MEMÓRIAS DA INFÂNCIA: QUANDO MEU MUNDO ERA MAIOR QUE O MEU QUINTAL

 


Por João Guató 


Neste sábado, o Pasquim Cuiabano abre as janelas da memória.

Tem dia que a gente não quer notícia.
Quer lembrança.

Sábado, pra mim, é dia de rede cuiabana — de deixar o tempo escorrer devagar, como conversa boa que não precisa terminar. E foi assim, nesse descanso meio sagrado, que a leitura da prosa do professor Elismar Bezerra fez o que só texto verdadeiro consegue: acordou um menino que eu achava que já tinha ido embora.

Não foi um susto.
Foi um reencontro.

As imagens vieram sem pedir licença: rua de chão, bola de meia, vizinho que era quase parente, mãe chamando pelo nome com voz que atravessava o bairro inteiro. De repente, meu mundo voltou a ser maior que o meu quintal — e talvez tenha sido essa a maior riqueza que já tive.

Neste especial, não tem pressa, não tem algoritmo, não tem manual de felicidade.
Tem memória.

Memórias de um tempo em que a gente tinha pouco, mas cabia inteiro dentro da vida. De quando crescer não era urgência, e viver não era tarefa.

Neste sábado, o convite é simples:
deite na rede da lembrança e venha comigo.

Porque talvez o mundo não tenha diminuído.
A gente é que desaprendeu de enxergar grande.

Vamos iniciar com a prosa do professor Elismar Bezerra, que me inspirou esta reportagem literária.

E antes que alguém torça o nariz achando que é só mais um nome bonito para texto comprido, convém explicar: reportagem literária não é notícia apressada nem ficção inventada. É um modo de contar o real com o cuidado da literatura — onde o fato continua sendo verdade, mas ganha corpo, cheiro, memória e sentimento.

É quando o jornalismo desacelera para enxergar melhor.

Em vez de apenas informar, a reportagem literária narra, recria atmosferas, escuta silêncios e dá tempo para que as histórias respirem. Não abandona o compromisso com a realidade, mas se permite usar linguagem mais sensível, mais humana, mais próxima da vida como ela é sentida — não só como ela acontece.

É, no fundo, uma tentativa teimosa de não deixar o mundo virar apenas dado.

E foi justamente isso que encontrei na prosa de Elismar: não apenas lembranças, mas vida em estado de palavra. O suficiente para acordar em mim uma infância que ainda insiste em existir.



Por Professor Dr. Elismar Bezerra Arruda 

  As cidadezinhas interioranas eram bem pequenas, menores mesmo que muitos dos bairros dos grandes centros urbanos de hoje; mas, em nossa imensa pequenez de meninos sertanejos, achávamos tudo muito grande, tal que pensávamos que a chuva caindo ali, chovia no mundo todo. E tudo era regrado pelo olhar insone da Mãe, a vigiar tudo, o tempo todo, noite e dia – de jeito que só íamos à Rua Nova, na extremidade sul do nosso lugar, para cumprir algum mando: dar um recado, levar ou buscar alguma coisa, com o prazo marcado de ir e vir, “antes de o cuspe secar no chão”. Qualquer criança vista na rua, quem a visse, sabia quem era: pelo pai, pela mãe, pelos avós e pelos tios e tias; não havia sequer um olhar ou gesto infantil que vagasse sem rumo, ao léu, a expressar o desamparo de ser sem casa, sem rede ou cama, sem mesa com alguma comida. Passasse uma, às vistas de alguém, este já perguntava: “De quem é esse minino, mesmo?”; “rhum, é do Mundico Açougueiro, lembra não?”; “Menino, ele cresceu muito, nem conheci...”.

Para os olhares e sentires noveis de criança, o mundo era muito grande, sem fim, de jeito que (com o Rio imenso à frente e, às costas, a Lagoa com suas sucruiús escondidas nas moitas de mureré, e encantamentos arrepiantes), ali era o centro do mundo: todas as lonjuras nasciam ali e, daquele imaginar-criança, descambavam para o sem-fim do mundo, onde as distâncias se perdiam de tão longe. Porque as medidas das distâncias, eram tiradas e sentidas a pé, no caminhar, rompendo estradinhas-veredas e caminhos feitos por animais no rumo da água e dos seus alimentos; assim, da saída à chegada, a caminhada era contada em dias e léguas. Légua! Olhai bem, reparado sem pressa, légua parece um não-sei-que nascido do oco do nada das coisas, a indicar um rumo vazio de significado; sim, pois é só com o esforço e o tempo gasto para percorre-las, é que uma légua ganha substancia para ser o que é: “Saímos no primeiro canto do galo, e chegamos lá, já com a lua alta no céu; porque, tem aquela parte de morro, que dá muita canseira atravessar...”. Sem a vivência do fazer, o palavreado, por si mesmo, só pelo dizer, é desmilinguido...

Era no caminhar das distâncias, rompendo suas curvas e estirões de areia e pedras, enfiando-se garganta a dentro daqueles ermos, é que se sabia o tamanho real das lonjuras, dimensões, que a imaginação-criança não alcançava saber; também, porque não era o tempo pra saber. Então, nem se imaginava o lugar de nascimento do Rio Imenso: “Nasce lá pra riba...”; doía o juízo pensar nisso, porque devia ser uma coisa imensa demais, pra dar conta de mandar tanta água, de fazer corredeiras e encher as funduras todas, os peraus, onde Pirararas e Jaús viviam sem incômodos. É que a falta de certeza sobre coisas que não são questão de vida ou morte, mas que servem para enfeitar o viver, florear uma conversa boa, é quase um encantamento; tal a leveza prazerosa, com que elas se demoram preguiçosamente na cabeça, imaginadas suavemente ao modo de ternura: o ainda-não-saber das crianças, não é ignorância – é inocência...

A Inocência era a forma de o tempo ser no Paraíso, que era espaço sem termo e cercas – quando as coisas todas e os seres, tangíveis e imaginados, se riam num contentamento que flutuava como pranas para serem aspiradas e tragadas ao êxtase. O olhar nunca se dirigia sozinho às coisas e gentes: havia sempre rictos leves, de candura, dizendo, per si, que o riso era o estado natural de ser; tal, que, refletia nas flores, no verdume das plantas, nos cantos dos passarinhos e na cópula dos bichos e das pessoas, no momento de suas vontades: porque ninguém se envergonhava de si, nem de ninguém. Aí, por mor de desobediências e perversidades, o tempo-paraíso ficou reduzido para as pessoas, de modo a vicejar somente no tempo-criança, e feito pra durar pouco; e deu-se de ir se desfazendo, conforme morria a criancice de cada um – morte exigida pelos já vividos, amadurecidos, endurecidos pelo doer-insuportável de não poder ser Criança...

O adulto olha as crianças, no seu estado natural de brincar, com olhar doído de saudade e tristeza – como lembrança do que nunca mais pode ser...

 Mãe gritava o nome do menino (do menino, porque a filha não precisava: estava ao lado, ajudando na arrumação da casa, no fazimento da comida, na lavação das roupas e vasilhas), de jeito a experimentar toda a força dos bofes, e ser ouvida em toda a vizinhança e além – porque o grito da Mãe reverberava de ouvido em ouvido, até chegar no do rueiro: “Tua mãe tá te chamando, faz é hora!”. Lá vinha o moleque em desenfreada correria, para responder aos gritos da Mãe bem pertinho de casa, na criancice de fazê-la acreditar que não estava na rua: “Tô aqui, Mãe!”, dizia arfando, suado; Ela se ria, sem deixar o riso aflorar, e ralhava só pra não perder a autoridade; naqueles gestos, havia mais aconchego e cuidado ternurento de mãe, que reprimenda: a alegria do viver, era tecida por um sem número de miudezas diárias, feita com as mãos e os sentimentos todos.

Depois da chuva, nas laterais das ruas de chão formavam corredeiras amareladas, ligeiras, que iam para o Leste e o Norte: era fácil imaginar rios, e navegar com os barquinhos e canoas feitas de sarã e do flandres das latas de óleo: “Menino, tu tá descalço nessa lama? Sai daí, vai pegar frieira, ficar gripado!”. Frieiras e dor de dente eram dois tormentos que menino de apartamento, quase meio século depois, não sabe o que é. Diz-se, que era por causa dos antibióticos, tomados pra sarar qualquer coisa, que os dentes ficavam enfraquecidos, abrindo-se às cáries; de jeito que chegou a ser chique, adulto usar dentadura – que deve ser menos desesperador, que sofrer uma dor de dente na boca da noite: “Molhe um pedacinho de algodão com Passa-já, põe no buraco do dente, que alivia...”. As frieiras entre os dedos do pé, davam outra sensação, contraditória, sentida na mesma agonia: coçava e doía; fosse só a coceira, talvez se pudesse dizer que era prazeroso, mas, quando o coçar ia dar prazer, doía: especialmente quando a mãe tentava tirar o vermezinho que fazia caminhos nos pés, com agulhas fininhas...

Os sentires e sofreres nascidos naquele mundo de viver artesanal, quando não havia máquinas que facilitasse qualquer fazer, substanciaram as singularidades de um modo de ser e viver, que nunca será repetido, pelos que sequer imaginam, o que era ser admirado por datilografar numa máquina manual de escrever, sem erros. Aquele mundo está sepultado pelas tecnologias que entorpecem meninos e adultos, nascidos nestes ambientes de asfalto e apartamentos longe da Terra; que não sabem o que é fazer um pião do galho da goiabeira, fazê-lo ficar no nível par rodar levíssimo na mão; fazer um papagaio do êxito que voava nas alturas imensas de um Céu que ficava bem mais perto da Terra; fazer uma arapuca e saber armá-la; um mini carro-de-boi, com que se podia trazer lenha de murici do varjão. Havia mais ciência, ensinada e aprendida, naquele brincar, que todas as frescuras tecnológicas impostas às Escolas hoje, na forma da porcaria caríssima do tal Sistema Estruturado de Ensino – que embrutece crianças e mestres, pra ninguém aprender a voar...

Inteligente, não é quem sabe qual botão da máquina apertar, pra fazê-la funcionar: é saber fazer a máquina ou, pelo menos, como ela foi feita. O fundamento está na leitura, na escrita, no cálculo matemático e no sentimento bom, que deve orientar tudo isso. É de se desconfiar, então, que, foi vendo menino brincar, que Paulo Freire aprendeu que, primeiro se lê o mundo, pra depois ler a palavra: a palavra, a linguagem, é vida real, materialidade. Perto de casa há umas oito crianças que brincam na rua; têm carrinho de plástico, boneca, bola e bicicleta. Cumprimento-as, quando passo, elas me olham, dou sinal de positivo, e elas riem riso bom e inocente, respondendo. Não sei seus nomes: basta a inocência, com que olham e riem...


Por João Guató

Tem algo meio teimoso na memória. Ela não pede licença, não bate na porta, não manda bilhete. Ela simplesmente entra, senta no meio da sala da gente e começa a falar como se ainda fosse dona da casa.

Foi assim quando li a prosa do professor Elismar Bezerra, veio com cheiro de chão molhado. E pronto: lá estava eu, de novo menino, com os pés sujos de mundo.

Nunca fui menino largado na rua. Paim e Mainha me guardavam como quem guarda coisa que não se repete. Eu era quase um objeto de zelo, desses que não se deixa cair nem no pensamento. Mas menino, você sabe, é um tipo de desobediência com pernas. E a rua… a rua era uma tentação feita de poeira, água e liberdade.

Brincar na rua não era sair de casa. Era mudar de universo.

Mainha, quando ficava “puta comigo” — palavra que naquela época tinha mais medo do que pecado — me deixava pelado dentro de um quarto. Era uma espécie de prisão sem grades, mas com muita vergonha. Castigo inventivo. Porque menino pode até enfrentar chinelo, mas enfrentar nudez diante do mundo é outra ciência.

Só que bastava uma chuva.

E pronto: o bairro Quarta-feira virava um território de mineração infantil. A enxurrada descia ligeira, carregando pequenas promessas. E a gente, com olho de garimpeiro sem saber o que era economia, ficava caçando pepitas nas frestas das piçarras. Ouro miúdo. Ouro quase nada. Ouro suficiente para fazer a imaginação crescer mais que o bolso.

A gente juntava tudo em vidrinho. Como quem guarda sol triturado.

Depois vinha a caminhada até o centro de Cuiabá, ali pela Voluntários da Pátria. Vendíamos o achado para homens que pesavam sonho em balança fria. Dava uma grama, duas, às vezes menos. Mas o suficiente para transformar menino em consumidor de felicidade.

E felicidade, naquele tempo, tinha gosto de groselha.

No bar do "Seo Dito", perto da Igreja de São Benedito, a gente celebrava a riqueza recém-descoberta com pão na manteiga e refresco vermelho, que parecia mais alegria líquida do que bebida. E ainda tinha o bar do Pisca — um japonês que, sem saber, fabricava infância congelada em forma de picolé.

Ali, naquela rua atrás da Panificadora Panfrigo, onde o Maestro Inácio fazia a música do bairro existir, a vida tinha ritmo de banda e gosto de açúcar.

Hoje, olhando de fora, parece pouco.
Mas não era.

A gente não sabia, mas estava fabricando eternidades pequenas. Dessas que cabem num gole, num riso, numa corrida descalça.

Tem criança hoje que ganha o mundo inteiro dentro de uma tela.
E ainda assim não encontra uma pepita.

A gente, com quase nada, achava ouro na lama.

E talvez fosse isso:
não era a rua que era grande.

Era a gente que ainda sabia caber no infinito.


Por João Guató

O sábado é meu dia de rede cuiabana.
Dia de deixar o tempo mais frouxo, meio largado, como quem não tem compromisso com o relógio nem com as urgências que os dias úteis inventam.

Hoje, depois de ler a prosa do professor Elismar Bezerra sobre a infância, aconteceu o que sempre acontece quando a palavra é verdadeira: ela não termina na página. Continua dentro da gente.

E continuou.

Minha memória começou a acender imagens como quem acende lamparina em casa antiga. Uma depois da outra. Sem pressa. Sem ordem. Só vindo.

Não eram lembranças organizadas. Eram pedaços de vida ainda quentes.

Uma rua de chão.
Um gol feito de chinelo.
Crianças de mãos dadas rodando o mundo.

Não eram fotografias.
Eram narrativas da minha própria memória, despertadas por imagens que nem eram minhas — mas que me reconheciam.

Naquele tempo, a rua não era passagem. Era destino.

Tinha campeonato de futebol que não saía no rádio, mas movia multidões invisíveis: Rua de Cima contra Rua de Baixo. Camisa contra sem camisa. E ali, naquele chão batido, se decidia quem era herói da semana. Sem VAR, sem juiz comprado, sem replay. Só o grito, a discussão e a verdade meio torta que todo mundo aceitava.

E aceitava porque era nosso.

As meninas rodavam de mãos dadas, inventando ciranda que nem o vento entendia. Os meninos, de olhos vendados, confiavam no mundo enquanto corriam atrás de nada, na brincadeira de cobra-cega. Veja que coisa absurda: a gente se permitia não enxergar… e mesmo assim não tinha medo.

Hoje todo mundo enxerga tudo, o tempo inteiro. E vive assustado.

A vida não era fácil. Nunca foi.
Mas também não era essa pressa doente de agora.

A gente fabricava brinquedo com pedaço de madeira e imaginação. Carrinho de rolimã não tinha manual, mas tinha orgulho. Cada prego torto era um diploma de invenção. Hoje tem tutorial pra tudo, e ninguém mais inventa nada além de desculpa.

E tinha as avós.

Essas criaturas clandestinas da generosidade. Davam dinheiro escondido, como quem passa segredo de Estado. “Não conta pra ninguém”. E a gente obedecia, não por medo, mas porque aquilo era pacto. Dinheiro pequeno, mas carregado de cumplicidade.

Hoje tem transferência instantânea.
E zero mistério.

A gente ficava na porta de casa até tarde. Conversando sobre nada importante. E era justamente isso que importava. Não tinha celular, não tinha urgência, não tinha essa necessidade de registrar tudo como prova de existência.

A gente existia e pronto.

Talvez a saudade não seja do tempo.
Se fosse, bastava envelhecer menos.

A saudade é do jeito de viver.

De quando o mundo era grande porque a gente era pequeno.
De quando a rua ensinava mais que muita escola.
De quando a felicidade cabia inteira numa tarde e sobrava espaço pra mais.

Hoje o mundo cabe na palma da mão.
E, curiosamente, falta lugar pra viver dentro dele.


Por João Guató

O sábado outra vez me pegou pela mão e me levou pra dentro de mim.

Essas imagens não chegaram como novidade. Chegaram como reencontro. Vieram com aquele jeito antigo de quem conhece a casa e entra sem bater. E, de repente, eu estava ali, sentado num carrinho de madeira, descendo uma rua que hoje nem sei se ainda existe — mas dentro de mim continua inteira.

A memória não guarda fatos. Guarda sensações.

E o que voltou não foi o que a gente tinha.
Foi o que a gente era.

A gente não tinha quase nada.
Mas tinha tempo.

Tempo pra sentar no meio-fio e conversar sobre coisa nenhuma, que no fundo era tudo. Tempo pra rir sem motivo, só porque o outro ria. Tempo pra ser companhia, que hoje virou artigo raro, quase em extinção.

A gente tinha um ao outro. E isso bastava de um jeito que hoje ninguém mais acredita.

Tinha televisão? Tinha.
Mas era na casa do vizinho.

E aquilo não era falta. Era convite. Era desculpa pra estar junto, amontoado, dividido em pedaços de chão e expectativa. Ninguém assistia sozinho. Até a imagem parecia melhor quando era coletiva.

Hoje cada um tem sua tela.
E ninguém tem ninguém.

Tinha também o respeito. Não desses ensinados em palestra, mas daqueles que vinham no gesto. “A bença, mãe.” “A bença, pai.” A gente não sabia explicar o que aquilo significava — mas sabia sentir. Era uma forma de dizer: “eu reconheço de onde vim”.

Hoje tem liberdade demais e raiz de menos.

A gente tinha pressa de crescer.
Olha a ironia.

Queria ser grande pra poder fazer tudo. E quando cresceu, descobriu que perdeu justamente o que fazia tudo ter sentido. A infância não era uma fase. Era um lugar.

E a gente saiu de lá achando que era evolução.

Tinha também as pequenas infrações da felicidade. Roubar manga no quintal do vizinho não era crime. Era rito de passagem. Era a coragem infantil testando os limites do mundo — e quase sempre sendo perdoada pelo próprio mundo.

Hoje tem câmera, cerca elétrica, boletim de ocorrência.
E nenhuma história pra contar depois.

A escola?
Ah, a escola…

A pose dura na frente da bandeira, o cabelo penteado à força, o sorriso meio torto. A gente não sabia, mas estava registrando um tempo em que o futuro ainda era inteiro, não esse pedaço ansioso que virou.

E tinha as invenções.

Telefone de lata, carrinho de madeira, balanço improvisado. A gente não comprava brinquedo. A gente fabricava alegria. Com o que tinha. Com o que não tinha. Com o que imaginava.

Hoje tem tudo pronto.
E nada acontece.

Talvez a saudade não seja dessas coisas.
Nem do carrinho, nem da televisão do vizinho, nem da manga roubada.

A saudade é de quando a vida não precisava ser tanta coisa pra ser boa.

A gente era pequeno.
Mas o mundo… o mundo cabia inteiro dentro de uma tarde.


Por João Guató

O sábado como meu dia de rede cuiabana chegou com aquele silêncio preguiçoso que só ele sabe fazer. Dia de rede armada, de corpo largado e pensamento solto, como se a vida, por algumas horas, desistisse de cobrar pressa. Foi nesse intervalo de sossego que li a prosa do professor Elismar Bezerra. E pronto. Bastou uma frase, dessas que parecem simples mas vêm carregadas de infância, para que a memória abrisse a porteira.

E memória, quando resolve entrar, não pede licença. Vai chegando com cheiro de terra molhada, com barulho de bola batendo no chão de barro, com risada solta de quem ainda não sabia o peso do mundo.

De repente, eu já não estava mais aqui.

Eu era menino outra vez.

Naquele tempo, a rua não era só rua. Era campo de futebol, pista de corrida, palco de aventura e território de amizade. Não existia essa história de “vou ali rapidinho”. A gente ia e só voltava quando a noite mandava, quando a voz da mãe ecoava mais forte que qualquer brincadeira.

A gente não tinha quase nada. E, curiosamente, por isso mesmo, cabia tudo.

Cabia o mundo inteiro dentro de um pedaço de madeira com quatro rodinhas improvisadas. Cabia felicidade dentro de um copo de groselha gelada. Cabia riqueza num punhado de pedrinhas que a gente jurava ser ouro, catado na lama com a convicção de quem ainda acreditava em milagre.

E talvez fosse mesmo ouro.

Porque aquilo valia mais do que muita coisa que hoje a gente chama de importante.

Tinha também a comunicação de lata com barbante, que funcionava melhor do que muito sinal de hoje. Não porque era tecnologia, mas porque tinha presença. Tinha alguém do outro lado, de verdade. E isso já resolvia tudo.

A gente assistia televisão na casa do vizinho, espremido, rindo junto, dividido entre o encanto da tela e o prazer de estar junto. Hoje cada um tem sua tela, seu fone, seu mundo particular. E, ainda assim, parece faltar alguma coisa.

Naquele tempo, pedir a bênção não era formalidade. Era gesto de afeto. Era uma forma de reconhecer que a vida vinha de antes da gente e que precisava ser respeitada.

E havia a rua. Sempre a rua.

A rua como extensão da casa, como abrigo coletivo, como território onde ninguém era só um. Todo mundo era de todo mundo. A infância era compartilhada, dividida, multiplicada.

Talvez seja isso que a prosa do Elismar cutucou sem pedir desculpa: a lembrança de que a gente cresceu achando que precisava de mais, quando, na verdade, já tinha o essencial.

A infância não tinha Wi-Fi, mas tinha mundo.

E que mundo.

Um mundo que cabia na palma da mão suja de terra, no joelho ralado, na risada sem motivo, na liberdade sem cerca.

Hoje, olhando pra trás, a gente entende uma ironia meio amarga: passamos a infância querendo crescer, e passamos a vida adulta querendo voltar.

Mas não volta.

O que volta é a memória. E ainda bem.

Porque é nela que mora esse menino que a gente foi. Esse menino que corria sem medo, que acreditava sem dúvida, que vivia sem cálculo.

E talvez seja por isso que, vez ou outra, a gente fecha os olhos no meio de um sábado qualquer e sente.

Não é saudade só do tempo.

É saudade da forma como a gente existia dentro dele.

E isso, convenhamos, não cabe em quintal nenhum.


João Guató é cronista, jornalista e autor de textos que transitam entre o cotidiano e a memória afetiva, com forte marca regional e olhar sensível sobre as experiências humanas, especialmente aquelas enraizadas na cultura popular e na vida simples.

Elismar Bezerra Arruda é professor, escritor e pensador da educação, cuja produção literária e reflexiva se destaca pela capacidade de transformar vivências, sobretudo da infância e do interior, em narrativas carregadas de significado, sensibilidade e pertencimento.