Por João Guató
Tem mensagem que chega como poeira de garimpo: entra pelos cantos, assenta devagar e, quando a gente vê, já está respirando aquilo.
Nesta semana, foi assim. A professora e socióloga Erenilda Almeida da Silva, lá de Diamantino, me escreveu pedindo um livro. Não era qualquer livro. Era “Em busca da pedra que brilha como estrela: garimpos e garimpeiros do Alto Paraguai-Diamantino”, de João Carlos Barrozo.
Erenilda, que já foi sonoplasta nos tempos da Rádio Parecis, quando o rádio ainda tinha cheiro de gente e chiado de verdade, hoje ensina sociologia. Continua afinando vozes, só que agora na cabeça dos alunos. Pediu o livro como quem pede água em tempo de seca.
Não tenho o exemplar, mas tenho amigos. E, nestes tempos em que o Brasil parece mais dividido do que nunca, a amizade segue sendo uma forma de resistência silenciosa. Por isso, faço aqui um pedido público à editora, conduzida pelo Ramon, nosso conhecido: que seja enviado um exemplar do livro publicado por Carlina Cariato para ela. É algo simples, mas que, no fundo, carrega também um significado quase político. Afinal, é importante que uma professora da educação básica, que atua nas escolas da região, tenha acesso à obra de Barroso.
Porque ler, hoje, virou quase subversão. Ainda mais sendo mulher e socióloga.
Escrevo isso com o peso de quem anda meio atravessado por esse país.
Desde a epidemia da covid, o Brasil parece ter adoecido de outra coisa. Uma febre mais lenta, mais funda, que não dá em exame: uma espécie de endurecimento da alma, uma brutalidade normalizada, um jeito de pensar que simplifica o mundo até caber numa mentira confortável.
Como cronista, confesso: às vezes me sinto grávido de fatos. Eles ficam ali, querendo nascer em palavra, mas não viram carne. Ficam suspensos, como promessa não cumprida.
E então chega um livro desses.
João Carlos Barrozo não é só um autor. É daqueles sujeitos que ajudaram a construir a inteligência crítica de Mato Grosso quando isso ainda era feito com caderno, gravador e paciência.
Doutor em Sociologia pela UNESP, professor aposentado da UFMT, mas ainda ativo no Programa de Pós-Graduação em História, Barrozo é um nome que atravessa décadas. No NERU, o Núcleo de Estudos Rurais, virou referência para quem quis entender território, trabalho e conflito no campo.
Eu mesmo cruzei com Barrozo num grupo de história oral em Diamantino, criado quando a professora Rosa Neide Sandes foi a Secretaria de Educação de Diamantino. Era um tempo em que pesquisa ainda se fazia com escuta demorada e caderno aberto, sem pressa de conclusão. Ali aprendi uma coisa que não está nos manuais: ouvir também é escrever, só que antes da tinta.
Entrei no grupo para ajudar a reconstituir a história da educação em Diamantino, especialmente aquela vinculada à missão dos jesuítas, cuja presença ainda hoje permanece cravada na cidade como marco de origem e de poder. Fui atrás de documentos históricos sobre as escolas e encontrei muito mais que sala de aula.
No meio das conversas, dos depoimentos e dos papéis antigos, apareceu outra camada da história, menos celebrada e mais incômoda: a participação da igreja e das missões na engrenagem que sustentou a exploração de mão de obra escrava nos garimpos de diamante da época. A fé, como quase tudo naquele território, também tinha dupla face.
Dessa travessia, recolhi um material bruto, desses que não brilham de imediato, mas carregam densidade. Documentos, relatos, memórias fragmentadas. Inclusive de aulas de sociologia de Padre da época. Guardo tudo com um certo cuidado teimoso, como quem sabe que ainda há algo ali por dizer. E vou dizer, prometo nos levar essas informações para eternidade.
Se o tempo não resolver me passar por cima com a elegância que costuma ter, esse material ainda vira livro. Antes de fechar a conta por aqui, seria justo devolver essas histórias ao lugar de onde vieram.
E não é pouca coisa que está guardada. São documentos de primeira linha, coletados na antiga biblioteca dos jesuítas, que mantinham casa em Cuiabá, ali no bairro do Baú. Fiz esse garimpo com o apoio do padre Mouro, jesuíta desses que não passam pela história, atravessam ela. Figura decisiva na educação de Diamantino, e, sem saber, também cúmplice dessa escavação silenciosa que até hoje sigo carregando.
E há um detalhe bonito, desses que não entram em currículo: Barrozo é casado com Luzinete, professora da educação básica, filha de Alto Paraguai, dessas que carregam o território no jeito de falar.
Talvez por isso o livro dele tenha chão.
A obra que a professora e socióloga Erenilda Almeida da Silva procura não é apenas pesquisa sociológica. É escuta que ganhou forma de narrativa. Narrativa que se deixou atravessar pela literatura, virou texto vivo e, depois, livro. Um desses livros que não ficam na estante. Vêm morar entre nós, como quem sabe que ainda tem muito a dizer.
Barrozo acompanha homens, mulheres e crianças que desceram do Norte e do Nordeste carregando mais esperança do que bagagem, guiados pela promessa da tal pedra que brilha como estrela: os diamantes de Alto Paraguai. Era um chamado quase místico, desses que fazem o mapa parecer mais curto do que a realidade.
E havia as histórias. Sempre elas, maiores que os próprios fatos. Reza a lenda que houve tempo em que diamante se colhia como quem serve bebida: em copo americano, desses de balcão de bar, enchendo fácil, quase sem esforço.
Claro, lenda tem esse defeito simpático de exagerar. Mas não nasce do nada. Nasce de um tempo em que a terra ainda iludia bem, antes de ensinar, com paciência cruel, que riqueza rara nunca vem sem custo alto. Como do "baianinho doido" o garimpeiro que ia pra os cabaré de alto paraguai e dava banho em cavalo de cerveja e perfume. Pagava a conta com cabaré com pedra de diamante como se fosse dinheiro em papel.
Vieram com fome, com coragem e com uma certa inocência geográfica. Achavam que o mapa era mais simples do que a vida.
No garimpo, encontraram outra coisa.
Encontraram trabalho duro, instável, às vezes cruel. Encontraram redes de convivência improvisadas, famílias refeitas, comunidades que nasciam e desapareciam conforme o humor da terra. Encontraram riqueza para poucos e espera para muitos.
E encontraram também rupturas. Gente que deixou família para trás, gente que se perdeu no caminho, gente que virou outra pessoa sem perceber.
O livro mostra isso sem pressa. Como quem peneira cascalho: devagar, repetindo o gesto, até que alguma coisa brilhe.
O que impressiona não é só o passado que ele reconstrói. É o quanto esse passado insiste em ser presente.
Migração por necessidade.
Exploração de recurso natural como promessa de redenção.
Desigualdade regional que empurra e puxa gente como correnteza.
Identidades sendo inventadas em territórios de fronteira.
Troque o garimpo de diamante por qualquer outra corrida econômica contemporânea e pronto. O enredo continua.
O Brasil muda de ferramenta, mas não de lógica.
Talvez seja por isso que a professora e socióloga Erenilda Almeida da Silva queira o livro.
Porque ensinar sociologia hoje, nesse clima de simplificação brutal do mundo, exige munição mais fina. Exige história, contexto, complexidade. Exige lembrar que o país não nasceu ontem nem começou em rede social.
E esse livro faz exatamente isso: devolve espessura ao tempo.
No fundo, a pedra que brilha como estrela nunca foi só o diamante.
Era a esperança.
E esperança, como a gente sabe, é um tipo de riqueza perigosa. Move gente, constrói cidades, destrói outras, alimenta sonhos e também engana.
Barrozo entendeu isso. Escreveu isso.
E agora, décadas depois, uma professora pede esse livro como quem pede uma lanterna.
Num país que anda gostando demais da escuridão, talvez seja o gesto mais sensato que alguém poderia ter.
O DIA EM QUE UMA ONÇA PEQUENA BATIZOU UMA CIDADE
Por João Guató
Cidade nasce de decreto. Nome oficial vem com carimbo, assinatura e alguma pompa burocrática. Mas apelido, esse não. Apelido nasce de outra coisa: do acaso, da repetição e da boca do povo, que não respeita cartório.
O Município de Alto Paraguai, que fica aproximadamente 200 quilômetros de Cuiabá por rodovia, o que corresponde a cerca de 3 horas de viagem de carro, dependendo das condições da estrada, por exemplo, tem nome de mapa. Grande, sério, quase solene. Mas quem conhece de perto chama mesmo é de "Gatinho". Que até soa foneticamente como um nome fofo. E não foi político, nem engenheiro, nem padre que inventou esse nome.
Foi um bicho. Foi um bichano!
Lá pelos tempos do garimpo, quando o mundo ainda cabia dentro de um córrego e a esperança brilhava no fundo do cascalho, os homens começaram a notar uma presença constante. Um felino pequeno, ligeiro, desses que aparecem e somem como pensamento ruim. Diziam ser uma onça pequena, uma jaguatirica talvez.
O animal vinha, observava, rondava. Não pedia licença, não dava explicação. Como todo ser que entende mais da terra do que o homem. E os garimpeiros, que tem mania de nomear o mundo para não se sentir perdido dentro dele, fez o que sabe fazer: apelidou.
Chamaram o lugar de Gatinho. Pronto! Alto Paraguai iniciou como o garimpo do Gatinho. Diminutivo curioso para um território de ambição grande. Mas ficou. Porque nome bom não é o mais correto. É o que pega.
O garimpo cresceu. Vieram mais homens e muitas mulheres, mais sonhos, mais histórias. Casas brotaram, comércio apareceu, Cabaré nascia com as mulheres mais lindas do mundo, a corrutela virou ponto no mapa. E o Gatinho, que começou como brincadeira ou referência casual, virou identidade de Povo que era formando por maioria de Baianos.
Em 1948, quando o distrito ganhou nome oficial, escolheram Alto Paraguai. Justo. Ali nascem águas importantes do famoso Rio Paraguai, sustentáculo do pantanal que nasce em Mato Grosso, dessas que desenham fronteiras e carregam geografia.
Mas tente tirar da boca do povo o nome que nasceu antes do papel.
Não sai.
Gatinho não é só um apelido. É memória comprimida numa palavra leve. E do gatinho que nasceu figuras como Vivaldo Lopes, ex secretaria de finanças nas gestões do Dante de Oliveira. Terrinha querida de Telma de Oliveira, viuva de do Dante, que adorava ir a Alto Paraguai para comer piraputanga das cabeceiras do rio paraguai. Terra também Carlinho Dorileo do Grupo Gazeta de Comunicação. Mas também é terra Boaventura e Professora Alcione Modesto, Professora Sandra Carvalho, Biluzinho, Eduardo Gomes, Lizânias, Bilibio Garimpeiro, Sabedoca, Alvro Carvalho, Dona Iracema. Também dos famosos cabaré do Nega, da tia Tá e Davizinho.
O Gatinho ainda hoje carrega o tempo em que a cidade era só promessa, em que o diamante ainda parecia fácil, em que um bicho atravessava o cotidiano dos homens sem saber que estava batizando um lugar inteiro.
Enquanto o nome oficial aponta para o mapa, o apelido aponta para a vida.
E no fim das contas, entre o que o governo decide e o que o povo insiste, a história costuma ficar com quem conta melhor.
Nesse caso, ficou com o gato. Ou melhor, com o Gatinho.
CASA DE UM LADO, CABARÉ DO OUTRO
Por João Guató
Dizem que no Gatinho havia duas cidades dentro de uma só. Não era coisa de mapa, dessas que prefeito inaugura com fita e discurso. Era coisa de comportamento, de regra não escrita, dessas que ninguém assume, mas todo mundo cumpre.
De um lado, as mulheres de família. Guardadas como louça boa, usadas com cuidado, vigiadas como se o mundo fosse um animal faminto. Do outro, as raparigas. Expostas como se fossem parte da paisagem, necessárias como a enxada, toleradas como o calor.
E entre uma rua e outra, um acordo silencioso: não se misturavam.
Curioso é que quem desenhava esse mapa não eram elas. Era os homens. O mesmo que jantava em casa e atravessava a rua depois, como quem troca de roupa, mas não de consciência. Eles faziam a ponte entre os dois mundos, sustentava os dois, precisava dos dois. E ainda assim, jurava que eram opostos.
O artigo do professor e pesquisador João Carlos Barrozo, intitulado “Mulheres de Família e Raparigas: a vida em espaços separados”, insere-se em um esforço mais amplo de análise sociológica sobre as dinâmicas sociais nos garimpos de diamante de Alto Paraguai, especialmente no povoado Gatinho.
Publicado no contexto da obra Multiplicidade, o estudo revela a dicotomia entre “mulheres de família” e “mulheres da zona”, examinando como seus espaços de circulação eram socialmente delimitados e quais papéis desempenhavam naquele universo marcado pela mineração.
Com base em pesquisa bibliográfica, análise documental e, sobretudo, entrevistas centradas em histórias de vida, Barrozo revela as engrenagens invisíveis que organizavam o cotidiano do garimpo.
O que sua produção acadêmica escancara é algo que a cidade preferia não admitir: essa separação não era natural. Era construída. Sustentada por valores morais, sim, mas também por interesses econômicos. Um sistema que falava de ordem, mas operava pelo desejo. Que dizia proteger, mas, no fundo, servia para controlar.
A casa era ordem. O cabaré, desordem. Mas ambos giravam em torno do mesmo eixo: o homem que transitava livre, enquanto as mulheres permaneciam fixas, cada uma no seu quadrado.
No fim, não eram dois mundos. Era o mesmo mundo, só que dividido para parecer mais aceitável.
A obra de João Carlos Barrozo revela, com rigor de sociologia crítica, uma estrutura que organizava o cotidiano do Gatinho: a casa como espaço da ordem, o cabaré como território da desordem. Dois polos aparentemente opostos, mas que giravam em torno do mesmo eixo — o homem, sujeito livre para transitar entre ambos, enquanto as mulheres permaneciam fixadas em seus lugares socialmente definidos.
No fundo, não eram dois mundos. Era o mesmo mundo, dividido de forma conveniente para parecer moralmente aceitável.
Confesso que concordo com o olhar do pesquisador. Mas acrescento aqui o olhar de quem também fez da rua um método. Um olhar de jornalista com formação sociológica, desses que não se contentam com arquivo quando a vida está acontecendo do lado de fora.
Frequentei por anos os cabarés de Alto Paraguai, nos anos 80 e 90. Não por boemia gratuita, mas por ofício. Fiz de mim correspondente das entranhas do garimpo, seguindo um princípio simples aprendido com Ricardo Kotscho: o lugar do repórter é na rua. E, naquele contexto, a rua mais reveladora era o cabaré.
Era ali que a vida se organizava sem disfarce.
Nos cabarés, encontrava-se de tudo: garimpeiros, comerciantes, políticos, aventureiros e, para desconforto dos moralistas de plantão, até o pároco em missão evangelizadora, tentando salvar almas enquanto negociava suas próprias contradições.
Mas quem realmente governava aquele espaço não eram os frequentadores.
Eram as donas de cabaré.
Mulheres elegantes, inteligentes, dotadas de uma leitura fina das relações de poder. Sabiam quem mandava, quem fingia mandar e quem seria descartado na próxima eleição. Não era exagero dizer que influenciavam diretamente os rumos políticos da cidade, ajudando a eleger — ou a derrubar — candidatos.
Enquanto a polícia civil registrava tudo sob o rótulo burocrático de “zona de baixo meretrício”, ali funcionava, na prática, um dos centros mais sofisticados de mediação social da sociedade da época que vivia nos garimpos procurando o não guardaram.
Era no cabaré que os chamados “homens de bem” faziam suas confissões informais, descarregavam seus dilemas, negociavam silêncios e buscavam algum tipo de alívio para uma vida que, fora dali, exigia aparência de controle.
Se não fossem esses espaços, e sobretudo as mulheres que os sustentavam, muitos desses homens não teriam resistido à própria pressão de existir naquele mundo instável.
Os cabarés, no fim das contas, operavam como reguladores invisíveis da vida social. Eram centros terapêuticos improvisados, onde o excesso, o desejo, a frustração e o poder encontravam um lugar de vazão.
Barrozo revelou a estrutura.
A rua me mostrou o funcionamento.
E entre uma coisa e outra, talvez esteja a versão mais honesta dessa história.





