PSOL REJEITA FEDERAÇÃO COM O PT, MAS CONFIRMA APOIO A LULA EM 2026

Por João Guató


Brasília testemunhou mais um daqueles momentos em que a política brasileira parece caminhar sobre uma corda bamba. O PSOL decidiu não integrar a Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV. A votação foi clara: 76% dos delegados rejeitaram a proposta, enquanto 24% defenderam a união formal entre as legendas.


A decisão veio acompanhada de outro movimento igualmente significativo. Mesmo recusando a federação com o PT, o partido aprovou por unanimidade o apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva já no primeiro turno das eleições de 2026. Em outras palavras, o PSOL optou por manter independência organizativa sem romper a aliança política nacional com o governo.


No mesmo encontro, o partido renovou por mais quatro anos sua federação com a Rede Sustentabilidade, parceria considerada fundamental para garantir estabilidade institucional e segurança diante das regras da cláusula de barreira.


O debate interno revelou tensões que já circulavam nos bastidores da esquerda brasileira. Lideranças históricas e novas vozes do partido se posicionaram em lados diferentes da disputa estratégica.


O deputado federal Guilherme Boulos, uma das principais lideranças da ala favorável à federação, argumentou que a união formal poderia fortalecer o campo progressista diante da ofensiva da extrema-direita.


“Precisamos ampliar nossa capacidade de enfrentar o conservadorismo no Congresso. Uma federação mais ampla poderia fortalecer a esquerda institucionalmente e ampliar nossa presença parlamentar”, afirmou Boulos durante o encontro.


A posição, porém, encontrou resistência significativa entre correntes do partido que temem a perda de autonomia política. Entre essas vozes estava a ex-senadora Heloísa Helena, uma das fundadoras do PSOL após a ruptura com o PT em 2004.


Para Heloísa Helena, preservar a identidade política do partido é uma questão central. “O PSOL nasceu justamente para manter coerência programática e independência. Não podemos abrir mão disso em nome de uma engenharia eleitoral”, declarou.


A deputada federal Érika Hilton também participou do debate e reforçou o argumento de que a unidade da esquerda continua sendo necessária, mesmo sem a federação formal.


“Nosso compromisso é com a defesa da democracia, com os direitos sociais e com o enfrentamento da extrema-direita. O apoio à reeleição de Lula expressa essa responsabilidade histórica”, afirmou a parlamentar.


Outras lideranças presentes no encontro também participaram das discussões, entre elas o deputado federal Ivan Valente, a deputada Sâmia Bomfim e o deputado Glauber Braga, representantes de correntes que defenderam a manutenção da autonomia partidária e alertaram para o risco de subordinação ao PT em alianças estaduais.


Um dos pontos mais sensíveis do debate envolveu justamente os palanques regionais. Caso integrasse a federação petista, o PSOL poderia ser obrigado a apoiar candidaturas alinhadas ao Centrão em alguns estados, como alianças envolvendo MDB ou PSD. Esse cenário foi apontado por dirigentes como incompatível com a trajetória política do partido.


Na prática, a decisão tomada reorganiza o campo da esquerda para 2026. O PSOL permanece aliado ao governo Lula no plano nacional, mas preserva liberdade para decidir seus posicionamentos nos estados. Isso significa que o partido poderá lançar candidaturas próprias ou apoiar nomes mais alinhados à sua linha programática em regiões onde discordar das alianças do PT.


Ao renovar a federação com a Rede Sustentabilidade, o partido também assegura condições institucionais para continuar competitivo no sistema eleitoral brasileiro.


O resultado final do encontro revela um retrato bastante fiel da esquerda contemporânea: unidade estratégica contra a extrema-direita, mas disputas intensas sobre os caminhos para chegar lá.


Na política brasileira, onde alianças costumam nascer e desaparecer com velocidade surpreendente, o PSOL escolheu um caminho intermediário. Mantém a parceria com Lula, preserva sua estrutura própria e entra na disputa de 2026 tentando equilibrar autonomia partidária e compromisso com a frente democrática.


Nem fusão total. Nem ruptura. Apenas mais um capítulo do permanente exercício de equilíbrio que define a política nacional.