
Por João Guató
De tempos em tempos a política brasileira redescobre a própria história, quase sempre com certo atraso. Agora, o debate sobre uma possível federação entre PSOL e PT acabou fazendo exatamente isso: trouxe de volta a memória do racha que deu origem ao partido em 2004.
Nos últimos dias, surgiram especulações de que o PSOL poderia perder o grupo político liderado por Guilherme Boulos após a derrota da proposta de federação com o PT. A ala ligada ao líder da corrente Revolução Solidária defendia a aliança como estratégia para fortalecer o campo progressista nas próximas eleições e ampliar o enfrentamento à extrema direita.
A votação, realizada no sábado (7), terminou com um resultado contundente: cerca de 75% dos integrantes do partido rejeitaram a federação, enquanto 25% votaram a favor da proposta.
O placar evidenciou o isolamento político do grupo ligado a Boulos dentro da legenda. Entre os nomes mais conhecidos dessa corrente estão a ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara, e a deputada federal Erika Hilton.
Nos bastidores, integrantes da ala derrotada avaliam que a decisão representou uma derrota política direcionada justamente a lideranças que hoje possuem grande visibilidade pública e potencial eleitoral dentro do partido. Diante disso, o grupo deve discutir nas próximas semanas se continuará ou não no PSOL, além de renegociar espaços e condições de atuação política dentro da legenda.
Mas a controvérsia atual só pode ser compreendida olhando para trás.
A ORIGEM DO RACHO
O PSOL nasceu justamente de uma ruptura com o PT.
Em 2003, no primeiro ano do governo Lula, quatro parlamentares petistas decidiram votar contra a proposta de Reforma da Previdência apresentada pelo próprio governo. A decisão contrariou a orientação oficial do partido.
Foram expulsos da legenda:
• Heloísa Helena, então senadora
• Luciana Genro, deputada federal
• João Fontes, deputado federal
• Babá (João Batista de Araújo), deputado federal
Os parlamentares argumentavam que a reforma contrariava princípios históricos do PT, sobretudo no que dizia respeito à defesa dos direitos dos trabalhadores e dos servidores públicos.
Após uma votação tensa no Diretório Nacional do PT, cerca de 67% dos membros decidiram pela expulsão dos dissidentes.
A ruptura abriu caminho para a criação de um novo partido.
A FUNDAÇÃO DO PSOL
Depois da expulsão, o grupo passou cerca de 15 meses coletando assinaturas em todo o país para formalizar uma nova legenda.
Em 2004, foi fundado oficialmente o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), que obteve registro definitivo no Tribunal Superior Eleitoral em 2005.
O novo partido se apresentou como uma alternativa de esquerda crítica ao PT e defendia uma agenda baseada em:
• socialismo democrático
• ecossocialismo
• anticapitalismo
• feminismo
• direitos LGBTQIA+
• combate ao racismo
• democratização da mídia
Além disso, seus fundadores afirmavam que o PSOL deveria manter independência política e evitar alianças consideradas conservadoras.
IDENTIDADE POLÍTICA EM DISPUTA
Foi exatamente essa origem que voltou ao centro do debate durante a votação sobre a federação com o PT.
Para a maioria do partido, uma aliança institucional com o PT poderia diluir a identidade política que deu origem à legenda.
Para o grupo ligado a Boulos, no entanto, a federação seria uma estratégia necessária diante do cenário político atual e da necessidade de ampliar a unidade das forças progressistas no país.
A disputa revela duas leituras diferentes sobre o papel do PSOL na política brasileira.
Uma aposta na autonomia crítica da esquerda.
A outra defende a construção de alianças mais amplas para enfrentar adversários políticos maiores.
No fim das contas, o que a votação deixou claro é que, mais de vinte anos depois do racha que originou o partido, a memória da ruptura com o PT continua sendo um dos pilares da identidade do PSOL.
Na política, algumas histórias não passam. Elas apenas voltam para cobrar coerência.