A POÉTICA DO INACABADO: O NASCIMENTO DE UMA MITOLOGIA INTERIOR

 

Por João Guató 

Há um preconceito silencioso na história da arte: imaginar que o giz de cera pertence apenas à infância. Essa série desmonta essa ilusão. Ao escolher deliberadamente um material associado ao primeiro gesto humano sobre o papel, retornei à infância; retorna à origem. O giz de cera deixa de ser ferramenta escolar para tornar-se instrumento de escavação da memória.

Cada desenho funciona como uma página de um diário etnográfico. Não da etnografia que observa o outro, mas daquela que investiga a própria existência. É uma autoetnografia visual.

As figuras que apresento não possuem identidade fixa. São corpos que nascem da linha contínua, sem começo nem fim. Lembram rios vistos do alto, serpentes ancestrais, espíritos da floresta, máscaras indígenas, sementes, olhos e rostos que nunca se completam. Essa indefinição não representa dúvida. Representa pertencimento. Nas cosmologias indígenas, nada existe isoladamente. Humano, animal, planta e espírito compartilham a mesma matéria do mundo. As formas desta série parecem obedecer exatamente a essa lógica.

Minha filha de seis anos

atravessa a idade em que desenhar é uma forma de conversar com o mundo. Quase todos os dias ela me chama para sentar ao seu lado, abre o caderno, espalha os gizes de cera e me convida a participar da aventura. Enquanto ela desenha sem medo do erro, eu desaprendo, pouco a pouco, a necessidade da perfeição.

Foi assim que nasceram estas cinco obras.

Não surgiram de um projeto estético nem da intenção de reproduzir a realidade. Antes de alcançarem o papel, apareceram como imagens interiores, quase revelações. Vieram daquele espaço íntimo que muitas tradições espirituais associam ao terceiro olho, à glândula pineal, lugar simbólico da intuição, da imaginação e da consciência expandida. Os rabiscos não foram planejados; emergiram do encontro silencioso entre minha mão e meu próprio interior.

O giz de cera tornou-se mais do que um instrumento infantil. Transformou-se em uma ferramenta de escavação da memória.

Há desenhos que procuram representar o mundo. Outros contam histórias. Esta pequena série busca algo diferente: inventar uma mitologia pessoal. Logo se percebe que não há personagens definidos nem paisagens reconhecíveis. O que existe são organismos visuais, formas que parecem nascer antes da linguagem, quando emoção, cor e pensamento ainda pertenciam à mesma matéria.

Recuso deliberadamente a perspectiva clássica.

Não existe chão, horizonte ou profundidade. As figuras flutuam num espaço branco que funciona como silêncio. Esse vazio não representa ausência; é um território de possibilidades, onde cada linha encontra sua autonomia e cada gesto conserva sua liberdade.

Os contornos largos, desenhados em verde, preto, lilás e outras cores vibrantes, não delimitam objetos. Eles criam presenças. Um rosto transforma-se em serpente. A serpente converte-se em rio. Um olho torna-se paisagem. Nada permanece definitivo, porque a própria identidade também está em constante transformação.

Não por acaso, o olho aparece repetidamente.

Ele não cumpre função anatômica. É um símbolo. Um portal entre o visível e o invisível. Um olhar que observa o mundo, mas também retorna para dentro de quem desenha. Talvez seja justamente esse o verdadeiro protagonista desta série: não o olho físico, mas o olhar interior.

As cores obedecem menos à natureza do que à emoção.

O verde anuncia crescimento e metamorfose. O amarelo irrompe como iluminação. O azul cria profundidade espiritual. O rosa suaviza a experiência sensível. O preto delimita o mistério. Nenhuma dessas escolhas foi racional; elas surgiram intuitivamente, como se cada cor já soubesse o lugar que deveria ocupar.

Os traços do giz de cera permanecem aparentes.

Não escondem o processo. Pelo contrário, celebram-no. Cada camada preserva a memória da anterior. Nenhum risco desaparece completamente. Como acontece com a vida, nada é apagado; tudo permanece sob novas experiências.

Existe também uma repetição que atravessa as cinco obras.

As figuras mudam, mas pertencem à mesma família simbólica. São diferentes manifestações de uma única narrativa. Talvez sejam autorretratos sem rosto. Talvez sejam fragmentos de sonhos. Talvez representem aquilo que ainda não encontrou palavras suficientes para existir.

A última composição sintetiza essa busca. Um corpo escuro abriga um grande olho azul enquanto seu interior explode em linhas multicoloridas. É uma imagem daquilo que somos: uma aparência que contém universos invisíveis.

Ao desenhar ao lado da minha filha, compreendi que a arte não nasce apenas do domínio técnico. Ela nasce, sobretudo, da capacidade de permanecer disponível ao espanto. As crianças sabem disso naturalmente. Os adultos passam boa parte da vida tentando reaprender.

Essas cinco obras não pretendem oferecer respostas. São uma cartografia do invisível, uma etnografia do próprio espírito, construída com o material mais simples que existe: o giz de cera.

Talvez alguém pergunte o que esses desenhos representam.

Hoje, prefiro responder que eles não representam.

Eles revelam.

E talvez a função mais antiga da arte sempre tenha sido exatamente essa: tornar visível aquilo que, até então, existia apenas no silêncio da imaginação.


QUANDO O GIZ DE CERA APRENDE A SONHAR




Outro dia minha filha me entregou um punhado de giz de cera como quem entrega sementes. Não pediu um desenho. Pediu companhia. Há uma diferença enorme entre as duas coisas. Desenhar qualquer um desenha. Acompanhar uma infância exige desaprender a idade.

Foi assim que nasceu essa criatura.

Não sei dizer se ela veio da terra, da água ou da memória. Apenas sei que apareceu antes do traço, como aparecem os passarinhos na cabeça de Manoel de Barros: primeiro no silêncio, depois no mundo.

Descobri que existem imagens que não aceitam ser concluídas. Elas preferem permanecer inacabadas porque o acabamento, muitas vezes, é apenas o nome elegante que damos à morte da imaginação.

Meu giz de cera compreende isso.

Ele não cobre o papel; conversa com ele. Deixa espaços em branco para que o invisível continue respirando. O branco, aqui, não significa ausência. É o lugar onde a obra continua sendo desenhada pelo olhar de quem a contempla.

Vejo essa figura como um animal que ainda não recebeu nome. Talvez um rio que resolveu aprender a caminhar. Talvez uma serpente que desaprendeu de rastejar para descobrir a alegria de sorrir. Talvez apenas um pensamento que resolveu ganhar corpo.

Não me interessa classificá-la.

A arte começa justamente quando as palavras deixam de ser suficientes.

O verde que contorna sua existência não é uma cor. É um estado da natureza. Ele cresce como cipó, abraça a forma, protege o movimento e impede que o desenho endureça. A linha nunca aprisiona; ela acompanha o nascimento da figura, como quem respeita o ritmo de uma planta.

Dentro desse corpo vivem outras cores.

O amarelo ilumina sem explicar. O vermelho pulsa como sangue da imaginação. O azul sopra um vento que ninguém vê. Tudo acontece ao mesmo tempo, como acontece dentro de uma árvore: por fora parece imóvel; por dentro, a seiva nunca para de viajar.

Há apenas um olho.

Mas basta um.

Não é um olho para enxergar o mundo. É um olho para lembrar que o mundo também nos observa. Enquanto eu desenhava, tive a impressão de que não era eu quem criava a figura. Era ela quem lentamente desenhava uma parte de mim que ainda permanecia escondida.

Foi então que compreendi o sentido daquilo que chamo de Poética do Inacabado.

O inacabado não é falta.

É possibilidade.

É a recusa em transformar a arte numa resposta definitiva. A obra permanece aberta porque também permanece vivo o artista. Cada desenho aceita novas leituras, novos afetos, novas memórias. Como os rios, nunca passa duas vezes pelo mesmo olhar.

Talvez por isso eu tenha escolhido o giz de cera.

Ele conserva a infância da matéria.

Enquanto o pincel busca elegância, o giz aceita tropeços. Enquanto a tinta procura esconder suas marcas, o giz faz delas sua própria linguagem. Cada atrito fica registrado. Cada hesitação permanece. Cada erro floresce.

Essa figura sorridente me ensinou algo que passei muitos anos procurando nos livros.

A beleza não mora naquilo que termina.

Ela mora justamente naquilo que continua acontecendo.

Por isso minhas obras não pretendem representar a realidade. Elas procuram revelar um território onde memória, sonho, infância e ancestralidade deixam de ser coisas separadas para formar uma única paisagem interior.

No fim, percebo que não fui eu quem desenhou essa criatura.

Foi a infância, que ainda resiste em mim, segurando um pedaço de giz de cera e insistindo em lembrar que Deus talvez tenha criado o mundo exatamente assim: sem régua, sem acabamento e com a delicadeza de quem sabe que toda obra verdadeiramente viva precisa permanecer eternamente inacabada.


A MINHOCA MALUCA E O NASCIMENTO DO OLHAR



Enquanto minha filha desenhava o mundo como quem brinca com o tempo, eu descobria que havia uma criatura esperando há muitos anos para nascer dentro de mim.

Chamei-a de Minhoca Maluca.

Não porque ela fosse uma minhoca. Nem porque fosse maluca. Mas porque toda obra que nasce da imaginação precisa escapar da obrigação de fazer sentido. O nome é apenas a primeira liberdade que concedemos às coisas.

Antes do primeiro traço, essa figura já existia. Não na folha, mas naquele território invisível onde as imagens esperam que alguém lhes empreste uma mão. Fechei os olhos e ela apareceu inteira. Quando o giz tocou o papel, compreendi que eu não desenhava uma criatura; registrava uma lembrança que nunca havia vivido.

A Poética do Inacabado nasce exatamente nesse instante.

Ela recusa a arte como representação e a transforma em acontecimento. Nada aqui pretende copiar a natureza. Ao contrário, é a própria natureza da imaginação que se revela. Cada curva permanece aberta para continuar crescendo. Cada linha aceita transformar-se em outra coisa.

O corpo da Minhoca Maluca é feito de metamorfoses.

A espiral rosa lembra a água que aprende a girar para descobrir sua própria profundidade. O azul repousa no centro como um lago de silêncio. O verde sobe pelas laterais feito cipó, insistindo que a vida nunca caminha em linha reta. O laranja atravessa a composição como um caminho que ainda está sendo inventado.

No alto da figura nasce um único olho.

Ele não domina o desenho.

Ele o inaugura.

Esse olho não observa o mundo exterior. Ele olha para dentro. É um símbolo da consciência que desperta, do terceiro olhar que abandona a superfície das coisas para enxergar aquilo que ainda não possui forma definitiva. Não é um órgão do corpo. É um órgão da imaginação.

As massas negras que envolvem a composição não funcionam como sombras.

São o desconhecido.

Toda criação nasce cercada por aquilo que ainda não compreendemos. O preto não ameaça. Ele protege. É o ventre onde a forma encontra coragem para existir. Como na noite, é justamente a escuridão que permite perceber a primeira luz.

Ao escolher o giz de cera, escolhi também uma ética.

O giz não aceita vaidade. Ele preserva a textura do gesto, a imperfeição da mão, a sinceridade do atrito. Cada camada permanece visível como acontece com nossas memórias. Nada desaparece completamente. Tudo continua respirando sob aquilo que veio depois.

Percebo, então, que a Minhoca Maluca é também um autorretrato.

Não um retrato do meu rosto, mas das minhas transformações. Carrego em mim essa espiral que nunca termina de crescer, esse olho que insiste em procurar o invisível e essa convivência permanente entre luz e sombra. Talvez toda obra seja isso: uma tentativa de desenhar aquilo que ainda estamos nos tornando.

Minha filha acreditava que estávamos apenas brincando.

Talvez estivéssemos.

Mas a brincadeira é uma das formas mais antigas de conhecimento. As crianças não desenham para explicar o mundo. Desenham para ampliá-lo. Foi ao lado dela que compreendi que a verdadeira criação não nasce do controle, mas da confiança.

A Minhoca Maluca não é um personagem.

É uma filosofia desenhada com giz de cera.

Ela nos lembra que a arte mais viva é aquela que permanece inacabada, porque só o que continua inacabado conserva a possibilidade de crescer. Assim como a infância, a imaginação e a própria existência, ela nunca chega ao fim.

Ela apenas muda de forma, enquanto continua desenhando, silenciosamente, aquele território onde o olhar encontra a liberdade antes mesmo de encontrar um nome.

TRÊS OLHOS PARA VER O INVISÍVEL


Enquanto desenhava esta obra, percebi que nem todo olhar pertence ao rosto. Existem olhos que crescem no pensamento, olhos que habitam a memória e olhos que aparecem apenas quando a imaginação decide abandonar a lógica.

Esta imagem nasceu exatamente desse abandono.

Não procurei desenhar pessoas. Procurei desenhar estados da consciência. Cada figura surgiu lentamente, como quem atravessa uma névoa. Antes do giz tocar o papel, elas já caminhavam dentro de mim, silenciosas, esperando apenas o instante de se revelarem.

Na Poética do Inacabado, o desenho nunca representa um objeto.

Ele registra uma experiência.

As três formas verticais não são personagens independentes. São três manifestações do mesmo ser. Três tempos da existência. Três maneiras de olhar a realidade.

O primeiro olhar, tingido de rosa, ainda pertence ao encantamento. É o olhar da infância, aquele que contempla o mundo antes de aprender seus nomes. Ele não distingue o possível do impossível porque ainda sabe que ambos pertencem à mesma paisagem.

O segundo, marcado pelo laranja intenso, representa a travessia. Seu olho escuro parece mergulhar para dentro de si mesmo. É o instante em que o ser humano descobre que a maior viagem não acontece sobre a terra, mas dentro da própria consciência.

O terceiro olhar, revestido de marrom profundo e iluminado por uma pupila amarela, alcança outra dimensão. Já não procura respostas. Aprendeu que a luz não elimina a escuridão; nasce justamente dela. É a maturidade de quem compreende que conhecer também significa aceitar o mistério.

Ao lado dessas figuras, um feixe de cores irrompe como um rio.

Verde, amarelo, azul, rosa e laranja não aparecem para decorar a composição. Funcionam como correntes de energia. São caminhos invisíveis que unem os diferentes estados do ser. Nada está separado. Cada cor atravessa a outra como acontece com nossas lembranças.

O fundo negro ocupa quase toda a superfície.

Na tradição ocidental, o preto costuma representar ausência. Nesta obra acontece exatamente o contrário. O negro é origem. É o ventre onde as formas repousam antes de nascer. Ele não engole a imagem; oferece-lhe profundidade. Como a noite, permite que a luz seja percebida.

Foi justamente por isso que escolhi o giz de cera.

O giz preserva o acidente, aceita a imperfeição e transforma o atrito em linguagem. Cada textura revela o movimento da mão. Cada camada conserva aquilo que veio antes. Nada é apagado completamente. A memória permanece impressa sob cada novo gesto.

Percebo, então, que esta obra também é um autorretrato.

Não um retrato do meu corpo, mas do caminho da minha imaginação. As três figuras são versões de mim que coexistem. O menino que ainda brinca com as cores. O homem que atravessa perguntas. E o artista que compreende que nenhuma resposta será definitiva.

É isso que chamo de Poética do Inacabado.

Não existe obra concluída porque também não existe identidade concluída. Somos desenhos em permanente construção. Somos linhas que continuam procurando seu destino enquanto acreditam ter chegado.

Talvez seja essa a maior lição que aprendi desenhando ao lado da minha filha.

As crianças não desenham para produzir obras-primas.

Elas desenham porque sabem, intuitivamente, que criar é uma forma de existir.

E talvez a arte, antes de ser uma técnica, seja apenas isso: a coragem de abrir um terceiro olho dentro do papel para que a alma encontre, entre um traço e outro, aquilo que a linguagem ainda não conseguiu dizer.



                      O OLHO QUE APRENDEU A SER RIO

Esta obra nasceu de um acidente feliz.

Enquanto minha filha desenhava o mundo com a naturalidade de quem ainda conversa com as nuvens, minha mão procurava outra direção. Não queria desenhar uma paisagem. Queria desenhar um movimento. Descobri, então, que há rios que não carregam água. Carregam consciência.

Foi assim que surgiu Chitão.

O nome apareceu depois. A imagem veio primeiro, como sempre acontece na minha Poética do Inacabado. As formas não obedecem à razão; elas se apresentam como pequenas revelações. O artista apenas aceita a tarefa de acompanhá-las até o papel.

À primeira vista, a composição parece simples.

Um grande corpo horizontal abriga um olho. Dele escorre uma corrente de cores que atravessa toda a superfície. Mas a simplicidade é apenas aparência. O desenho guarda uma estrutura simbólica profunda.

O olho ocupa o centro da obra como um núcleo de consciência.

Não é um olho humano. Tampouco pertence a um animal conhecido. É um olhar primordial. A íris vermelha pulsa como uma centelha vital. O contorno verde envolve esse núcleo como se a própria natureza estivesse protegendo a possibilidade de enxergar. Ao redor, o violeta cria um espaço intermediário entre matéria e espírito.

Não é um olho que vê.

É um olho que desperta.

O grande corpo marrom onde ele repousa lembra simultaneamente uma semente, uma embarcação, um peixe ancestral e um fragmento de terra. Essa ambiguidade é essencial. Na Poética do Inacabado, nenhuma forma aceita um significado definitivo. Tudo permanece em transformação.

Da figura principal nasce um rio.

Mas não é um rio de água.

É um rio de memória.

As faixas de azul, rosa, vermelho, lilás, laranja e verde descem em movimentos paralelos, como se fossem veias transportando experiências invisíveis. As cores deixam de ser pigmentos para se tornarem fluxo. A identidade, aqui, nunca permanece imóvel. Ela escorre.

O branco da folha continua respirando entre os traços.

Ele não é vazio. É silêncio. É o espaço onde a imaginação do observador completa aquilo que o desenho escolheu não concluir. É justamente essa recusa ao acabamento absoluto que sustenta toda a minha pesquisa artística. A obra permanece aberta porque a vida também permanece.

Nas laterais, linhas verticais laranja e verde funcionam como margens.

Não aprisionam o rio. Apenas lembram que toda liberdade precisa de um território para acontecer. Até o movimento necessita de um lugar onde possa nascer.

Escolhi novamente o giz de cera porque ele preserva a honestidade do gesto.

Sua textura guarda o atrito da mão contra o papel. Não existe ilusão de perfeição. Existem marcas. Existem hesitações. Existem camadas que permanecem visíveis como permanecem nossas lembranças. O giz não esconde o caminho percorrido pelo desenho. Ele faz desse caminho a própria obra.

Percebo agora que Chitão talvez seja um autorretrato.

Não do meu rosto, mas da minha maneira de existir. Também sou esse olho que procura atravessar as superfícies. Também sou esse rio onde memórias, ancestralidade, infância e imaginação correm ao mesmo tempo, sem pedir licença umas às outras.

Ao desenhar ao lado da minha filha, compreendi que as crianças ainda conhecem um segredo que os adultos frequentemente esquecem.

Elas não desenham para representar o mundo.

Elas desenham para inventá-lo.

E talvez seja exatamente essa a missão da arte: devolver ao olhar adulto a coragem de acreditar que um simples risco de giz pode conter um universo inteiro, desde que permaneça suficientemente inacabado para continuar sonhando depois que o artista já pousou a mão.


O ROSTO QUE GUARDA O UNIVERSO




Enquanto minha filha riscava o papel com a inocência de quem ainda acredita que as nuvens podem mudar de forma porque estão vivas, eu descobria outra verdade: há rostos que não pertencem a ninguém. Pertencem ao silêncio.

Foi desse silêncio que nasceu esta figura.

Ela não foi desenhada para ser reconhecida. Foi desenhada para ser atravessada.

Na minha Poética do Inacabado, o retrato deixa de representar uma identidade física para revelar uma paisagem interior. Não me interessa a anatomia. Interessa-me aquilo que existe antes do corpo receber um nome.

Por isso o rosto aparece quase inteiramente mergulhado no negro.

Mas esse negro não é ausência de luz.

É origem.

Nas cosmologias ancestrais, toda criação nasce da escuridão. A semente germina sob a terra. A criança cresce dentro do ventre. As estrelas só revelam sua existência quando a noite chega. O preto desta obra não encobre a figura; ele a protege. É o casulo onde a consciência aprende lentamente a existir.

No lugar dos olhos há apenas um grande azul.

Não é uma pupila.

É um horizonte.

É como se o olhar tivesse deixado de observar o mundo para transformar-se no próprio céu. A visão já não aponta para fora. Expande-se para dentro. O rosto inteiro converte-se em um terceiro olho, uma abertura simbólica da consciência.

A pequena mancha rosada, próxima à lateral da cabeça, lembra um ouvido.

Talvez seja.

Porque ninguém enxerga o invisível antes de aprender a escutá-lo.

O interior da figura explode em linhas verdes, rosas, amarelas, pretas, laranjas e vermelhas.

Não representam músculos nem veias.

Representam energia.

São rios de memória atravessando um corpo que já não obedece às leis da anatomia. A carne desaparece para dar lugar ao movimento. O organismo transforma-se em paisagem. A identidade deixa de ser matéria e torna-se fluxo.

Percebo que essa figura carrega uma tensão delicada entre exterior e interior.

Por fora existe um contorno firme, quase mineral. Por dentro, tudo permanece em estado de nascimento. É exatamente esse contraste que sustenta minha pesquisa artística. Somos feitos de aparências relativamente estáveis, mas carregamos dentro de nós uma floresta que nunca para de crescer.

Escolhi o giz de cera porque ele compreende essa condição.

Sua textura não esconde o percurso da mão. Cada camada conserva a memória da anterior. Cada atrito permanece inscrito na superfície do papel. O desenho não busca apagar seus caminhos. Faz deles sua própria linguagem.

É assim que entendo a Poética do Inacabado.

A obra não termina porque o ser humano também não termina. Cada experiência acrescenta uma nova linha ao desenho da existência. Cada encontro muda discretamente nossas cores. Cada perda redesenha nossos contornos.

Ao olhar para esta figura, percebo que talvez ela seja o retrato mais fiel que já fiz de mim.

Não porque se pareça comigo.

Mas porque revela aquilo que nunca aparece diante do espelho.

Ela mostra um homem atravessado por rios invisíveis, protegido pela noite, habitado por um céu inteiro e continuamente recriado pelas cores da própria memória.

Foi desenhando ao lado da minha filha que compreendi uma das maiores lições da arte.

As crianças não procuram concluir um desenho.

Elas simplesmente o abandonam quando percebem que ele já começou a respirar sozinho.

Talvez toda obra verdadeira faça exatamente isso.

Chega um momento em que deixa de pertencer ao artista e passa a existir como um organismo autônomo, caminhando pelo mundo com seu único grande olho voltado para o infinito, lembrando-nos de que a imaginação é a forma mais profunda de conhecimento e que somente o inacabado continua vivo.