DO CAMBURÃO AO GABINETE: O “JAPONÊS DA FEDERAL” AGORA DESPACHA NA PREFEITURA DE CUIABÁ





Por João Guató

Existe um velho ditado popular que diz que o diabo, quando decide agir, raramente trabalha sozinho. Em Cuiabá, porém, parece que ele aprendeu um método mais eficiente: basta um despacho administrativo e pronto. A política local volta a render manchetes que parecem saídas de uma crônica de humor ácido. Foi assim que a capital mato-grossense amanheceu com mais um capítulo curioso da gestão municipal. Pelo Ato GP nº 381/2026, o prefeito Abílio Brunini nomeou Newton Hidenori Ishii, nacionalmente conhecido como “Japonês da Federal”, para o cargo comissionado de Secretário Adjunto de Governo. A nomeação passou a valer a partir do dia 2 e foi publicada com toda a liturgia burocrática que costuma transformar decisões politicamente ruidosas em textos aparentemente técnicos e discretos.

O detalhe é que Newton Ishii não é um funcionário público qualquer retirado do anonimato administrativo. Ele se tornou personagem nacional durante os anos turbulentos da política brasileira recente, especialmente no auge da Operação Lava Jato. Era ele quem frequentemente aparecia nas imagens televisivas escoltando políticos e empresários presos. Sempre de óculos escuros, postura rígida e expressão neutra, acabou virando um rosto familiar para milhões de brasileiros que acompanhavam, entre indignação e entretenimento, o grande espetáculo judicial que dominou o país naquela década.

A presença constante de Ishii nas transmissões televisivas acabou produzindo um fenômeno tipicamente brasileiro: o agente da Polícia Federal virou personagem de cultura popular. O “Japonês da Federal” ganhou marchinha de carnaval, virou boneco gigante no carnaval de Olinda e passou a circular como meme recorrente nas redes sociais. Em um país que mistura política, drama institucional e humor com a mesma naturalidade com que mistura farofa no churrasco, a figura do agente federal virou símbolo visual de um momento em que muitos acreditavam estar assistindo a uma cruzada moral contra a corrupção.

Por trás da celebridade involuntária havia, de fato, uma longa carreira. Newton Ishii passou décadas atuando como agente da Polícia Federal, com forte presença em operações na região de fronteira e participação em investigações de grande repercussão. Durante muito tempo foi visto como parte daquele aparato estatal que simbolizava disciplina, combate ao crime e atuação firme contra redes de contrabando e corrupção.

Mas a política brasileira tem uma estranha vocação para escrever roteiros com reviravoltas dramáticas. Em 2023, Newton Ishii foi condenado pela Justiça por facilitação de contrabando na fronteira entre Brasil e Paraguai, em Foz do Iguaçu. A sentença determinou a perda do cargo público e o pagamento de multa de R$ 200 mil. A ironia histórica é quase didática: o agente que durante anos aparecia conduzindo suspeitos acabou envolvido em um processo judicial que o colocou no centro da própria narrativa criminal.

Outro capítulo pouco lembrado de sua trajetória remonta ao período da ditadura militar brasileira. Em entrevistas, o próprio Ishii relatou ter atuado como infiltrado em movimentos estudantis, repassando informações ao regime. Em outras palavras, enquanto estudantes protestavam contra o autoritarismo e organizavam mobilizações políticas, alguém dentro dos grupos produzia relatórios para os órgãos de segurança. É um daqueles episódios que, em países com memória histórica mais sensível, provocariam debates profundos sobre o passado autoritário. No Brasil, costuma aparecer apenas como nota lateral de biografia.

No campo político, os sinais de alinhamento também apontam em direção ao campo conservador. Ishii chegou a se filiar ao Patriota, partido associado ao espectro da direita brasileira, e participou de eventos ligados a grupos políticos desse campo ideológico. Ainda assim, em diversas entrevistas preferiu afirmar que não se considera nem de direita nem de esquerda, alegando não gostar de rótulos ideológicos. No Brasil contemporâneo, essa declaração costuma funcionar como uma espécie de neutralidade estratégica: o sujeito evita o rótulo, mas raramente evita o campo de gravidade política onde orbita.

E é justamente essa biografia — cheia de operações policiais, fama televisiva, condenação judicial e episódios históricos controversos — que agora desembarca oficialmente no Palácio Alencar, sede da Prefeitura de Cuiabá. Como Secretário Adjunto de Governo, Newton Ishii passa a ocupar uma função estratégica dentro da engrenagem política municipal, responsável por articulações institucionais e interlocução entre diferentes setores da administração.

A escolha do prefeito Abílio Brunini, claro, não passa despercebida. Há quem diga que o prefeito parece ter desenvolvido uma espécie de fascínio quase estético por figuras de farda. Polícia Federal, polícia militar, aparato de segurança — tudo que venha acompanhado de distintivo, colete ou sirene parece exercer certo encanto na narrativa política da atual gestão. Não chega a ser política pública propriamente dita. É mais um estilo administrativo, uma estética de governo que mistura segurança pública, espetáculo e simbolismo policial.

Nesse cenário, a nomeação de um personagem famoso justamente por aparecer em operações policiais televisionadas parece fazer todo sentido dentro da lógica simbólica do governo. É como se a gestão municipal estivesse montando sua própria galeria de personagens com aura de autoridade policial, quase como quem escala elenco para um seriado de investigação.

No fundo, talvez seja apenas mais um capítulo da velha tradição brasileira de transformar política em teatro. Personagens que vieram do mundo das operações federais agora ocupam cadeiras da administração municipal, enquanto a cidade observa, entre surpresa e resignação, mais uma dessas decisões que parecem ter sido escritas primeiro como sátira e só depois transformadas em ato oficial.

E assim segue Cuiabá, onde a realidade política continua tendo um talento extraordinário para parecer roteiro de crônica. Porque, no Brasil, às vezes a diferença entre ficção e administração pública cabe inteira dentro de um simples ato publicado no Diário Oficial.