe uma que merecia constar no currículo de qualquer curso de ciência política: caititu fora do bando vira comida de onça.

Não é metáfora delicada. É regra ecológica. É conhecimento popular com cheiro de terra molhada depois da chuva. É um tipo de sabedoria que não se aprende em banco de universidade nem em aula ministrada por professor qualis A1. Aprende-se observando a natureza e, principalmente, observando o comportamento humano quando o poder entra em cena.

O caititu, esse primo disciplinado do porco-do-mato, não acredita em heroísmo individual. Ele vive em bando, anda em fila, se organiza em grupo e se defende coletivamente. Quando ameaçados, os caititus fazem aquilo que sabem fazer melhor: barulho, movimento e número. Um bando deles não chega a ser um exército, mas é suficiente para convencer a onça de que o almoço pode dar trabalho.

E convém respeitar esse detalhe zoológico. Quem já presenciou um bando de caititus avançando sabe que a coisa é séria. Se o sujeito não tiver a prudência de subir numa árvore rapidamente, corre o risco de descobrir, na prática, o que é o famoso canibalismo da natureza bruta. A vida no mato tem suas pedagogias próprias.

Agora imagine um caititu sozinho.

Sem o bando, ele perde proteção, perde orientação e perde coragem. Vira apenas mais um número na estatística silenciosa da cadeia alimentar. A onça não precisa correr, não precisa planejar estratégia sofisticada. Basta observar, calcular e esperar o momento certo. A natureza, nesse aspecto, tem uma objetividade que faria inveja a qualquer estrategista político.

Foi lembrando desse pequeno manual zoológico de sobrevivência que comecei a observar com mais atenção os movimentos recentes da política em Mato Grosso, particularmente a partir das movimentações do deputado estadual Eduardo Botelho. Cuiabano da gema, mas com aquele tempero de Várzea Grande no temperamento político, Botelho é cria da velha escola da família Campos, onde política se aprende primeiro ouvindo e depois falando.

Nos últimos tempos, o parlamentar tem defendido com entusiasmo quase missionário o projeto político que coloca Otaviano Pivetta como candidato ao governo de Mato Grosso e Mauro Mendes como futuro senador da República.

A frase que mais aparece em seus discursos é simples, curta e reveladora:

Nosso grupo.

Ele pronuncia com gosto. Enche a boca para dizer: “nosso grupo”.

Os políticos adoram essa expressão. Grupo virou a versão institucional do velho bando do mato. A diferença é que, em vez de casco, poeira e galhos quebrando, o bando moderno usa terno italiano, gravata discreta e assessor de imprensa especializado em explicar por que o político não pode falar com a imprensa.

Convém reconhecer: Botelho não é um aventureiro recém-chegado à política. Pelo contrário. É profissional do ramo. Aprendeu o ofício na prática, muito antes de a política virar espetáculo digital para rede social. Nos tempos da velha Centrais Elétricas Mato-Grossenses (Cemat), quando energia elétrica ainda tinha cheiro de estatal e transformador queimado, ele já circulava pelos corredores onde o poder não faz discurso: faz acordo.

Construiu empresa de eletrificação rural, atravessou décadas de bastidores e consolidou carreira política orbitando o ex-governador Jaime Campos, período em que ser aliado de um grupo político era quase um sobrenome.

Depois vieram as empresas de transporte coletivo, os movimentos discretos e a política subterrânea que marcou grande parte de sua trajetória entre os anos 1990 e o início da década passada. Botelho pertence àquela velha escola de políticos que falam pouco, observam muito e só colocam o rosto na vitrine quando o palco já está montado.

Macaco velho, como se diz no interior, não atravessa galho podre.

Mas a política tem dessas ironias saborosas que fariam qualquer cronista agradecer aos deuses da narrativa.

O mesmo Botelho que já experimentou o gosto amargo da traição eleitoral quando disputou a prefeitura de Cuiabá hoje abraça com entusiasmo um grupo cuja história política é, digamos, bastante didática em matéria de pragmatismo.

Porque a chamada turma da botina raramente foge ao roteiro.

Para entender isso, basta lembrar um personagem que Cuiabá conhece bem: o ex-deputado Carlos Brito, figura nascida politicamente nas lutas comunitárias do bairro Parque Cuiabá.

Brito era daqueles líderes que conheciam o bairro pelo nome das ruas e pelo apelido dos moradores. Foi presidente do bairro, assessor parlamentar na Assembleia Legislativa no gabinete de Luís Soares, vereador por Cuiabá e chegou a prefeito interino ao substituir o velho coronel Mareiles.

Mais tarde tornou-se deputado estadual e alcançou o posto de chefe da Casa Civil no governo de Blairo Maggi.

Era uma carreira política sólida, construída degrau por degrau, sem atalhos.

Até que, em 2006, Brito decidiu alinhar-se ao projeto político de Pivetta.

O resultado foi simples e silencioso: perdeu o mandato, virou primeiro suplente e nunca mais retornou ao protagonismo da política mato-grossense. Saiu do centro do palco como quem deixa o teatro depois que as luzes se apagam.

Coincidência?

Não.

Política raramente trabalha com coincidência. Prefere trabalhar com cálculo.

A turma da botina tem um método próprio de operação. Não invade. Não faz escândalo. Chega devagar, ocupa espaço, amplia influência e, quando o tabuleiro está reorganizado, redefine quem continua no jogo e quem virou peça descartável.

Não se trata de amizade. Trata-se de engenharia política.

Nesse ambiente, confiança não é exatamente um valor permanente. É mais uma ferramenta circunstancial. Funciona enquanto os interesses convergem. Quando o projeto exige reorganização, a engrenagem gira.

Por isso mesmo muitos veteranos da política mato-grossense costumam dizer, em tom meio resignado, que fazer política com Mauro Mendes, Pivetta e Blairo Maggi exige atenção redobrada. São estrategistas eficientes, organizados e obstinados. Mas fidelidade política, nesse universo, raramente sobrevive à próxima equação eleitoral.

É o tipo de parceria que funciona perfeitamente… até deixar de funcionar.

E é nesse momento que a metáfora do caititu volta a fazer sentido.

Ver Botelho defendendo com tanto entusiasmo o “nosso grupo” provoca uma cena curiosa para quem acompanha a política regional há algum tempo. Parece um caititu experiente atravessando a clareira acreditando que o bando está logo atrás.

Pode ser cálculo. Pode ser estratégia. Pode ser simplesmente sobrevivência política.

Botelho, é justo reconhecer, não chegou onde chegou por ingenuidade.

Mas a selva do poder tem leis próprias. E uma delas é brutalmente simples: quem muda de bando precisa ter absoluta certeza de que o novo grupo o considera indispensável.

Caso contrário, corre o risco de descobrir tarde demais que o barulho coletivo ficou para trás.

Na mata, a onça não corre atrás do animal mais forte.

Ela prefere o mais distraído.

E na política mato-grossense, a distração costuma custar mandato, carreira e memória.

Porque, no fim das contas, a velha lição do mato continua valendo:

caititu isolado não assusta predador.

Na natureza, a onça caça em silêncio.

Na política, ela aparece sorrindo para a fotografia.