Por João Guató, Produção e criação para "O Pasquim Cuiabano"
Houve um tempo em que o texto nascia para informar e, às vezes, teimava em não morrer no fim do dia. Ficava rondando a memória, como quem cobrava alguma coisa mal resolvida. O “Quebra-Torto”, do Diário de Cuiabá, pertencia a essa espécie. Não era só coluna. Era método. Era temperamento. Era um jeito de encarar o poder sem baixar a cabeça e sem precisar gritar.
No meio da engrenagem previsível das redações, o “Quebra-Torto” funcionava como um corpo estranho. Notas curtas, rápidas, às vezes ferinas, quase sempre precisas. Política, cultura, bastidores — tudo passava por ali como quem atravessava uma lâmina fina. Não era espaço para agradar. Era espaço para dizer.
E dizia.
Surgiu no fim dos anos 80, quando o jornal ainda vivia de tinta, pressa e algum risco. Não brotou de uma cabeça iluminada dessas que depois viram busto. Nasceu de um coletivo. Um grupo de jornalistas que decidiu tratar a realidade sem verniz. Antônio de Pádua, Martha Arruda e Enock Cavalcanti formavam o núcleo mais lembrado, mas a coluna nunca pertenceu a um só. Pertencia ao choque de vozes.
E que vozes.
Marcos Antonio Moreira, Cristovão Moraes, João Bosquo, Lorenzo Falcão se somavam a esse coro meio desalinhado que, curiosamente, funcionava melhor justamente por não tentar soar bonito. Cada um escrevia do seu jeito, com sua medida de ironia e sua dose de veneno. E, no meio disso, surgia uma unidade que não dependia de regra, mas de coragem.
Durante as eleições, então, a coluna virava leitura obrigatória para quem não se contentava com discurso pronto. Enquanto o restante se ocupava em repetir promessa, o “Quebra-Torto” revelava bastidor. Estratégia, vaidade, tropeço, cálculo — tudo aparecia. Às vezes em três linhas. Às vezes numa frase que valia mais do que páginas inteiras de reportagem domesticada. Figuras como Dante de Oliveira, Julio Campos e Wilson Santos passavam por ali sem blindagem.
O leitor entendia. O político se incomodava. E o jornalismo, por um momento raro, cumpria o que deveria ser básico: provocar com inteligência.
Não havia neutralidade encenada. Havia posição. E, paradoxalmente, isso aproximava mais da verdade do que muito texto que se escondia atrás de um equilíbrio artificial. Porque ali ninguém fingia não ver. E, quando via, escrevia.
O legado do “Quebra-Torto” não estava só no que publicava. Estava no tipo de leitor que formava. Um leitor que aprendia a desconfiar, a ler nas entrelinhas, a perceber que bastidor também era notícia. Um leitor que entendia que ironia não era enfeite, era ferramenta.
Anos depois, quando a memória da coluna reaparecia — em arquivos, em relatos, em lembranças teimosas — o que vinha junto não era só saudade. Era comparação. E comparação, como se sabe, raramente é gentil.
O que era livre virou cauteloso.
O que era ácido virou protocolar.
O que era risco virou cálculo.
E mesmo assim, o “Quebra-Torto” continuava existindo. Não mais como página impressa, mas como referência incômoda. Como um espelho que muita gente preferia evitar. Como lembrança de que já se escreveu com menos medo e mais palavra.
Essas crônicas nasciam desse incômodo.
Não para repetir o passado, porque isso seria só nostalgia preguiçosa. Mas para cutucar o presente e perguntar, sem muito cuidado: em que momento se desistiu de mastigar o osso?
Porque o problema nunca foi a dureza da carne.
Foi a decisão de parar de morder.
QUANDO O JORNALISMO AINDA MASTIGAVA OSSO E CUSPIA VERDADE!
Passei pela página do Enock Cavalcanti e tive aquela sensação rara de tropeçar numa coisa que presta no meio do barulho. Ele puxou do fundo do arquivo uma edição do “Quebra-Torto”, do velho Diário de Cuiabá, e pronto: minha memória fez o resto, como se alguém tivesse aberto uma janela num tempo em que coluna de jornal não era peça de assessoria disfarçada.
O “Quebra-Torto” era ácido. Não esse ácido domesticado de hoje, que pede desculpa antes de morder. Era ácido de verdade, que deixava gosto na boca e, às vezes, um certo constrangimento em quem era citado. Antônio de Pádua, Afrânio Carlos da Silva, Jê Fernandes, Fabrício de Parma e o próprio Enock escreviam como quem não devia favor. E isso, veja só, faz uma diferença quase revolucionária.
Ler aquelas notas é como espiar uma Cuiabá que ainda tinha o hábito de rir de si mesma enquanto levava umas bordoadas bem dadas. Tinha bastidor político sem verniz, tinha ironia com nome e sobrenome, tinha crítica que não vinha embrulhada em eufemismo. Até quando elogiava, vinha com aquele tempero meio desconfiado, como quem diz: “tá bom, mas não se empolga”.
E aí você compara com o presente, esse lugar onde muita coisa virou “nota de esclarecimento” que não esclarece nada. Jê Fernandes já tinha diagnosticado lá atrás: textos que giram em torno do próprio rabo até transformar mentira em versão oficial aceitável. Nada envelheceu tanto quanto a tentativa de parecer honesto sem ser.
O mais curioso é perceber que o “Quebra-Torto” não era só uma coluna. Era um método. Um jeito de olhar o poder sem pedir licença, de tratar o leitor como alguém minimamente inteligente e de escrever com alguma coragem — palavra que hoje anda em falta, talvez por excesso de convite pra café institucional.
Tem coisa que devia mesmo ser tombada como patrimônio cultural. Não por nostalgia boba, mas por utilidade pública. Porque lembrar que já se fez jornalismo com dentes ajuda a medir o quanto hoje se mastiga com a gengiva.
No fim, a saudade que o Enock escreve não é só dele. É de um tempo em que a imprensa não tinha medo de sujar a mão. Hoje, em compensação, tem gente que nem quer sujar o teclado.
QUEBRA-TORTO: A ÉPOCA EM QUE A CANETA NÃO PEDIА DESCULPA
Depois que passei pela página do Enock Cavalcanti e dei de cara com aquelas lembranças do “Quebra-Torto”, do Diário de Cuiabá, alguma coisa aqui dentro resolveu acordar. Memória afetiva tem dessas coisas: você acha que está só navegando, mas, de repente, está de volta a um tempo em que escrever ainda era um ato meio perigoso.
Eu passei pelo jornalismo como correspondente de sucursal, escrevendo todo santo dia. Isso vicia. Não no glamour, que nunca existiu mesmo, mas no gesto de organizar o mundo com palavras. Talvez por isso hoje eu invente o tal do Pasquim Cuiabano, como quem insiste em manter vivo o jornalista que se recusa a morrer em silêncio. Escrever, para mim, virou uma espécie de oração torta: um mantra onde o verbo ainda tenta virar carne e dar algum sentido a esse teatro meio desregulado que a gente chama de realidade.
Por isso a lembrança do “Quebra-Torto” não é só nostalgia. É quase um choque de contraste. Aquilo era jornalismo de verdade. Não esse material plastificado que hoje circula por aí com cheiro de assessoria. Era texto que tinha dono, tinha risco e, pior ainda para os padrões atuais, tinha opinião.
O “Quebra-Torto” era ácido. Ácido mesmo, não essa versão diet que pede desculpa antes de incomodar. Antônio de Pádua, Afrânio Carlos da Silva, Jê Fernandes, Fabrício de Parma e o próprio Enock escreviam como quem não devia favor. E isso, veja só, melhorava muito o texto.
Quando fui correspondente do Diário de Cuiabá no Médio Norte, era aí que a coisa ficava divertida. Eu gostava de ver quando o Pádua pescava uma reportagem nossa e transformava em nota no “Quebra-Torto”. Era como se a notícia passasse por uma segunda filtragem, só que ao contrário: ficava mais livre, mais afiada, mais honesta.
Teve uma história que nunca saiu da cabeça. Fiz uma reportagem sobre Zé Barbudo, um saqueiro que virou vereador em Diamantino e chegou à presidência da Câmara. Na minha leitura — jovem, atrevida e sem muita paciência — o sujeito era uma “anta qualificada”: rústico, sem traquejo de gestão pública, mas sentado na cadeira de comando. Escrevi com aquele tom debochado que sempre foi minha marca, embora nem sempre os editores deixassem passar. Sempre tinha alguém para “melhorar” o texto, o que geralmente significava tirar a graça e metade da verdade.
No Diário, não. Lá o negócio era quase no estado bruto. Sem revisor para domesticar frase e com editores que, por algum motivo hoje quase incompreensível, confiavam no repórter. Mandei as notas para o Antônio de Pádua. Ele publicou. Sem tirar uma vírgula. Lá estava o “anta qualificada”, impresso, firme, olhando para quem quisesse se incomodar.
Só que Pádua não era só um publicador de pólvora. Era jornalista. E jornalista bom tem o estranho hábito de pensar. Veio com duas notas em contraponto. Com aquele jeito mineiro, meio reflexivo, meio preguiçoso de quem prefere cutucar do que gritar, levantou a questão: será que o Zé Barbudo merecia mesmo aquilo? Três mandatos de vereador e a presidência da Câmara não caem no colo por acidente. Alguma engrenagem ali funcionava.
Pronto. Num movimento só, ele me expôs e me protegeu. Me deixou falar, mas garantiu ao leitor o que hoje anda escasso: contexto. Zé Barbudo leu. E, em vez de comprar briga, inflou o peito. Saiu satisfeito, quase orgulhoso, como um peru em época de festa. A crítica virou medalha. E o jornalismo fez aquilo que deveria fazer mais vezes: provocar sem fechar a porta.
É isso que o Enock resgata. Não é só memória. É um lembrete meio incômodo de que já se escreveu com liberdade suficiente para errar, acertar e ser contestado no mesmo espaço.
Hoje, o que se vê por aí vem embalado em cautela, cálculo e um certo medo de existir. Naquele tempo, vinha com risco. E, ao que tudo indica, era justamente o risco que fazia o texto valer a pena.
QUEBRA-TORTO: O CAFÉ FORTE QUE O JORNALISMO DESAPRENDEU A TOMAR
Tem coisa que não morre. Só é empurrada para o canto, como móvel antigo que ainda sustenta a casa, mas já não combina com a decoração nova. O “Quebra-Torto”, do Diário de Cuiabá, é dessas peças que continuam de pé, mesmo depois de terem sido retiradas da sala principal.
Jornalista sabe disso, embora finja esquecer: notícia passa. O que fica é o jeito de contar. E o “Quebra-Torto” tinha um jeito que hoje anda em falta, talvez porque incomodava demais. Não era coluna para leitura distraída. Era café forte, desses que não aceita açúcar demais. Dava susto, acordava e, às vezes, embrulhava o estômago. E tudo bem. Jornalismo que não causa algum desconforto talvez esteja só decorando a realidade.
O Diário de Cuiabá seguiu vivendo, como seguem as cidades que aprendem a sobreviver às próprias perdas. A máxima de Alves de Oliveira continua ecoando: a cidade vive de quem vive dela. E o jornal, de certa forma, também. Mas viver não é o mesmo que manter acesa a chama que um dia queimou mais alto.
O “Quebra-Torto” queimava.
Não por escândalo barato, mas por inteligência afiada. Antônio de Pádua escrevia com aquela ironia que não precisava levantar a voz para ser ouvida. Mineiro de origem, pantaneiro por adoção, fazia da coluna um espaço onde a política era despida sem alarde, mas com precisão cirúrgica. Devassa sem ser vulgar — coisa rara, quase extinta.
Outro dia, fuçando esses arquivos que insistem em sobreviver à pressa digital, reencontrei um texto do ex-deputado Roberto Nunes. Ele dizia que o “Quebra-Torto” era indigesto. E dizia isso não como crítica rasa, mas como quem reconhece o efeito colateral inevitável de um jornalismo que funciona.
Indigesto porque fazia pensar.
Indigesto porque cutucava.
Indigesto porque não tratava político como porcelana nem leitor como tolo.
No texto, Roberto Nunes lembra do convívio com Pádua na Assembleia, dos cafés, das conversas, daquela ironia mansa que parecia conversa de corredor, mas carregava mais lucidez do que muito discurso oficial. Pádua não impunha. Ele sugeria, insinuava, desmontava. E, quando você percebia, já estava repensando suas próprias certezas.
Isso é mais perigoso do que gritar.
Talvez por isso o “Quebra-Torto” tenha se tornado insustentável para um tempo que prefere conforto à inquietação. Hoje, boa parte do que se escreve vem embrulhado para não ferir. Antes, vinha para provocar. E, se doesse, melhor ainda — sinal de que acertou onde devia.
Chamar o “Quebra-Torto” de indigesto é, no fundo, um elogio involuntário. Porque o que não desce fácil costuma ser justamente o que alimenta de verdade.
O problema é que, pelo visto, a gente desaprendeu a mastigar.
Artigo: QUEBRA TORTO INDIGESTO
Após a surpresa causada pelos dias tristes, úmidos e frios em pleno verão, já no domingo que prenunciava a volta do calor, interrompo meu habitual quebra-torto com a notícia da lamentável perda do jornalista Antônio de Pádua.
Tive a privilegiada oportunidade de, amiúde, merecer a atenção desse profissional que, sem manifestar qualquer interferência no meu estilo de conduzir a política, sempre dialogava sem impor. Suas colocações eram sutis e, por vezes, carregadas de irreverência, permeadas de uma rara inteligência que certamente serviram para enriquecer o debate.
Discreto, de caminhar manso e introspectivo, ironicamente bem-humorado, Pádua já fazia parte da rotina da Assembleia Legislativa, lugar onde cotidianamente nos encontrávamos para o já costumeiro bate-papo, o cafezinho e, claro, comentar seus artigos — de conteúdo devasso sem ser vulgar, tal qual o não menos saudoso Nelson Rodrigues — a desnudar as hipocrisias da vida mundana. Momentos inesquecíveis.
Sabemos que o político vitorioso sobressai-se principalmente pela sua exposição na mídia. Com seu estilo farejador e imparcial, Pádua contribuiu significativamente com este ex-parlamentar, dedicando generosos espaços para divulgar e, sobretudo, comentar — criticando ou elogiando — minhas iniciativas. Gesto que serviu para mobilizar o interesse de leitores deste e de outros Estados, promovendo uma profícua interatividade em busca de informações sobre projetos e atividades do meu gabinete, proporcionando-me grande estímulo.
Torcedor do Atlético, orgulhava-se de ser mineiro, mas também apreciava os cerrados e nossas peculiaridades, a ponto de trabalhar com um site batizado pelo regionalíssimo nome de Quebra-Torto — que, para quem não sabe, é o café da manhã reforçado servido aos pantaneiros.
Mato Grosso pode ter ficado órfão de sua irreverência inteligente, de sua fina ironia, de sua polêmica sutil e, sobretudo, de sua eficaz competência. Jamais, porém, de seu admirável exemplo, refletido na excelência do conteúdo de suas obras jornalísticas e literárias.
Sem sombra de dúvidas, um domingo de indigesto Quebra-Torto.
Roberto Nunes, ex-deputado estadual, publicado na seção de opinião do Diário de Cuiaba




