QUANDO O “JAPONÊS DA FEDERAL” CHEGA PARA CONSERTAR O GOVERNO ROCOCÓ DO ABÍLIO BRUNINI


Cuiabá vive mais um daqueles episódios em que a política local parece escrita por um roteirista com senso de humor ácido. O prefeito Abílio Brunini convocou a imprensa para explicar à cidade por que decidiu trazer para dentro do Palácio Alencar um personagem conhecido nacionalmente: Newton Hidenori Ishii, o célebre “Japonês da Federal”.

A missão oficial é nobre. Segundo o prefeito, Ishii chega para ajudar a prefeitura a implantar compliance — palavra elegante que vem do inglês to comply e significa simplesmente cumprir regras.

A coletiva de imprensa teve tom quase didático. De um lado, o prefeito tentando convencer que a escolha foi técnica. Do outro, o novo secretário adjunto explicando, com certo cuidado, o que veio fazer em Cuiabá.

Logo na abertura da fala, Ishii explicou que aceitou vir para a capital mato-grossense para fazer “um trabalho que gosta”, ligado à orientação sobre ética, transparência e boas práticas administrativas.

Ele contou inclusive que chegou a cogitar transferir o título eleitoral para Cuiabá — detalhe que, em política, nunca passa despercebido.

“Eu até vim consultar se transferia meu título pra cá ou não. Talvez eu nem transfira, porque nunca houve intenção minha de participar de eleição”, disse.

A frase teve efeito curioso entre jornalistas e observadores políticos. Porque, no Brasil, ninguém discute transferência de título eleitoral por acaso.

Ishii tratou de reforçar que prefere trabalhar “nos bastidores”, orientando tanto o setor público quanto o privado sobre integridade administrativa.

“Eu prefiro atuar nessa parte mais complexa, conscientizando sobre transparência e ética”, afirmou.

A declaração tem peso simbólico quando lembramos que o ex-agente da Polícia Federal foi condenado em 2023 por facilitação de contrabando na fronteira Brasil-Paraguai, episódio que resultou em multa de R$ 200 mil e perda do cargo público.

Mas a política brasileira tem uma habilidade quase artística de transformar contradição em currículo.


O ARGUMENTO DO PREFEITO


Depois foi a vez de Abílio Brunini explicar a lógica da contratação.

Segundo ele, a ideia surgiu quando soube que Ishii estava no Paraná e buscava novas experiências profissionais.

“Eu já conheço ele há algum tempo. Ele estava em Curitiba e fiz uma proposta para vir ajudar a gente aqui em Cuiabá, pelo menos temporariamente”, explicou.

A missão seria implantar práticas de compliance dentro da prefeitura — ou seja, mecanismos de controle, ética administrativa e boas práticas de gestão.

Em português claro: ensinar servidores públicos a seguir regras.

O prefeito fez questão de esclarecer também a polêmica envolvendo a condenação do novo secretário adjunto.

Disse que perguntou diretamente se havia impedimento legal para trabalhar no serviço público.

Segundo Brunini, Ishii apresentou certidões negativas, comprovando que não existe impedimento jurídico.

“Ele trouxe a documentação e está tudo certo”, afirmou.

Outro detalhe revelado pelo prefeito foi que o próprio japonês avisou que não pretende permanecer muito tempo no cargo, já que o salário da prefeitura é menor que o que ele recebe em atividades privadas.

“Ele disse que ficaria um período ajudando no que puder disponibilizar”, contou.


A SECRETARIA 3,9



A história, porém, fica mais interessante quando se observa onde exatamente o japonês da federal foi parar.

Ishii aparece como secretário adjunto da Secretaria de Governo, considerada o coração político da administração municipal.

O titular da pasta é Ananias Filho, presidente estadual do PL e homem de confiança do prefeito.

É essa secretaria que faz a articulação política com vereadores, deputados, bancada federal e partidos aliados. Em outras palavras, é o centro nervoso da governabilidade.

Ananias assumiu o cargo ainda no início da gestão, em dezembro de 2024, com três missões claras: articular politicamente o governo, captar recursos e manter o secretariado alinhado.

Nos bastidores da prefeitura e do Centro Político Administrativo começou a circular um curioso “boletim informal” sobre o desempenho das secretarias.

E, nesse ranking silencioso, dizem que a Secretaria de Governo teria recebido nota 3,9.

Nada desastroso.

Mas também nada exatamente brilhante.

Foi justamente nesse cenário que surgiu o reforço de peso: o Japonês da Federal.


O PROFESSOR DE REGRAS



Oficialmente, a função de Ishii é implantar compliance.

Mas o que significa isso?

Compliance é um conjunto de normas e mecanismos criados para garantir que uma instituição cumpra leis, regulamentos e princípios éticos.

Inclui medidas como:

• códigos de conduta
• auditorias internas
• mecanismos de transparência
• canais de denúncia
• controle de contratos públicos

Em teoria, é uma ferramenta importante para evitar corrupção e melhorar a gestão pública.

Na prática, porém, sua eficácia depende de algo simples: vontade política de seguir regras.

Sem isso, compliance vira apenas uma palavra bonita em coletiva de imprensa.


O PROBLEMA DO ALUNO



E é justamente aqui que entra a maior ironia dessa história.

Enquanto a prefeitura anuncia uma cruzada pedagógica sobre ética administrativa, a própria gestão enfrenta críticas por decisões administrativas controversas.

Reportagens recentes apontam que Cuiabá vive uma situação fiscal delicada, com déficit estimado em R$ 364 milhões, sendo cerca de R$ 120 milhões na área da saúde.

A crise foi agravada por decisões tomadas pela própria gestão, como:

• revogação da taxa do lixo
• cancelamento do Refis
• recusa de empréstimo aprovado pela Câmara

Ao mesmo tempo, mais de 200 funcionários da Limpurb foram demitidos, o que contribuiu para o acúmulo de lixo em vários bairros da cidade.

A administração também decretou calamidade financeira apenas três dias após assumir, e existe a possibilidade de novo decreto em menos de um ano.

Além disso, surgiram conflitos políticos com a Câmara Municipal, especialmente em torno da CPI da CS Mobi, quando o prefeito insinuou que vereadores estariam “fazendo corpo mole”.

Somam-se a isso promessas de campanha que ainda aguardam materialização, como:

• criação da Guarda Municipal armada
• revisão do contrato da CS Mobi
• reorganização de contratos e licitações

Nada disso configura ilegalidade automática.

Mas, para quem pretende ensinar compliance, o cenário não ajuda muito na credibilidade da aula.


A AULA COMEÇOU NO LUGAR ERRADO


No fim das contas, Cuiabá assiste a uma cena curiosa.

Um ex-personagem da Lava Jato chega à prefeitura para ensinar ética administrativa.

E faz isso justamente dentro da secretaria responsável pela articulação política do governo.

Talvez funcione.

Talvez a prefeitura realmente consiga implantar boas práticas e melhorar a gestão.

Mas existe um pequeno detalhe pedagógico nessa história.

Quando se organiza um curso sobre cumprir regras, o primeiro passo é identificar quem realmente precisa assistir à aula.

E, olhando para o cenário atual da administração municipal, muita gente em Cuiabá começa a suspeitar que o aluno principal talvez não esteja sentado na plateia.

Ele está sentado na cadeira de prefeito.