MATO GROSSO TROCA DE MOTOR COM O CARRO EM MOVIMENTO E FINGE QUE É MANUTENÇÃO DE ROTINA




Por João Guató

Tem gente que chama de “renúncia estratégica”. No interior, a gente chama de “sair antes que o jogo vire”. Em Cuiabá, com verniz institucional, virou cerimônia às 16h.

No dia 31 de março de 2026, Mauro Mendes resolve deixar o Palácio Paiaguás. Não é abandono, dizem os assessores com voz de velório elegante. É “um passo adiante”. O passo, claro, aponta direto para o Senado, aquele condomínio de tapetes macios onde os problemas chegam já cansados.

Mendes sai dizendo que entrega a casa arrumada. Contas equilibradas, obras concluídas, estradas abertas, escolas melhoradas, hospitais funcionando. Um Estado quase de comercial de margarina. Faltou só a trilha sonora e uma criança correndo em câmera lenta. No papel, é um paraíso fiscal com asfalto novo.

Na prática, o roteiro segue o clássico manual brasileiro de transição: muda o motorista, mas o carro continua com o mesmo cheiro de gasolina política.

Entra em cena Otaviano Pivetta, o vice que agora vira titular com direito a faixa e discurso. Assume no mesmo dia, no mesmo prédio, com a mesma promessa: continuidade. Palavra bonita que significa, traduzindo sem poesia, “não mexe muito que pode dar problema”.

Pivetta não chega cru. Já foi prefeito de Lucas do Rio Verde, sabe como funciona o balcão e a planilha. É do tipo que entende que política é metade obra, metade narrativa, e a outra metade ninguém explica direito. Agora, com a caneta cheia, vira candidato natural ao governo. Ou seja, ganha vitrine, luz e aquela pressão básica de parecer inevitável.

E é aí que a coisa fica interessante, ou pelo menos previsivelmente divertida.

As pesquisas já colocam o novo governador no pelotão de frente. Não lidera, mas também não está passeando. Aparece ali entre 22% e 25%, correndo atrás de Wellington Fagundes, que larga na frente com números mais robustos. No retrovisor, Jayme Campos aparece como aquele político que nunca sai da pista, só muda de faixa. E, mais abaixo, Natasha Slhessarenko tenta furar o bloqueio com discurso e alguma paciência.

Mas o dado mais honesto da pesquisa é outro: 70% dos eleitores não sabem em quem votar. Traduzindo, o jogo está aberto, bagunçado e com arquibancada vazia de convicção.

É nesse cenário que Pivetta assume. Não apenas como governador, mas como candidato em construção. Cada obra vira palanque. Cada assinatura vira discurso. Cada inauguração ganha cheiro de comício disfarçado de gestão.

Enquanto isso, Mendes sobe um degrau, mirando Brasília. Sai do calor do Estado para o ar-condicionado do Senado, onde os problemas são debatidos com mais calma e menos poeira de estrada. Um upgrade institucional, digamos.

No fundo, a engrenagem é conhecida: um sai para subir, outro assume para disputar, e o eleitor observa tentando entender se isso é estratégia ou só coreografia bem ensaiada.

No Mato Grosso real, aquele que não aparece em relatório bonito, a pergunta é mais simples: muda alguma coisa ou só muda o nome na placa?

Porque continuidade administrativa é um conceito elegante. Mas, na tradução popular, costuma significar que o filme continua exatamente do ponto onde já estava, com os mesmos atores, só que com figurino levemente ajustado.

E assim o Estado segue, trocando de comando como quem troca de chapéu no sol do meio-dia. Tudo dentro da lei, tudo dentro do script, tudo com discurso pronto.

No fim das contas, a política mato-grossense continua sendo aquilo que sempre foi: um jogo de xadrez jogado em cima de um tabuleiro onde as peças já se conhecem pelo apelido.

E o eleitor, esse personagem recorrente, segue ali, assistindo, tentando descobrir se é espectador ou figurante.


O ESTADO RICO DOS NÚMEROS E POBRE DE PRESENÇA



Tem governo que termina pedindo desculpa. Este aqui termina exibindo gráfico. Mauro Mendes deixa Mato Grosso com uma coleção respeitável de indicadores e uma coleção ainda mais interessante de queixas. Um Estado que, no papel, parece ter descoberto a fórmula da eficiência. No interior, parece ter esquecido o endereço.

Os números, esses não mentem. Só não contam tudo.

Na economia, o salto é daqueles que fazem secretário sorrir sem esforço. Mato Grosso saiu de um cenário de R$ 3,6 bilhões em dívidas e salários atrasados em 2018 para um Estado com as contas organizadas. A receita anual praticamente dobrou de tamanho, pulando de R$ 18,1 bilhões para uma projeção de R$ 42,7 bilhões em 2025. É o tipo de virada que vira case em seminário. Capacidade de investimento em alta, caixa equilibrado, máquina rodando.

Até aqui, aplauso técnico.

Na infraestrutura, o governo pisa fundo. São mais de 3 mil quilômetros de rodovias pavimentadas, revitalizadas ou em execução. Obras com nome e sobrenome: Contorno Leste de Cuiabá, duplicação da MT-010, revitalização da MT-251. Pontes, aeroportos regionais, integração logística. A soja agradece, o PIB também. O Estado virou corredor eficiente para escoar riqueza.

O detalhe é que estrada boa não resolve ausência de governo.

Na educação, o pacote é generoso no papel. Mais de 500 escolas reformadas ou revitalizadas, climatização, uniforme, kit escolar, promessa de modernizar 100% da rede. Indicadores melhoram, relatórios confirmam, discursos celebram. Só que, no interior, a pergunta continua simples: chegou para todo mundo ou só para quem aparece melhor na foto?

Porque a crítica é insistente: investimento desigual, priorização da capital e do chamado “nortão”. E desigualdade, quando vira percepção coletiva, deixa de ser detalhe e vira problema político.

Na saúde, o tom muda. Aqui não tem gráfico que salve completamente. Prefeitos relatam que o Estado fez um movimento elegante e desconfortável ao mesmo tempo: empurrou responsabilidades para os municípios, que já operavam no limite. Resultado, segundo eles: tiveram que “segurar o sistema” com recurso próprio. O governo aponta avanços, como a ampliação de leitos na pandemia e a retomada do Hospital Central de Cuiabá, parado há três décadas. Tudo isso é real. Mas não anula a sensação dominante de distanciamento.

E saúde, ao contrário de estrada, não aceita meio termo.

Na segurança pública, o roteiro é quase idêntico ao da educação. Investimento houve. Tecnologia também. O Estado implantou o tal Cerco Inteligente, com câmeras e inteligência artificial. Redução de alguns crimes, melhora em indicadores. Só que, fora dos grandes centros, a população continua convivendo com sensação de insegurança persistente. E sensação não se corrige com algoritmo.

Aí chegamos ao ponto mais delicado, aquele que não aparece em ranking nacional: a relação com os municípios. Aqui mora o maior desgaste. Prefeitos falam em falta de diálogo, em governo pouco municipalista, em recursos concentrados. Regiões inteiras carregam a impressão de que ficaram fora da prioridade. Não é uma crítica isolada. É um coro.

E quando o interior começa a falar em abandono, não é figura de linguagem. É diagnóstico político.

Como se não bastasse, o próprio sistema de indicadores do governo entrega um capítulo curioso. O Estado retirou do Plano Plurianual o Indicador 635 (Transparência e Governança Pública) alegando falta de apuração e criou o Indicador 700 no lugar. Uma solução técnica, dizem. Politicamente, soa como trocar o termômetro porque a febre incomoda.

No fim da linha, o retrato é quase didático.

Economia: forte, organizada, eficiente.
Infraestrutura: robusta, visível, estratégica.
Educação: avançou, mas não convenceu por igual.
Saúde: frágil onde mais importa, no cotidiano.
Segurança: melhora nos números, dúvida na rua.
Municípios: relação desgastada, confiança rarefeita.

Mendes sai para disputar o Senado com um currículo que qualquer gestor gostaria de apresentar. Mas também leva um mapa político cheio de áreas sensíveis. Porque governar bem não é só fechar conta. É fechar presença.

E Mato Grosso, nesse ciclo, ficou com uma situação curiosa: um Estado rico em indicador e carente de proximidade.

Para quem vai pedir voto em cada canto desse mapa, não é exatamente um detalhe técnico. É o tipo de coisa que não cabe em planilha e aparece na urna.


MATO GROSSO: O ESTADO QUE ENRIQUECEU E ESQUECEU DE REPARTIR — E AGORA COBRA NA VIOLÊNCIA



Existe um número em Mato Grosso que não aparece em inauguração, não corta fita e não rende selfie. Ele não faz discurso, mas desmonta vários. É o tal do Índice de Gini: 0,676.

Parece técnico, mas é direto: mede desigualdade. Vai de 0 a 1. Quanto mais perto de 1, mais concentrada está a renda. Mato Grosso está ali, confortável no desconforto, entre os estados mais desiguais do país. E não é chute de cronista nem implicância de oposição. É dado de pesquisa oficial, desses que ninguém contesta, só evita comentar.

Enquanto isso, o Estado cresce. Cresce bem. Cresce bonito. Cresce com soja, logística, exportação e discurso afinado. O problema é que cresce para poucos.

A riqueza se concentra nos polos mais fortes, no agronegócio, nos corredores logísticos, nos municípios que já estavam na frente. O resto entra na estatística, mas não entra na divisão. Cidades médias e pequenas, como Diamantino, ficam com uma fatia tímida dessa prosperidade. É desenvolvimento com endereço certo.

E aí entra o segundo número, menos elegante e mais honesto: 28,42 homicídios por 100 mil habitantes.

Não é coincidência. É consequência.

Desigualdade alta costuma gerar ambientes mais vulneráveis. Onde a renda não chega, o Estado costuma chegar menos ainda. E onde o Estado falha, alguém ocupa o espaço. Normalmente não é biblioteca nem escola técnica.

No interior, isso não é teoria de sociólogo. É rotina. Municípios com menos renda, menos oportunidade e pouca presença estatal acabam mais expostos ao crime organizado, ao tráfico, aos furtos, à violência doméstica. O pacote completo da ausência.

E, já que estamos falando de realidade crua, entra mais um dado que costuma ser tratado com aquele silêncio constrangido: 20% das mulheres em Mato Grosso sofreram violência nos últimos 12 meses, segundo levantamento do DataSenado. Um em cada cinco casos. Não é exceção. É padrão preocupante, especialmente em regiões mais pobres e com menos acesso a serviços públicos.

Mas calma, porque o relatório oficial ainda tem seus pontos de conforto.

O IDH de 0,725 aparece como um alívio. Alto, dizem. E é mesmo. Só que desigual. Cuiabá puxa o índice para cima enquanto o interior segura pelo pé. É um desenvolvimento meio torto, que melhora a média e esconde a diferença.

Na educação, o 3,8% de analfabetismo também insiste em lembrar que o básico ainda não foi resolvido por completo. Para um Estado que se vende como potência, ainda é um número que incomoda. Ou deveria.

E por que tudo isso acontece?

A resposta é menos ideológica e mais estrutural. Mato Grosso construiu uma economia altamente concentrada no agronegócio, com pouca diversificação. Cresce rápido, mas distribui mal. Soma-se a isso a desigualdade entre regiões, a ausência de políticas consistentes de desenvolvimento regional e serviços públicos que chegam de forma desigual.

O resultado é esse: riqueza concentrada, território desigual e uma sensação crescente de que o Estado funciona melhor para alguns do que para todos.

É nesse cenário que Mauro Mendes encerra o mandato. Sai com números econômicos respeitáveis, obras entregues e discurso pronto para voos maiores. Mas deixa um Estado onde o crescimento não resolveu a desigualdade e, pior, convive com ela como se fosse efeito colateral inevitável.

E então entra Otaviano Pivetta, não como novidade, mas como continuidade. Assume com a missão de manter o que deu certo e, teoricamente, corrigir o que ficou pendente.

O problema é que o que ficou pendente não é detalhe. É estrutura.

Porque reduzir desigualdade não é inaugurar obra.
Combater violência não é só comprar viatura.
Distribuir renda não é discurso, é política pública de longo prazo.

E isso não rende aplauso imediato.

No fim, Mato Grosso apresenta um daqueles paradoxos que a política adora ignorar:

um Estado rico, com crescimento forte, indicadores econômicos sólidos…
e uma desigualdade alta o suficiente para alimentar violência, insegurança e frustração.

O tal do 0,676 não grita.
Mas explica muita coisa.

Explica por que a riqueza não chega.
Explica por que o interior reclama.
Explica por que a violência insiste.

E, principalmente, explica por que, apesar de tudo funcionar no papel, ainda há tanta coisa fora do lugar na vida real.

O resto é discurso.


SEIS MESES ANTES: O JOGO QUE COMEÇA ANTES DO APITO




Em Mato Grosso, a eleição começa antes da eleição. Não é bug do sistema, é recurso. Mauro Mendes decidiu sair seis meses antes do fim do mandato. Oficialmente, para disputar o Senado. Na prática, para deixar o governo nas mãos de Otaviano Pivetta com um pequeno detalhe: a máquina pública ligada, abastecida e pronta para rodar.

Chamam de estratégia. No interior, tem gente chamando de outra coisa, com menos verniz.

O roteiro é simples e elegante. O titular sai com discurso de missão cumprida, planilha organizada e currículo pronto para Brasília. O vice assume, vira governador e, de repente, deixa de ser candidato comum para virar candidato com gabinete, agenda oficial, caneta e visibilidade diária.

É como disputar corrida começando alguns metros na frente. Dentro da regra, claro. Sempre dentro da regra. O problema nunca é a regra. É o uso criativo dela.

Enquanto isso, o Estado segue com seus números bem comportados e suas contradições mal resolvidas. Um Mato Grosso que cresceu, arrecadou, asfaltou, investiu. Mas que também convive com Gini de 0,676, mostrando que a riqueza ficou concentrada, e com 28,42 homicídios por 100 mil habitantes, lembrando que desigualdade não é só conceito acadêmico, é combustível social.

Ou seja, a máquina que Pivetta recebe não vem só com estrada e orçamento. Vem também com um Estado desigual, onde parte da população ainda espera o desenvolvimento sair do relatório e entrar na rua.

Mas isso, curiosamente, não costuma pesar tanto quanto a vantagem de quem já está sentado na cadeira.

Porque ser governador, mesmo que por alguns meses, não é pouca coisa. É inaugurar obra que já estava pronta, anunciar investimento que já estava planejado, aparecer onde antes não aparecia. É transformar agenda administrativa em vitrine política com uma facilidade que nenhum adversário consegue competir.

E tudo isso com aquele discurso clássico: “é continuidade”. Sempre continuidade. Nunca vantagem.

Enquanto os outros candidatos vão pedir voto, o governador em exercício vai “cumprir agenda”. Enquanto uns fazem campanha, o outro governa… coincidentemente nos mesmos lugares onde o voto está indeciso.

Nada ilegal. Apenas eficiente.

O mais curioso é que essa engenharia política acontece justamente em um Estado onde a desigualdade continua alta, onde municípios reclamam de abandono e onde a violência ainda encontra espaço. Ou seja, o jogo político é sofisticado, mas o problema social continua básico.

No fim, Mendes sai antes para subir.
Pivetta entra antes para largar na frente.

E o eleitor assiste a esse movimento com aquela sensação conhecida de quem já viu esse filme outras vezes: muda o momento, muda o discurso, mas a lógica permanece.

A política mato-grossense, nesse ponto, é quase didática. Não se trata apenas de governar bem ou mal. Trata-se de quando sair e quem deixar.

Porque, no fim das contas, o poder não gosta de ficar parado. Ele só troca de mãos… com planejamento.