DO “MAURINHO DA BIMETAL” AO GOVERNADOR DO ESTADO: A TRAJETÓRIA EMPRESARIAL E POLÍTICA DE MAURO MENDES


Por Joao Guató 

Cuiabá é uma cidade onde a política costuma circular primeiro nas rodas de conversa antes de virar manchete. Foi assim que muitos ouviram falar, ainda nos anos 2000, de um personagem que aparecia frequentemente nas conversas da turma ligada ao agronegócio e à política regional: “Maurinho da Bimetal”.


A expressão era usada por aliados do grupo político liderado pelo então governador Blairo Maggi e por figuras próximas do setor produtivo do Estado. Naquele período, Mauro Mendes ainda não era prefeito de Cuiabá nem governador de Mato Grosso. Era conhecido principalmente como empresário.


A origem da Bimetal


A trajetória empresarial de Mauro Mendes começa com a criação da Bimetal Indústria Metalúrgica Ltda., empresa fundada após sua formação em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).


A empresa se especializou na fabricação de torres metálicas para telecomunicações, um setor que se expandia rapidamente no Brasil entre os anos 1990 e 2000, acompanhando o crescimento da telefonia e da infraestrutura de comunicação.


Com o passar dos anos, a Bimetal tornou-se uma das indústrias relevantes do segmento em Mato Grosso e ajudou a projetar Mauro Mendes no cenário empresarial do Estado.


Incentivos fiscais no governo Maggi


Durante o governo Blairo Maggi, a Bimetal foi uma das empresas beneficiadas por incentivos fiscais estaduais, conforme citado em reportagens da época.


Uma matéria do site MidiaNews mencionou a empresa no contexto de uma disputa política em Cuiabá. Na ocasião, o então prefeito Wilson Santos acusou o governo estadual de conceder benefícios a empresas ligadas a aliados políticos.


Entre os exemplos citados estava justamente a Bimetal, de Mauro Mendes.


Blairo Maggi respondeu às críticas afirmando que os incentivos concedidos eram legais, transparentes e aprovados por um conselho técnico, seguindo a política industrial do Estado.


Apesar da confirmação da existência dos incentivos, não há registros públicos detalhando valores, percentuais ou contratos específicos concedidos à empresa.


Falta de transparência nos incentivos



A ausência de dados detalhados sobre esses incentivos não é exclusiva da Bimetal. Durante anos, muitos benefícios fiscais concedidos pelo governo de Mato Grosso não tiveram divulgação pública completa.


O próprio Mauro Mendes, já como governador, afirmou posteriormente que incentivos fiscais concedidos ao longo de cerca de 15 anos permaneceram “escondidos”, abrangendo governos de diferentes períodos, incluindo os de Blairo Maggi, Silval Barbosa e Pedro Taques.


Isso significa que os incentivos existiram, mas os valores e condições não foram divulgados de forma transparente na época.


Programas de incentivo industrial


Os incentivos fiscais concedidos naquele período geralmente estavam ligados a programas estaduais de desenvolvimento industrial.


Entre os mecanismos mais utilizados estavam:


• PRODEI (Programa de Desenvolvimento Industrial)

→ redução de ICMS para empresas que gerassem empregos e investimentos no Estado.


• Crédito presumido de ICMS

→ descontos no imposto devido pelas empresas beneficiadas.


• Benefícios para aquisição de máquinas e expansão industrial

→ estímulo à ampliação de parques industriais.


Como indústria metalúrgica fornecedora de estruturas e torres metálicas, a Bimetal se encaixava no perfil das empresas que o governo estadual buscava estimular naquele período.


Expansão empresarial e criação do Grupo Bipar


Com o crescimento da Bimetal, Mauro Mendes estruturou um grupo empresarial mais amplo, o Grupo Bipar, que passou a reunir diferentes empresas em áreas variadas.


Entre elas:


• Bimetal Indústria Metalúrgica

• Bipar Energia

• Bipar Investimentos e Participações

• Mavi Engenharia e Construções


O grupo atuava em setores como metalurgia, energia, construção e investimentos, ampliando a presença empresarial de Mauro Mendes no Estado.


Esse crescimento empresarial também projetou o empresário em entidades representativas do setor industrial.


Mauro Mendes chegou a ocupar cargos importantes, como:


• Presidente da Federação das Indústrias de Mato Grosso (FIEMT)

• Vice-presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI)


Essas posições ampliaram sua visibilidade pública e abriram caminho para sua entrada na política.


Crise empresarial e recuperação judicial


A trajetória empresarial também enfrentou dificuldades.


Em 2015, o Grupo Bipar entrou em recuperação judicial, declarando dívidas que variavam entre R$ 100 milhões e R$ 126 milhões.


Entre os fatores apontados pela empresa para explicar a crise estavam:


• perda de crédito bancário

• inadimplência de clientes

• dificuldades relacionadas à exposição política do próprio Mauro Mendes


O processo de recuperação judicial durou nove anos.


A recuperação foi encerrada apenas em 2025, após o cumprimento das obrigações previstas no plano aprovado pela Justiça.


Da indústria à política


Enquanto o grupo empresarial enfrentava dificuldades financeiras, a carreira política de Mauro Mendes avançava.


Ele foi eleito:


• Prefeito de Cuiabá

• posteriormente Governador de Mato Grosso


A trajetória que começou com a Bimetal acabou se tornando a base de sua projeção política.


Hoje, Mauro Mendes governa o Estado com um discurso centrado em gestão eficiente, responsabilidade fiscal e modernização administrativa.


Uma trajetória que mistura empresa e política


A história do antigo “Maurinho da Bimetal”, lembrado nas rodas políticas do passado, ajuda a entender como trajetórias empresariais e políticas frequentemente se cruzam em Mato Grosso.


Da fundação de uma indústria metalúrgica à chefia do Executivo estadual, a trajetória de Mauro Mendes atravessa décadas de expansão industrial, incentivos fiscais, crise empresarial e consolidação política.


E, como costuma acontecer na política mato-grossense, muitas dessas histórias começaram primeiro nas conversas de bastidor, antes de virar registro público.