OS MENINOS DE VÁRZEA GRANDE QUE APRENDERAM A CONTAR VOTOS

Os Irmãos que Aprenderam a Contar Votos

Por João Guató 

A política de Mato Grosso é feita de ciclos. Governadores surgem, prefeitos desaparecem, partidos trocam de nome, de discurso e até de ideologia. Mas, entre tantas mudanças, poucos personagens atravessaram tantas décadas com a mesma capacidade de influência quanto Júlio José de Campos e Jaime Veríssimo de Campos. Filhos de Várzea Grande, eles aprenderam cedo uma das principais lições da política mato-grossense: voto nunca foi apenas um número depositado na urna. É também território, pertencimento, relações familiares, memória coletiva e construção paciente de poder.

A ascensão dos irmãos coincidiu com um dos momentos mais importantes da história política brasileira. Em 1982, o país vivia os primeiros passos da abertura democrática e Mato Grosso realizava sua primeira eleição para governador após anos de restrições impostas pelo regime militar. A disputa colocou frente a frente Júlio Campos, então candidato do PDS, partido herdeiro da sustentação política do governo militar, e o padre Raimundo Pombo, representante do PMDB, legenda que concentrava boa parte das forças de oposição.

O resultado oficial apontou a vitória de Júlio com aproximadamente 53% dos votos. O desfecho, entretanto, esteve longe de encerrar a disputa. O PMDB contestou o resultado, denunciando supostas irregularidades e pedindo a anulação do pleito. Relatórios do Serviço Nacional de Informações (SNI) registraram um ambiente de forte polarização, marcado por acusações de corrupção eleitoral, denúncias de fraude e episódios de violência política. A eleição de 1982 tornou-se um dos capítulos mais tensos da história recente do estado, refletindo não apenas a disputa entre dois candidatos, mas o choque entre diferentes projetos de poder em um Brasil que buscava reencontrar o caminho da democracia.

Enquanto Júlio projetava seu nome para todo o estado, Jaime consolidava sua liderança política em Várzea Grande. Naquele mesmo ano, venceu a disputa pela prefeitura do município contra o advogado Celso Quintela. Poucos meses depois, o assassinato de Quintela mergulharia a política local em um clima de comoção e tensão, alimentando rivalidades que permaneceriam por muitos anos na memória coletiva da cidade. O episódio ajudou a transformar Várzea Grande em um dos cenários mais intensos da disputa política mato-grossense durante as décadas seguintes.

Foi a partir daquele período que os irmãos deixaram de ser apenas políticos em ascensão para se tornarem peças permanentes do tabuleiro estadual. Júlio governou Mato Grosso entre 1983 e 1987, acumulou mandatos na Câmara dos Deputados e, posteriormente, chegou ao Tribunal de Contas do Estado. Jaime construiu trajetória semelhante, passando pela prefeitura de Várzea Grande, pelo Senado Federal e pela condição de uma das lideranças mais influentes do antigo DEM e do atual União Brasil.

Ao longo dos anos, os adversários mudaram de nome, de partido e de estratégia. O antigo PMDB transformou-se em MDB; surgiram lideranças como Alexandre César, Antero Paes de Barros, Blairo Maggi, Pedro Taques, Mauro Mendes e Emanuel Pinheiro. Cada geração apresentou seus próprios protagonistas e seus próprios discursos de renovação. Ainda assim, os Campos permaneceram presentes, seja ocupando cargos públicos, seja influenciando decisões, alianças e articulações nos bastidores.

A longevidade política da família não pode ser explicada apenas por vitórias eleitorais. Ela está ligada à capacidade de adaptação às mudanças do cenário estadual e à manutenção de uma base política construída ao longo de décadas, especialmente em Várzea Grande. Enquanto muitos líderes desapareceram após uma derrota ou uma mudança de conjuntura, os irmãos demonstraram uma rara habilidade de permanecer relevantes mesmo quando não estavam no centro do poder.

Talvez por isso a trajetória de Júlio e Jaime Campos se confunda com a própria história política contemporânea de Mato Grosso. Eles testemunharam a redemocratização, enfrentaram diferentes adversários, sobreviveram a transformações partidárias e atravessaram sucessivas gerações de eleitores. Como o rio que corta a Baixada Cuiabana, a política seguiu seu curso, mudou de margens e encontrou novos caminhos. Mas, em muitos momentos, acabou voltando ao mesmo leito.

As Urnas que Nunca Esquecem



Toda urna guarda histórias. Algumas guardam vitórias; outras, derrotas. Mas existem aquelas que guardam cicatrizes. E poucas cicatrizes são tão profundas na memória política de Mato Grosso quanto a eleição de 1982, um marco que ajudou a moldar a trajetória dos irmãos Campos e a própria reorganização do poder no estado após o período mais duro do regime militar.

Naquele ano, o Brasil ainda ensaiava os primeiros passos da redemocratização. Em Mato Grosso, a disputa pelo governo transformou-se num embate que extrapolou as urnas. De um lado estava Júlio Campos, candidato do PDS; do outro, Raimundo Pombo, representando o PMDB que ganhava força em todo o país. Relatórios do Serviço Nacional de Informações (SNI) registraram um ambiente de forte polarização, marcado por acusações de corrupção eleitoral, denúncias de irregularidades e episódios de violência política que ampliaram a tensão entre os grupos adversários. A vitória de Júlio foi contestada, mas acabou confirmada pelas autoridades eleitorais. Ao assumir o Palácio Paiaguás, ele inaugurou um ciclo político que influenciaria a década seguinte e consolidaria a família Campos como uma das principais referências de poder em Mato Grosso.

O que parecia ser apenas uma vitória eleitoral transformou-se, na prática, na construção de uma base política duradoura. Enquanto Júlio ocupava o centro do cenário estadual, Jaime Campos fortalecia sua liderança em Várzea Grande, transformando o município em um dos principais redutos eleitorais da família. A partir dali, os Campos deixaram de ser apenas vencedores de eleições específicas para se tornarem protagonistas permanentes do jogo político mato-grossense.

As décadas de 1990 e 2000 confirmariam essa capacidade de permanência. Jaime alcançou o Senado Federal em 2006 com aproximadamente 780 mil votos, derrotando adversários de peso, entre eles Antero Paes de Barros. A vitória demonstrava que sua influência já ultrapassava os limites da Baixada Cuiabana e alcançava diferentes regiões do estado. Quatro anos depois, porém, a maré política mudou. Em 2010, Jaime tentou a reeleição, mas encontrou pela frente Pedro Taques, então símbolo de um discurso de renovação que ganhava força entre os eleitores cansados dos grupos tradicionais. A derrota mostrou que nenhum capital político é imune às transformações do tempo.

Júlio Campos seguiu trajetória semelhante. Entre avanços e recuos, retornou à Câmara dos Deputados em diferentes momentos, consolidando votações expressivas especialmente em Várzea Grande e no Médio-Norte. Sua carreira revelou uma característica rara na política brasileira: a capacidade de sobreviver às mudanças de conjuntura sem desaparecer do cenário. Enquanto muitos líderes foram engolidos pelas sucessivas ondas de renovação, Júlio conseguiu preservar influência e relevância mesmo quando não ocupava os cargos mais importantes.

Os adversários também mudaram de rosto e de perfil. Nos anos 2000, o grupo liderado por Blairo Maggi passou a representar o principal contraponto ao campo político dos Campos, inaugurando uma nova lógica de poder associada à força econômica do agronegócio. Já na década seguinte, surgiram personagens que expressavam outras formas de liderança, como Pedro Taques, Mauro Mendes e Emanuel Pinheiro. Cada um deles, à sua maneira, disputou espaço em um tabuleiro que durante décadas teve a marca da família várzea-grandense.

Mas a política não é feita apenas de vencedores ocasionais. Ela também é construída por aqueles que permanecem relevantes quando os mandatos terminam e as campanhas acabam. Nesse aspecto, os Campos demonstraram uma notável capacidade de adaptação. Mesmo nos momentos de derrota eleitoral, continuaram influenciando alianças, participando de decisões estratégicas e ocupando espaço no imaginário político de Mato Grosso.

Talvez por isso as urnas nunca tenham esquecido os irmãos. Porque, no fim das contas, a história política raramente pertence apenas a quem vence uma eleição. Ela costuma reservar um lugar especial para aqueles que conseguem atravessar décadas, sobreviver às mudanças e permanecer presentes quando quase todos os outros já se tornaram apenas lembrança.

 O Tempo dos Patriarcas


Chega um momento na vida pública em que alguns políticos deixam de ser apenas ocupantes de cargos e passam a representar uma época. Com Júlio Campos e Jaime Campos, esse processo parece ter se completado. Depois de mais de quatro décadas atravessando eleições, crises, derrotas, vitórias e mudanças partidárias, os dois irmãos já não podem ser analisados apenas pelo mandato que exercem ou pelo cargo que ocuparam. Tornaram-se referências permanentes de uma tradição política que ajudou a moldar a história contemporânea de Mato Grosso.

Júlio, o mais velho, assumiu ao longo dos anos o papel de observador privilegiado e conselheiro informal da política estadual. Sua trajetória o transformou em uma espécie de arquivo vivo das disputas que marcaram a redemocratização e a consolidação do estado moderno. Jaime, por sua vez, preservou um perfil mais ativo, mantendo influência nas articulações partidárias e permanecendo como uma das vozes mais relevantes do União Brasil em Mato Grosso. Cada um à sua maneira continua ocupando espaço num cenário que já viu dezenas de lideranças surgirem e desaparecerem.

O tempo, porém, costuma ser o maior estrategista da política. Ele transforma adversários em aliados ocasionais, converte antigos aliados em lembranças e reescreve rivalidades que pareciam definitivas. Poucos personagens testemunharam tantas mudanças quanto os Campos. Eles atravessaram diferentes ciclos de poder e conviveram com gerações inteiras de adversários, alguns derrotados, outros vitoriosos, mas todos incorporados à narrativa política do estado.

Entre esses nomes está Raimundo Pombo, adversário histórico da eleição de 1982, uma das disputas mais marcantes da redemocratização mato-grossense. Vieram depois lideranças como Antero Paes de Barros, que protagonizou importantes confrontos eleitorais com Jaime; Blairo Maggi, cuja ascensão representou a entrada definitiva da força econômica do agronegócio no centro do poder estadual; Pedro Taques, símbolo de uma geração que prometia renovação e que interrompeu a trajetória de Jaime rumo à reeleição ao Senado em 2010; além de Mauro Mendes e Emanuel Pinheiro, protagonistas de uma nova fase política marcada por disputas metropolitanas, comunicação digital e rearranjos constantes de alianças.

Ao observar essa trajetória, percebe-se que a política de Mato Grosso mudou profundamente. Durante boa parte do século XX, o poder esteve concentrado em lideranças regionais tradicionais, muitas vezes identificadas com o velho coronelismo. Mais tarde, a expansão econômica do agronegócio trouxe empresários para o centro das decisões políticas. Hoje, a realidade é mais complexa. Os grupos políticos combinam influência territorial, presença digital, comunicação instantânea e articulação institucional. O eleitor tornou-se mais volátil, mais conectado e menos fiel aos antigos partidos.

Ainda assim, algumas estruturas resistem ao desgaste do tempo. A família Campos é uma delas. Em um país onde carreiras políticas frequentemente terminam após uma derrota eleitoral ou uma mudança de conjuntura, a permanência dos irmãos constitui um fenômeno raro. Sua longevidade não pode ser explicada apenas por vitórias nas urnas. Ela está associada à construção de redes políticas duradouras, ao vínculo histórico com Várzea Grande e à capacidade de adaptação diante das transformações do estado.

A história dos Campos também ajuda a contar a história de Mato Grosso. A gênese humilde transformou-se em trajetória pública. As disputas acirradas tornaram-se capítulos de livros, teses e memórias. As campanhas passaram, os slogans envelheceram, os partidos mudaram de nome e de bandeira. Mas os irmãos continuaram presentes, acompanhando cada mudança de cenário.

Talvez seja esse o verdadeiro significado da longevidade política. Não permanecer imune às derrotas ou às críticas, mas continuar fazendo parte da conversa pública mesmo quando o tempo já levou quase todos os contemporâneos. Júlio e Jaime já foram jovens ambiciosos disputando espaço. Hoje ocupam outro lugar: o da memória viva de Mato Grosso, uma memória que atravessa gerações e ajuda a explicar como o poder se construiu, se transformou e permaneceu ao longo das últimas décadas.

QUANDO OS CAMPOS ENCONTRARAM DANTE


A história política de Mato Grosso produziu rivalidades memoráveis, mas poucas carregam tanta densidade simbólica quanto a que envolveu os irmãos Campos e Dante de Oliveira. Não porque tenham disputado diretamente as mesmas urnas em todos os momentos, mas porque representavam projetos políticos distintos em um período decisivo da história brasileira. De um lado estavam Júlio Campos e Jaime Campos, lideranças que construíram sua força política a partir de Várzea Grande e da Baixada Cuiabana, consolidando uma estrutura de poder baseada na presença territorial, na articulação regional e na capacidade de formar alianças duradouras. Do outro estava Dante de Oliveira, o político que levaria o nome de Mato Grosso para o centro da política nacional ao se tornar o principal símbolo da campanha pelas eleições diretas para presidente da República.

A década de 1980 encontrou o Brasil em transição. O regime militar dava sinais de esgotamento, a sociedade civil voltava às ruas e os partidos políticos reaprendiam a disputar o poder em um ambiente mais democrático. Em Mato Grosso, a eleição de 1982 tornou-se um retrato perfeito daquele momento histórico. Júlio Campos, candidato do PDS, partido herdeiro da Arena, venceu a disputa para governador com 203.605 votos, o equivalente a 51,64% dos votos válidos. Seu principal adversário foi Raimundo Pombo, do PMDB, que recebeu 188.878 votos, alcançando 47,91%. A diferença de pouco mais de 14 mil votos revelou um estado dividido entre a força das estruturas políticas tradicionais e o crescimento das forças oposicionistas impulsionadas pelo processo de redemocratização.

Embora Dante de Oliveira não fosse o candidato ao governo naquela eleição, sua presença era determinante no campo político oposicionista. Naquele mesmo pleito, foi eleito deputado federal pelo PMDB, ampliando sua influência dentro e fora de Mato Grosso. Seu nome já circulava entre as lideranças que defendiam uma ruptura definitiva com os resquícios do autoritarismo. Enquanto Júlio conquistava o Palácio Paiaguás, Dante construía as bases de uma projeção nacional que poucos políticos mato-grossenses alcançariam.

Dois anos depois, o país conheceria a dimensão desse protagonismo. Em 1984, Dante apresentou a emenda constitucional que restabelecia as eleições diretas para presidente da República. A proposta não foi aprovada pelo Congresso, mas desencadeou um dos maiores movimentos populares da história brasileira. Milhões de pessoas ocuparam ruas, avenidas e praças em todo o país exigindo o direito de escolher o presidente pelo voto direto. A partir daquele momento, Dante deixou de ser apenas um deputado de Mato Grosso para se tornar um personagem central da redemocratização brasileira.

Enquanto Dante ganhava projeção nacional, os Campos aprofundavam sua influência regional. Júlio governava Mato Grosso entre 1983 e 1987, comandando um estado que passava por profundas transformações econômicas e administrativas. Jaime Campos consolidava seu poder em Várzea Grande, município que se transformaria em uma das mais importantes bases eleitorais do estado. Os irmãos construíam algo raro na política brasileira: uma estrutura de poder capaz de sobreviver às mudanças partidárias, às alternâncias de governo e às sucessivas gerações de adversários.

O contraste entre essas trajetórias tornou-se uma das características mais interessantes da política mato-grossense. Dante simbolizava a política das grandes causas nacionais. Seu discurso estava associado à democracia, à participação popular e às transformações institucionais do país. Os Campos simbolizavam a política da permanência, da construção paciente de influência e da ocupação contínua dos espaços de poder. Um representava a força da ideia. Os outros representavam a força da estrutura.

Nas décadas seguintes, essa diferença continuou moldando a percepção pública sobre seus legados. Dante seguiu ocupando cargos importantes, chegando ao governo de Mato Grosso em 1994 e novamente em 1998, quando foi reeleito. Sua trajetória demonstrava que era possível transformar capital simbólico em poder político concreto. Os Campos, por sua vez, continuavam ampliando uma presença institucional que atravessava diferentes esferas do poder. Júlio passaria pela Câmara dos Deputados e pelo Tribunal de Contas do Estado. Jaime se tornaria prefeito, senador e uma das principais lideranças partidárias de Mato Grosso.

O tempo, contudo, costuma fazer seleções curiosas. Muitos políticos vencem eleições e desaparecem da memória coletiva. Outros perdem disputas importantes, mas permanecem vivos na história. No caso dos Campos e de Dante, a posteridade decidiu preservar todos eles, mas por razões diferentes. Dante tornou-se um símbolo nacional da democracia brasileira. Seu nome passou a ser lembrado sempre que se fala nas Diretas Já e na retomada das eleições presidenciais. Os Campos tornaram-se símbolo de longevidade política, de permanência e de influência regional.

Por isso, a rivalidade entre eles jamais pode ser resumida a números eleitorais ou disputas partidárias. Ela expressa um confronto maior entre duas formas de construir poder. De um lado, a política baseada em causas capazes de mobilizar multidões. Do outro, a política construída no cotidiano das cidades, das alianças e das relações locais. Ambas deixaram marcas profundas em Mato Grosso.

Décadas depois, quando as campanhas se transformaram em fotografias amareladas e os discursos ficaram guardados nos arquivos, permanece uma certeza. Dante de Oliveira e os irmãos Campos ajudaram a escrever capítulos fundamentais da história mato-grossense. Um entrou para a memória nacional como o homem das Diretas Já. Os outros entraram para a história regional como protagonistas de uma das mais duradouras trajetórias políticas do Centro-Oeste brasileiro.

Talvez seja essa a grande ironia do tempo. Júlio e Jaime aprenderam a contar votos. Dante aprendeu a contar multidões. E a história decidiu que havia espaço para todos eles.

QUANDO O HERDEIRO DESAFIA OS PATRIARCAS

A política mato-grossense sempre foi generosa com os Campos. Durante mais de quarenta anos, Júlio Campos e Jaime Campos construíram uma das mais duradouras trajetórias de poder do Centro-Oeste brasileiro. Sobreviveram à redemocratização, atravessaram mudanças partidárias, enfrentaram adversários de diferentes gerações e assistiram à ascensão e queda de inúmeros líderes que, em determinado momento, pareciam destinados a ocupar definitivamente o centro do palco político. Enquanto muitos se tornaram apenas capítulos de uma história maior, os irmãos permaneceram como personagens permanentes do enredo.

Mas toda construção política carrega uma contradição inevitável. O mesmo grupo que ajuda a erguer novas lideranças pode, mais tarde, vê-las disputar o espaço que antes parecia intocável. A política raramente recompensa a gratidão. Seu combustível é a ambição. E é justamente dessa lógica que nasce o conflito que hoje se desenha entre os irmãos Campos e o ex-governador Mauro Mendes.

A ascensão de Mauro não ocorreu fora do universo político construído pelas forças conservadoras de Mato Grosso. Ao contrário. Sua trajetória ganhou impulso dentro de um ambiente político no qual os Campos exerciam enorme influência. Em diferentes momentos, houve convergência de interesses, alianças eleitorais e apoio mútuo. O empresário que chegou à política como novidade transformou-se em prefeito de Cuiabá, consolidou-se como governador e, aos poucos, deixou de ser apenas mais uma liderança do grupo para se tornar uma força política com identidade própria.

É exatamente nesse ponto que reside a tensão atual.

Os Campos construíram sua influência numa época em que a política era organizada em torno de lideranças regionais, relações pessoais e fidelidade entre grupos. Mauro Mendes representa outra lógica. Embora também seja um político tradicional em muitos aspectos, sua força deriva da gestão, da comunicação moderna, da máquina administrativa e da capacidade de articular um projeto próprio de poder. Ele não depende politicamente dos Campos da mesma forma que gerações anteriores dependeram.

O que está em curso, portanto, não é uma simples divergência sobre candidaturas para 2026. Trata-se de uma disputa sobre quem comandará a sucessão dentro do mesmo campo político. De um lado está Jayme Campos, que considera natural disputar o Governo do Estado após décadas de protagonismo. Do outro está Mauro Mendes, que busca manter influência decisiva sobre a formação da chapa majoritária e sobre os rumos do grupo que ajudou a consolidar ao longo de seus dois mandatos como governador.

As declarações recentes mostram que o desgaste ultrapassou os limites da diplomacia partidária. Júlio Campos passou a criticar publicamente a postura de Mauro Mendes e chegou a sugerir que o governador estaria atuando para inviabilizar projetos políticos do próprio grupo ao qual pertence. Em entrevistas, também deixou claro que o União Brasil não pertence a uma única liderança e que o partido possui outras forças capazes de reagir a eventuais tentativas de imposição política.

Por trás das declarações existe algo muito mais profundo do que um desacordo eleitoral. Existe um choque de gerações políticas.

Os Campos pertencem a uma época em que o poder era construído lentamente, eleição após eleição, município por município. Mauro Mendes emerge de uma fase em que a popularidade administrativa, o controle de narrativas e a força institucional passaram a ter peso semelhante ao das estruturas partidárias tradicionais. São dois modelos diferentes de construção de liderança disputando espaço dentro da mesma trincheira.

Talvez a maior ironia dessa história seja justamente o fato de que a ameaça ao legado dos Campos não venha de seus adversários históricos. Não veio do antigo PMDB de Raimundo Pombo. Não veio do grupo de Blairo Maggi. Não veio de Pedro Taques, que derrotou Jayme em 2010. Tampouco veio das sucessivas ondas de renovação política que atravessaram Mato Grosso nas últimas décadas.

Ela surge de dentro do próprio campo político que os irmãos ajudaram a fortalecer.

A história brasileira está repleta de episódios semelhantes. Em algum momento, toda liderança consolidada encontra alguém que aprendeu suas lições, compreendeu seus métodos e decidiu trilhar o próprio caminho. O discípulo deixa de pedir licença. O aliado deixa de seguir orientações. O herdeiro passa a reivindicar a herança inteira.

É cedo para afirmar quem vencerá essa disputa. Mauro Mendes continua sendo uma das figuras mais fortes da política estadual. Os Campos, por sua vez, acumulam um patrimônio político construído ao longo de mais de quatro décadas e mantêm influência significativa em Várzea Grande, na Baixada Cuiabana e em setores importantes do União Brasil.

Mas uma coisa parece evidente.

Pela primeira vez em muitos anos, o debate sobre o futuro político de Mato Grosso não gira apenas em torno da permanência dos Campos. Gira em torno da possibilidade de que um novo centro de poder esteja surgindo justamente no espaço que eles ajudaram a construir.

E essa talvez seja a mais dura das disputas políticas. Não aquela travada contra adversários declarados, mas a que ocorre quando o tempo decide cobrar o preço inevitável da sucessão. Afinal, nenhum legado é verdadeiramente testado quando todos o respeitam. O teste real acontece quando alguém aparece disposto a substituí-lo.