
Por João Guató
O Brasil tem uma mania curiosa. Sempre que a universidade pública tenta respirar um pouco, aparece algum iluminado de gabinete com uma planilha na mão e a certeza absoluta de que cortar investimento em educação é sinal de modernidade administrativa. Deve ser algum tipo de doença burocrática crônica.
Enquanto isso, professores seguem fazendo o que este país exige deles desde sempre: ensinar, pesquisar, orientar estudantes, escrever projetos, correr atrás de editais e, nas horas vagas, defender a própria existência da universidade pública.
Foi nesse ambiente meio surreal que terminou, entre os dias 2 e 6 de março de 2026, em Salvador, na Universidade Federal da Bahia, o 44º Congresso do ANDES-SN, encontro que reuniu docentes de todo o país para discutir o futuro da educação superior brasileira.
Salvador, aliás, foi cenário apropriado. Cidade de revoltas históricas, onde escravizados, estudantes e trabalhadores já ensinaram muitas vezes ao poder que paciência social tem limite. Não é pouca coisa reunir professores numa cidade que carrega no chão a memória da resistência.
Durante cinco dias, o congresso reafirmou um compromisso que deveria ser óbvio, mas que no Brasil precisa ser repetido quase como mantra: defender a universidade pública, gratuita, de qualidade, laica, antirracista, antifascista e socialmente referenciada na classe trabalhadora.
No setor das Instituições Federais de Ensino Superior, o recado saiu direto, sem rodeios acadêmicos: não haverá recuo diante da PEC 38/2025 e da chamada Reforma Administrativa, duas propostas que prometem modernizar o Estado com o mesmo método usado há décadas: reduzindo direitos e enfraquecendo o serviço público.
O curioso é que toda reforma administrativa no Brasil costuma começar pelo mesmo lugar: o bolso do servidor e a estrutura das instituições públicas. Já os privilégios históricos do andar de cima continuam intocados, como se fossem patrimônio cultural.
Mas a discussão no congresso não ficou apenas na crítica. Um ponto central foi a cobrança pelo cumprimento integral do Acordo de Greve nº 10/2024. Porque acordo firmado não é sugestão política, é compromisso assumido.
Por isso, já se discute um calendário de mobilizações para o primeiro semestre de 2026, com possibilidade de paralisações unificadas. Quando professores param, geralmente não é capricho corporativo. É porque alguém resolveu testar até onde vai a paciência de quem sustenta o sistema educacional.
Outro tema que ganhou peso nos debates foi o avanço na construção de uma posição nacional sobre o Reconhecimento de Saberes e Competências, o famoso RSC. Um debate importante para a carreira docente e que toca numa questão delicada: como reconhecer trajetórias acadêmicas sem transformar a vida universitária numa competição burocrática de pontuação.
Enquanto as discussões aconteciam dentro do congresso, a realidade das universidades continuava lembrando o tamanho do problema. Infraestrutura sucateada, laboratórios improvisados e salários defasados empurram professores para a já conhecida corrida por editais, uma maratona administrativa que muitas vezes rouba tempo daquilo que realmente importa: pesquisar, ensinar e pensar.
Como se não bastasse, surge agora a moda gerencial da vez: a plataformização do ensino. Um conceito elegante que, na prática, tenta transformar professor em operador de sistema e estudante em usuário de aplicativo.
A educação vira tarefa digital, o pensamento crítico vira detalhe técnico e a universidade passa a ser gerida como se fosse um call center do conhecimento.
Naturalmente, ninguém que leve a universidade a sério pretende aceitar isso em silêncio.
O congresso também reforçou a articulação com docentes das universidades estaduais, municipais e distrital. A ideia é clara: fortalecer uma frente comum contra o desfinanciamento da educação e contra o chamado Novo Arcabouço Fiscal, essa engenharia contábil que sempre encontra dinheiro para o mercado, mas vive dizendo que falta recurso para escola e universidade.
Na agenda de mobilização aparece também o combate ao Propag, mecanismo financeiro que drena recursos públicos para alimentar a dívida pública. Em outras palavras, o dinheiro que poderia fortalecer educação e ciência acaba servindo para engordar planilhas do sistema financeiro.
E depois ainda perguntam por que o Brasil demora tanto a se desenvolver.
O mês de maio já surge no horizonte como momento de mobilização nacional. Professores das redes federais, estaduais e municipais prometem transformar ruas, redes e instituições em espaços de pressão política.
Nada muito novo na história da universidade brasileira.
Desde sua origem, a educação pública neste país sobreviveu mais por insistência social do que por generosidade dos governantes. Cada campus construído, cada laboratório montado e cada programa de pesquisa criado carregam um pouco dessa teimosia coletiva.
Talvez por isso o congresso tenha terminado com um sentimento antigo entre professores: o de que a luta pela universidade pública nunca termina.
No Brasil, defender educação virou uma espécie de militância permanente.
E, pelo visto, continuará sendo.