VOZES INDÍGENAS QUEREM ALDEAR A POLÍTICA NO MATO GROSSO DO SUL

Por João Guató 

No meio do ruído permanente da política brasileira, às vezes surge uma voz que lembra algo quase esquecido: política também pode nascer da terra, da memória e da luta. Recebi neste domingo uma mensagem do professor Anísio Guató, indígena, militante histórico do PSOL, anunciando sua disposição de disputar as prévias internas do partido para a pré-candidatura ao Senado em Mato Grosso do Sul nas eleições de 2026.


Não é pouca coisa. Em um país onde os povos originários ainda lutam para garantir o óbvio, terra, dignidade e respeito, a ideia de “autodemarcar territórios” e aldear a política soa quase como um manifesto. A proposta, segundo Anísio, é levar para dentro da disputa partidária as vozes indígenas que historicamente ficaram do lado de fora das decisões. Não como figurantes em campanhas eleitorais, mas como protagonistas de um projeto político que nasce dos territórios e da experiência concreta de quem vive a luta pela terra.


Filiado ao PSOL desde 2005, Anísio Guató se apresenta como militante que ajudou a construir o partido nas bases. Agora quer que essa história seja ouvida nas prévias internas do PSOL em Mato Grosso do Sul. Para ele, a disputa é necessária justamente para que os diferentes pré-candidatos apresentem suas trajetórias, seus lugares de fala e pertencimento.


Do outro lado dessa possível disputa aparece o nome de Jonas Carlos da Conceição, conhecido por vários apelidos da política militante: Jonas Beto, Beto Sem Terra ou Joninhas do Dagô. Segundo o relato enviado por Anísio, Jonas teria passagem por movimentos sociais como o MST e atualmente atuaria no MPL no estado. Há também menção de que até 2023 ele constava como secretário parlamentar do deputado federal Dagoberto, figura ligada ao PSDB e anteriormente ao PDT. Um currículo curioso, daqueles que fariam qualquer cientista político coçar a cabeça tentando entender o itinerário ideológico.


Daí a insistência nas prévias. Para Anísio Guató, o processo interno deve permitir que cada pré-candidato explique quem é, de onde vem e qual trajetória real possui na luta social. Política, nesse caso, não seria apenas disputa de votos, mas também de histórias.


O professor também afirma confiar que a direção estadual do partido, presidida por Lucien Resende, permitirá um debate aberto dentro do PSOL sul-mato-grossense. A expectativa é que a direção executiva amplie a discussão com diretórios municipais, militantes e apoiadores, evitando que o processo se transforme apenas em mais um arranjo de cúpula.


Num país acostumado a campanhas milionárias e cabos eleitorais pagos “a peso de ouro”, como ironiza o próprio texto enviado por Anísio, a proposta soa quase ingênua. Ou talvez radical demais para os padrões atuais: ouvir a base, ouvir os territórios, ouvir quem luta.


Ideias simples costumam parecer revolucionárias quando a política esquece sua própria origem.


Se as prévias realmente acontecerem, o PSOL de Mato Grosso do Sul terá diante de si um teste interessante: decidir se a política continuará sendo um jogo de nomes ou se pode, ao menos uma vez, ser também um território de pertencimento.


Fonte: mensagem e texto público do professor Anísio Guató, pré-candidato ao Senado pelo PSOL-MS, divulgados em Corumbá (MS) em 8 de março e publicados em seu perfil no Facebook.