MACHISMO, PODER E SANGUE: O FEMINICÍDIO VIRA PALANQUE EM MATO GROSSO


Por João Guató 


Mato Grosso entra na temporada eleitoral de 2026 carregando um currículo que ninguém deveria exibir. Não é sobre safra recorde, nem sobre crescimento econômico. É sobre mulheres mortas dentro de casa, filhos órfãos e uma estrutura social que ainda trata violência doméstica como “problema de casal” até virar manchete policial.

O tema deixou de ser rodapé e virou centro de debate político. Não por iluminação moral repentina da classe dirigente, mas porque os números ficaram indecentes demais para ignorar. Quando a realidade começa a gritar mais alto que o marketing, até discurso muda de tom.

Em 2024, foram 47 feminicídios, a maior taxa proporcional do Brasil: 2,5 mortes para cada 100 mil habitantes. Traduzindo: Mato Grosso lidera um ranking que ninguém quer ganhar, mas parece disputar com uma regularidade constrangedora.

E os detalhes não aliviam nada. Pelo contrário, pioram.

83% dos assassinatos aconteceram dentro da casa da vítima.
A casa, esse lugar vendido como refúgio, virou cenário recorrente de morte.

41 das 47 mulheres eram mães.
Resultado: 89 filhos órfãos.

9 mulheres foram mortas na frente dos próprios filhos.

A maioria tinha entre 18 e 39 anos. Jovens o suficiente para ter futuro. Velhas o bastante para já viver com medo.

Até julho de 2025, 30 novos casos já tinham sido registrados. Não é tendência. É continuidade. Uma rotina macabra com calendário próprio.

E enquanto isso, a política observa. Agora resolveu falar. Não por empatia. Por conveniência eleitoral. Porque ignorar ficou feio demais até para quem já se acostumou a ignorar muita coisa.


UM PROBLEMA LOCAL QUE É, NA VERDADE, NACIONAL

Os dados mais recentes escancaram que Mato Grosso não é exceção. É parte de um padrão brasileiro que se repete com uma fidelidade assustadora.

No país, uma em cada três mulheres já sofreu violência doméstica ou familiar.
E 20% sofreram algum tipo de violência apenas nos últimos 12 meses.

Ou seja, não é evento isolado. É sistema funcionando exatamente como foi moldado para funcionar.

A primeira agressão, muitas vezes, acontece cedo. Ainda na juventude. Como se fosse uma iniciação informal ao que o silêncio social permite.


MATO GROSSO: FREQUÊNCIA, INTENSIDADE E ROTINA

Se o Brasil já preocupa, Mato Grosso acelera.

Em 2026, um dado resume bem o cenário:
9 casos de violência contra a mulher em apenas 7 horas.

Sete horas. Um plantão. Uma madrugada comum.

As ocorrências envolveram violência física, psicológica, patrimonial e até tentativa de feminicídio. Espalhadas por diferentes cidades. Sem exceção geográfica, sem surpresa institucional.

E claro, o padrão se mantém:

  • 4 casos cometidos por companheiros atuais

  • 4 por ex-companheiros

  • 1 por familiar

O agressor, quase sempre, tem nome, endereço e vínculo afetivo.

Até março de 2026, já eram 3.750 pedidos de medidas protetivas no estado.
O número mostra duas coisas ao mesmo tempo: que as mulheres estão buscando ajuda… e que continuam precisando pedir socorro em massa.


O PADRÃO QUE TODO MUNDO CONHECE (E CONTINUA IGNORANDO)

Os relatórios oficiais desenham um roteiro repetido à exaustão:

A violência começa antes.
Escala aos poucos.
É naturalizada.
É silenciada.
E termina, muitas vezes, em morte.

Em Mato Grosso, 38% das vítimas já tinham sofrido agressões anteriores.
Mas só 17% haviam denunciado.

E proteção efetiva? Quase inexistente.

O sistema reage tarde. Quando reage.


PERCEPÇÃO FEMININA: O MEDO NÃO É EXAGERO

A pesquisa do DataSenado em 2024 confirma o óbvio que muita gente ainda tenta relativizar:

  • A sensação de insegurança entre mulheres de Mato Grosso é alta

  • Os relatos de violência ao longo da vida são frequentes

  • E novamente: 20% sofreram violência no último ano

Não é percepção distorcida. É diagnóstico.

ENTRE O DISCURSO E A REALIDADE

Na campanha de 2026, o tema virou prioridade. Está nos debates, nos palanques, nos discursos ensaiados.

Frases fortes. Promessas firmes. Compromissos públicos.

Mas no chão da realidade, os dados continuam correndo mais rápido que as soluções.

Porque enfrentar violência contra a mulher exige mais do que indignação performática. Exige estrutura, investimento, prevenção, proteção real e, sobretudo, vontade política que sobreviva depois da eleição.

E isso, convenhamos, costuma desaparecer junto com os santinhos.

Mato Grosso chega a 2026 com uma verdade difícil de disfarçar:

A violência contra a mulher não é um desvio do sistema.
É parte dele.

E agora que virou tema de campanha, resta descobrir se vai virar solução…
ou só mais um discurso bonito tentando cobrir estatísticas que não param de crescer.

O CASO PIVETTA: QUANDO O DISCURSO ENCONTRA O HISTÓRICO



No meio desse cenário, o nome do governador Otaviano Pivetta volta à superfície como um daqueles assuntos que muita gente preferia deixar quieto.

Julho de 2021. Itapema, Santa Catarina.

Prisão em flagrante após denúncia da esposa, Viviane Kawamoto, por agressões físicas.

O episódio nunca morreu completamente. Mas agora ganhou nova vida porque a própria vítima relatou novas agressões. E, claro, o assunto entrou no cardápio político.

Eventos, protestos, discursos. O caso virou símbolo.

Não por acaso. Política adora símbolo, principalmente quando ele já vem pronto e carregado de contradição.

De um lado, o poder institucional.

Do outro, a narrativa de violência doméstica que espelha o que acontece em centenas de casas anônimas.

Fica difícil sustentar discurso de combate ao feminicídio quando o passado pessoal cobra explicações no presente.

Mas a política brasileira nunca teve muita dificuldade com esse tipo de incoerência.

TRÊS HISTÓRIAS QUE NÃO CABEM EM DISCURSO

Os números da violência contra a mulher em Mato Grosso são brutais, mas as histórias são piores. Porque não permitem abstração.

No município de Jaciara, 2024.

Gleiciane de Souza foi espancada, arrastada para a rua, baleada e teve o corpo incendiado pelo marido.

Os filhos, de 8 e 9 anos, assistiram.

Isso não é estatística. É trauma vitalício.

Em Peixoto de Azevedo, 2024.

Leidiane Ferro da Silva foi morta a facadas na cozinha, enquanto servia comida.

Filho e enteada presentes.

A rotina interrompida pelo tipo mais banal de horror: o doméstico.

Oito casos de feminicídio seguidos de suicídio no mesmo ano.

O agressor mata e depois se mata.

O resultado não é só uma morte. É uma família inteira implodida em silêncio.

O PADRÃO QUE TODO MUNDO CONHECE E FINGE SURPRESA


Os relatórios oficiais de violência contra as mulheres desenham um roteiro repetitivo:

A violência começa antes.

38% das vítimas já tinham sofrido agressões anteriores.

O agressor quase sempre é conhecido.

Parceiro ou ex-parceiro. Ciúmes, controle, posse.

A vítima raramente denuncia.

Apenas 17% tinham registrado ocorrência.

E proteção efetiva?

Praticamente inexistente.

Só uma mulher entre as 47 tinha medida protetiva ativa.

O sistema funciona… até o momento em que falha completamente.

MACHISMO ESTRUTURAL: A DESCULPA QUE VIROU DIAGNÓSTICO



Chamam de machismo estrutural. O termo é elegante, acadêmico, quase confortável. Mas significa que não tem politica pública de proteção as mulheres. Os governos de extrema direita da agropolitica não criaram políticas públicas de proteção as mulheres.

Mas na prática significa o seguinte:

A gauchada que governa o estado tem uma cultura que normaliza controle, silencia denúncia e relativiza agressão as mulheres até o ponto em que o crime já aconteceu.

No interior de Mato Grosso, o problema se agrava. Menos acesso a serviços de proteção as mulheres, menos rede de proteção, mais isolamento.

A equação é simples. E previsível.

Mesmo assim, segue sendo tratada como surpresa estatística anual.

2026: DEBATE OU ENCENAÇÃO?

A violência contra a mulher em Mato Grosso no governo Mauro Mendes e Otaviano Pivetta virou tema central da eleição deste ano. Finalmente.

Agora vem a parte interessante: ver quem realmente pretende enfrentar o problema e quem só vai usar os números como trilha sonora de campanha. É necessário que político que relativiza a violência as mulheres seja banidos da vida publica.

Porque combater feminicídio exige mais do que discurso emocionado e hashtag bem escolhida.

Exige política pública que funcione.

Proteção que chegue antes da morte.

E coragem para mexer em estruturas que, convenhamos, sustentam muita gente no poder.

O problema é que isso dá trabalho. E não rende voto imediato como uma boa indignação televisionada.

No fim, Mato Grosso entra em 2026 com duas certezas desconfortáveis:

A primeira é que o feminicídio não é exceção. É padrão.

A segunda é que a política só resolveu olhar para isso quando ficou impossível fingir que não via.

Demorou. E o preço foi pago em vidas.

Como sempre.