Por João Guató
Existe um momento curioso na política em que as palavras deixam de ser apenas palavras e passam a vestir o governante. Como um paletó bem cortado, elas escondem imperfeições, alongam silhuetas e sugerem elegâncias que a vida cotidiana nem sempre confirma. Cada governo possui seu próprio vocabulário. Uns administram pelo medo. Outros pela promessa. Há os que preferem o silêncio. Otaviano Pivetta parece ter escolhido governar pelas palavras da continuidade.
Seu discurso não nasce do improviso. Há nele uma arquitetura discreta. "Parceria", "municípios", "resultados", "lucro social", "coragem", "dedicação". Não são termos espalhados ao acaso. Formam uma espécie de rosário administrativo que ele repete em entrevistas, solenidades e encontros públicos. Como quem acredita que uma ideia só cria raízes depois de muitas estações.
Chama atenção a insistência em aproximar o governo dos municípios. Não fala de um Estado distante, sentado em gabinetes revestidos de mármore. Prefere desenhar um governo que desce a estrada de chão, entra na prefeitura, aperta mãos calejadas e promete dividir responsabilidades. É um municipalismo que se apresenta menos como teoria e mais como narrativa. O poder, nessa construção, procura abandonar a imponência para vestir roupas de parceiro.
Há também um detalhe quase invisível para quem escuta depressa. Pivetta importa para a política uma linguagem que nasceu nas empresas. Fala em "lucro social" como quem tenta convencer que uma administração pública também pode produzir dividendos, não em dinheiro, mas em escolas, hospitais, estradas e qualidade de vida. A metáfora empresarial desloca a lógica da contabilidade para dentro do serviço público. É uma tentativa de traduzir eficiência em linguagem acessível.
No entanto, nenhuma palavra vive sozinha. Toda palavra carrega uma dívida com a realidade. "Resultado" exige números. "Parceria" exige reciprocidade. "Coragem" cobra decisões difíceis. "Franqueza" não combina com meias verdades. A política talvez seja o único ofício em que o dicionário precisa prestar contas diariamente.
Curiosamente, o governador alterna o tecnicismo com a conversa de varanda. Depois de falar em metas e gestão, surge a expressão espontânea, quase doméstica: "eu estava do lado do cara certo". Nesse instante, o gestor cede lugar ao homem comum. A formalidade recua alguns passos para permitir que entre a oralidade brasileira, onde a política deixa de parecer um tratado e volta a ser uma conversa entre conhecidos.
Também não passa despercebida a presença discreta da religiosidade. Deus aparece sem ocupar o centro do palco. Surge como testemunha moral, não como bandeira ideológica. A coragem vem do povo e de Deus. A devoção acompanha a dedicação. É uma linguagem que conversa com a cultura popular sem transformar a fé em programa de governo.
Talvez seja essa a principal característica do novo discurso estadual: ele tenta construir uma ponte entre duas margens que raramente caminham juntas. De um lado, o empresário acostumado a medir eficiência por indicadores. Do outro, o político que precisa falar ao coração das cidades pequenas, onde ainda se acredita mais na palavra empenhada do que nas planilhas.
Mas a história ensina que governos não são lembrados apenas pelas palavras que escolheram repetir. São lembrados pelas palavras que sobreviveram aos fatos. O tempo costuma fazer uma seleção severa. Descarta slogans, arquiva discursos e preserva somente aquilo que encontrou abrigo na vida concreta das pessoas.
No fim, governar talvez seja exatamente isso: disputar com o tempo o significado das próprias palavras. Porque elas podem inaugurar pontes, justificar estradas, inspirar esperança ou apenas ecoar pelos corredores do poder como vozes educadas que esqueceram de sair para caminhar entre o povo.
E é justamente aí que mora a maior ironia da política: as palavras são sempre as primeiras a tomar posse. As realizações, essas chegam depois. Quando chegam.
