O BRASIL QUE O BRASIL NÃO ASSISTE


Por João Guató 

Consegui assistir na Prime Video o filme Malês, dirigido por Antônio Pitanga. Confesso que fui sem expectativa grandiosa, apenas a curiosidade natural de quem gosta de cinema e de história. Saí impressionado. O enredo funciona, o elenco sustenta a narrativa com força dramática e o resultado final é um daqueles filmes que lembram uma verdade incômoda: o Brasil ainda não conhece o Brasil. Vale a pena assistir. E vale refletir.


O filme mergulha em um episódio histórico que raramente recebe o espaço que merece: a Revolta dos Malês, em 1835, na Bahia. Um levante organizado por africanos muçulmanos escravizados que ousaram fazer algo que a ordem colonial considerava impensável. Resistir.


A narrativa acompanha dois jovens africanos muçulmanos que estavam prestes a se casar quando são capturados e trazidos à força para o Brasil. Separados pela escravidão, tentam sobreviver sem perder aquilo que o sistema escravista mais queria destruir: identidade, fé, memória e esperança. Enquanto lutam para se reencontrar, a revolta começa a ganhar forma entre os africanos que vivem sob o jugo da escravidão.


O roteiro de Manuela Dias acerta ao evitar o tom de aula didática. Em vez de transformar o filme em um sermão histórico, constrói personagens vivos. Pessoas que sentem medo, amor, raiva e dignidade. Isso é cinema. História contada por gente de carne e osso.


O elenco ajuda muito a sustentar essa densidade dramática. Rocco Pitanga conduz parte importante da narrativa com intensidade. Camila Pitanga entrega presença cênica forte. E o próprio Antônio Pitanga aparece em cena como quem lembra ao espectador que certas histórias levaram décadas para finalmente chegar às telas.


Há algo simbólico nisso. Três gerações da mesma família participando de um filme sobre memória histórica. Em um país que vive esquecendo o próprio passado, esse gesto tem peso.


A reconstituição da Bahia do século XIX é cuidadosa. Figurinos, cenários e fotografia criam uma atmosfera tensa, pesada, quase sufocante. Nada ali parece confortável. Nem deveria. Escravidão nunca foi paisagem turística.


Mas o impacto real do filme aparece depois. Quando a história termina e o espectador percebe um detalhe perturbador: a maioria dos brasileiros nunca ouviu falar da Revolta dos Malês.


A maior insurreição de pessoas escravizadas da história do país continua quase invisível na memória nacional.


O cinema, às vezes, faz esse papel que escola, política e televisão não fazem. Ele puxa o véu do esquecimento.


Malês é um filme poderoso exatamente por isso. Não apenas pela narrativa, pelo elenco ou pela direção. Mas porque revela uma verdade simples e incômoda.


O Brasil ainda não conhece o Brasil. E quando um filme consegue mostrar isso com inteligência e humanidade, ele já cumpriu sua missão. Vale assistir. Muito.