Por João Guató
Uma leitura pela Poética do Inacabado e pela Mitologia Cosmológica do Eu
A minha filha Ana Bella gosta de desenhar como quem conversa com os passarinhos sem precisar aprender a língua deles. Gosta de pintar porque talvez as cores ainda saibam o nome das coisas antes que os dicionários as aprisionem. Os psicólogos dirão que isso faz parte do desenvolvimento psicomotor de uma criança de seis anos. Eu não discordo. Mas desconfio que existe uma ciência que ainda não foi escrita sobre o modo como as crianças fabricam universos.
Resolvi, então, olhar seus desenhos não como pai, mas como quem escuta uma nascente. Li cada folha pelos pressupostos da Poética do Inacabado e daquilo que venho chamando de Mitologia Cosmológica do Eu. Não procurei formas acabadas. Procurei o instante em que o mundo ainda está sendo inventado.
Porque uma criança não desenha objetos.
Ela desenha o nascimento deles.
Foi assim que descobri que Ana Bella não pinta árvores.
Ela planta árvores dentro do papel.
Também não desenha pássaros.
Ela ensina o vento a criar asas.
Há uma idade em que o mundo ainda não sofreu a violência das medidas. A régua ainda não venceu a curva. A perspectiva ainda não expulsou o espanto. As coisas permanecem livres para serem maiores por dentro do que por fora.
É desse tamanho que nasce a arte.
Os adultos costumam chamar essas folhas de "desenhos infantis". Sempre achei curiosa essa expressão. Como se existisse alguma coisa mais adulta do que inventar mundos. Picasso dizia que passou a vida inteira tentando desenhar como uma criança. Talvez porque tenha descoberto cedo que crescer é desaprender algumas liberdades.
Nos desenhos de Ana Bella a natureza não serve de paisagem.
Ela é personagem.
As árvores possuem uma biografia vegetal. As folhas carregam pequenas arquiteturas do vento. Os pássaros inventam anatomias que nenhum ornitólogo conseguiria catalogar. O céu ocupa espaços exagerados porque o infinito, para uma criança, nunca cabe numa faixa estreita de papel.
Até aquela estrutura alta, semelhante a uma torre, deixa de ser engenharia para virar árvore de madeira. Não transmite eletricidade. Transmite imaginação. Cresce ao lado da vegetação como se também tivesse aprendido a brotar da terra.
Na minha Poética do Inacabado existe um princípio simples: a obra não representa o mundo; ela continua o trabalho da criação.
Ana Bella parece conhecer essa regra sem jamais tê-la estudado.
Depois aparece aquele pássaro amarelo.
Confesso que passei muito tempo olhando para ele.
Percebi que não era um pássaro.
Era uma mão que decidiu voar.
Cinco dedos descobriram que também podiam ser asas.
Há uma sabedoria antiga escondida nisso. As mãos humanas nasceram para transformar o mundo. Ana Bella apenas retirou delas o peso da utilidade e devolveu-lhes o destino do voo.
Seu pássaro não conhece zoologia.
Conhece liberdade.
Na infância, as proporções obedecem ao afeto. O que é amado cresce. O que é importante ocupa espaço. Não existe erro nisso. Existe outra matemática.
As árvores carregadas de frutos talvez sejam as mais silenciosas professoras da série. Uma oferece frutos vermelhos. A outra, frutos roxos. Nenhuma tenta convencer a vizinha de que sua cor é superior.
As árvores nunca disputaram ideologias.
Apenas amadurecem.
Quem inventou a competição foram os homens.
As folhas, por sua vez, revelam outro milagre.
Cada nervura desenhada é um gesto de contemplação. Antes de aprender botânica, Ana Bella aprendeu espanto. É assim que toda ciência deveria começar. Primeiro admirar. Depois perguntar.
O conhecimento que nasce sem encantamento envelhece cedo.
Há também aquele retrato de longos cabelos cor-de-rosa.
Não sei se é um autorretrato.
Não importa.
Toda criança desenha um pouco de si em tudo aquilo que inventa.
Os olhos por trás dos óculos parecem olhar menos para fora do que para dentro. Como se soubessem que a imaginação também possui paisagens.
Na Mitologia Cosmológica do Eu, cada desenho é um planeta.
Cada cor é uma órbita.
Cada personagem é um astro procurando seu lugar dentro do universo interior da criança.
Mas existe um habitante que atravessa todas as folhas.
O pequeno sol em espiral.
Ele não nasce igual ao sol dos livros.
Nasce rodando.
Brincando.
Desaprendendo a geometria.
Passei a acreditar que aquele sol não ilumina os desenhos.
É ele quem aprende com eles.
Por isso o título desta pequena coleção talvez não pudesse ser outro.
Onde o Sol Aprende a Desenhar.
Ali, o sol abandona sua antiga profissão de iluminar o mundo e aceita uma tarefa muito mais bonita: aprender com uma menina de seis anos que a luz também pode brincar.
Os adultos costumam acreditar que ensinam as crianças.
Talvez aconteça justamente o contrário.
Talvez sejam elas que ainda recordam aquilo que esquecemos.
Esquecemos que uma folha de papel pode conter um universo inteiro.
Que uma árvore conversa com o céu.
Que um pássaro pode nascer da palma da mão.
Que o vento possui nervuras.
Que o rosa também pensa.
Que o amarelo sabe cantar.
A Poética do Inacabado nasce exatamente desse lugar onde nenhuma obra termina porque a imaginação nunca conclui sua tarefa. Cada desenho de Ana Bella permanece aberto, esperando que o olhar do outro continue aquilo que ela apenas começou.
Talvez seja essa a missão mais antiga da arte.
Não entregar respostas.
Mas devolver às pessoas a coragem de inventar perguntas.
Quando fecho o caderno de desenhos de Ana Bella, não sinto que terminei de ver suas pinturas.
Tenho a impressão de que elas continuam acontecendo em algum lugar onde as árvores ainda conversam com o vento, onde os pássaros aprendem a voar com as mãos e onde o sol, humilde como só os grandes mestres conseguem ser, ainda frequenta as aulas silenciosas de uma menina de seis anos para reaprender a desenhar o mundo.
A MENINA QUE DESENHOU O ROSA DO VENTO
Há um tempo em que as crianças ainda não desenham pessoas. Desenham presenças.
Foi isso que encontrei quando olhei demoradamente esta obra de Ana Bella.
Os adultos talvez enxerguem apenas um rosto de cabelos cor-de-rosa, um par de óculos, um sorriso, um sol e uma nuvem. Mas os adultos possuem o estranho costume de acreditar que as coisas terminam onde seus nomes começam.
A infância sabe diferente.
Ela conhece o lado secreto das palavras.
Pela minha Poética do Inacabado, este não é um retrato. É o nascimento de uma identidade. Antes que o corpo apareça, surge a atmosfera da pessoa. Antes dos braços, chega o afeto. Antes da anatomia, nasce a presença.
Os cabelos ocupam quase toda a folha.
Não são cabelos.
São uma chuva de ternura.
Descem como se o vento tivesse aprendido a pentear o tempo.
Na infância, o cabelo não serve apenas para cobrir a cabeça. Serve para aumentar o mundo. Talvez por isso ele cresça até tocar a borda do papel, como quem deseja abraçar tudo o que ainda não recebeu nome.
Os olhos, protegidos por pequenos óculos, olham com uma serenidade que os adultos perderam quando começaram a desconfiar de tudo.
Há um brilho castanho que não procura respostas.
Procura maravilhas.
A criança ainda não observa para julgar.
Observa para pertencer.
O sorriso é pequeno.
E exatamente por isso é enorme.
Ele não ocupa a boca.
Ocupa o silêncio.
É o tipo de sorriso que não faz barulho porque conversa diretamente com aquilo que existe de mais antigo dentro da alegria.
Ao lado da personagem aparece uma pequena placa com a palavra "semi".
Fiquei pensando durante muito tempo nessa inscrição.
Talvez seja apenas uma palavra copiada pela curiosidade infantil.
Mas a imaginação nunca copia.
Ela transforma.
Passei a ler aquele "semi" como se dissesse que ninguém está completo.
Somos todos semi.
Semi-prontos.
Semi-descobertos.
Semi-poemas.
A criança compreende isso antes mesmo que a filosofia invente palavras difíceis para explicar a incompletude humana.
Na minha Mitologia Cosmológica do Eu, cada desenho é um pequeno universo onde os elementos naturais dialogam com o mundo interior.
Não por acaso, o sol aparece no alto da folha.
Mas ele não reina sozinho.
Há também uma nuvem.
A luz e a sombra dividem o mesmo céu sem brigar.
É uma lição que a natureza conhece desde sempre e que os homens insistem em esquecer.
O sol não elimina a nuvem.
Apenas lhe oferece contorno.
Talvez crescer seja exatamente isso: aprender que dentro de nós também convivem dias claros e pequenas tempestades.
O mais bonito, porém, é perceber que Ana Bella desenhou alguém que parece feliz sem precisar provar felicidade.
Hoje quase tudo sorri para ser fotografado.
A infância sorri porque ainda acredita.
Existe uma diferença imensa entre essas duas coisas.
Ao contemplar esta obra, lembrei-me de Manoel de Barros quando dizia que as crianças carregam o privilégio de conversar com as inutilidades. E são justamente essas inutilidades que sustentam o céu.
Ana Bella ainda conversa com elas.
Conversa com o rosa.
Com a nuvem.
Com o sol.
Com os olhos.
Com aquilo que ainda não foi estragado pela obrigação de parecer importante.
Talvez seja por isso que este desenho me emocione tanto.
Ele não retrata uma menina.
Retrata uma condição da alma.
Aquela em que ainda é possível acreditar que o mundo pode ser visto através de um par de óculos desenhados com giz de cera, onde cada traço imperfeito amplia a beleza em vez de escondê-la.
No fim, percebo que Ana Bella não desenhou um rosto.
Desenhou um jeito de existir.
E descobri, um pouco tarde, que há pessoas que passam a vida inteira tentando voltar a esse lugar.
O lugar onde o coração ainda tinha a cor do primeiro rosa.
O PÁSSARO QUE PEDIU EMPRESTADAS AS MÃOS DO VENTO
Há pássaros que aprendem a voar.
E há outros que nascem sabendo que o céu nunca foi um lugar, mas uma lembrança.
Ana Bella desenhou um desses.
Os adultos talvez perguntem por que esse pássaro tem o corpo parecido com uma mão aberta. A infância não responderia. Ela apenas sorriria. Porque, antes de aprender os nomes das coisas, as crianças descobrem seus parentescos. Para elas, uma mão pode ser asa. Uma asa pode ser flor. Uma flor pode aprender a cantar.
A imaginação nunca respeitou fronteiras.
Na minha Poética do Inacabado, este pássaro não é um animal. É um gesto.
Cinco pontas se abrem como dedos que desaprenderam a segurar para aprender a voar. Talvez toda liberdade comece exatamente assim: quando as mãos deixam de prender o mundo e passam a acariciar o vento.
O amarelo domina a figura.
Não é apenas a cor das penas.
É a cor da alegria quando ainda não conhece a palavra medo.
Há um pequeno bico laranja apontando para o horizonte. Ele não procura alimento. Procura distâncias. As crianças sabem que todo pássaro verdadeiro se alimenta primeiro de caminhos.
Sob ele, a água desenhada com giz azul não representa um rio nem um mar.
Representa o movimento.
A água nunca é o mesmo lugar duas vezes. Assim também é a infância. Quando tentamos compreendê-la, ela já correu um pouco mais adiante.
No alto da folha, o sol aparece outra vez.
Esse sol já começa a se tornar um personagem recorrente na cosmologia de Ana Bella. Não governa o céu. Conversa com ele. É um sol que não ilumina por obrigação. Ilumina porque brincar também é uma forma de fazer claridade.
Ao lado, uma pequena nuvem observa a cena.
Não ameaça chuva.
Parece guardar o voo.
Como se toda liberdade precisasse de uma testemunha silenciosa.
As pequenas manchas negras nas pontas das asas chamam atenção. São como marcas de viagem. Sinais de quem já atravessou lugares que os mapas desconhecem. A infância compreende que a beleza não mora na perfeição. Mora nas diferenças. Cada marca conta uma história que ainda não aprendeu a falar.
Na Mitologia Cosmológica do Eu, este pássaro nasce de um arquétipo muito antigo: o ser que une os elementos. Ele toca a água sem deixar o céu. Recebe a luz do sol enquanto conversa com as nuvens. Não pertence a um único lugar. Pertence ao movimento.
Talvez seja essa a condição mais profunda da própria infância.
A criança nunca habita apenas o presente. Vive um pouco na realidade, um pouco na fantasia e um pouco naquele território invisível onde os sonhos ainda têm endereço.
Os adultos chamariam este desenho de um pássaro estilizado.
Prefiro chamá-lo de uma oração desenhada.
Porque toda criança, quando cria um animal impossível, está pedindo licença ao universo para acreditar que ainda existem formas inéditas de viver.
Manoel de Barros dizia que as crianças renovam o mundo brincando com as inutilidades. Talvez acrescentasse que alguns pássaros não voam com penas. Voam com imaginação.
Ana Bella parece saber disso.
Seu pássaro não desafia a gravidade.
Desafia o hábito.
E, enquanto nós insistimos em medir o voo pela distância percorrida, ela nos lembra que o verdadeiro voo começa muito antes das asas.
Começa no instante em que uma mão decide deixar de agarrar o mundo para transformá-lo em pássaro.
A ÁRVORE QUE APRENDEU A CONVERSAR COM O CÉU
Há árvores que crescem para cima.
Esta cresce para os lados da imaginação.
Ana Bella desenhou um tronco fino, feito de linhas cruzadas, como se tivesse sido tecido em vez de plantado. Não é uma árvore de madeira. É uma árvore de paciência. Uma árvore construída fio por fio, como as crianças constroem seus mundos: sem pressa e sem medo de inventar.
Na minha Poética do Inacabado, toda árvore é um ser que escreve cartas para o céu. Os galhos são frases. As folhas são palavras. O vento é quem faz a leitura.
Por isso seus ramos não seguem a lógica da botânica. Seguem a lógica do desejo.
Eles se curvam como braços que querem abraçar o azul.
Nas extremidades, pequenos tufos verdes aparecem como ninhos de esperança. Não são folhas desenhadas uma a uma. São explosões de vida. A infância sabe que uma árvore não precisa ser detalhada para ser verdadeira. Basta que ela continue crescendo dentro de quem a olha.
Ao lado esquerdo, a água ocupa um pedaço da folha.
É um lago.
É um rio.
É o mar.
Ou talvez seja apenas a cor azul lembrando que toda árvore precisa conversar com algum espelho.
As árvores gostam de se olhar na água. Descobrem ali que o céu também mora embaixo.
No alto, reaparece o sol em espiral.
Esse pequeno astro já deixou de ser apenas um elemento da paisagem. Tornou-se personagem da obra de Ana Bella. É um sol que gira sobre si mesmo, como quem pensa. Não distribui apenas luz. Distribui tempo. Cada volta da espiral parece dizer que os dias não passam. Eles amadurecem.
Há ainda um traço negro apontando para o sol.
Fiquei olhando para ele por muito tempo.
Poderia ser uma seta.
Mas as crianças quase nunca desenham setas.
Elas desenham caminhos.
É como se alguém estivesse dizendo: "Olhe para lá. É dali que a claridade começa."
Na Mitologia Cosmológica do Eu, essa árvore representa aquilo que une mundos.
Suas raízes pertencem à terra.
Seus galhos pertencem ao vento.
Seu reflexo pertence à água.
E sua copa conversa com o fogo do sol.
Os quatro elementos se encontram silenciosamente numa única imagem.
Os adultos chamariam isso de paisagem.
A infância chama de casa.
Porque casa não é apenas onde moramos.
É onde o céu aceita descer um pouco para conversar com as árvores.
Manoel de Barros dizia que as árvores ensinam os passarinhos a demorar. Ana Bella parece acrescentar outra lição: elas também ensinam o sol a esperar. Nenhum galho cresce por ansiedade. Nenhuma folha nasce apressada. A natureza desconhece a pressa que os homens inventaram.
Talvez seja por isso que essa árvore pareça tão tranquila.
Ela não disputa espaço com o lago.
Não compete com o céu.
Não tenta alcançar o sol.
Apenas continua sendo árvore.
E, fazendo apenas isso, sustenta metade da paisagem.
Fiquei pensando que os adultos vivem querendo crescer para ser maiores.
As árvores crescem para oferecer sombra.
As crianças desenham árvores para oferecer abrigo à imaginação.
Talvez exista uma diferença enorme entre subir e florescer.
Ana Bella, aos seis anos, ainda conhece esse segredo.
Ela desenhou uma árvore.
Mas deixou plantada uma pergunta:
e se o verdadeiro tamanho de uma árvore não fosse medido pela altura do tronco, mas pela quantidade de céu que ela consegue acolher em seus galhos?
AS FOLHAS QUE ESCREVEM O VENTO
Há crianças que desenham folhas.
Ana Bella desenha o tempo.
Quando vi esta composição pela primeira vez, pensei que eram apenas folhas espalhadas sobre manchas de cores. Depois compreendi meu engano. Não eram folhas pousadas no papel. Eram pequenos pedaços de árvores que decidiram continuar vivendo longe dos galhos.
Na minha Poética do Inacabado, uma folha nunca é apenas uma folha. Ela é a caligrafia da árvore. Cada nervura é uma frase que a seiva escreveu enquanto subia em direção à luz.
Talvez por isso Ana Bella tenha desenhado primeiro os caminhos internos.
As nervuras aparecem firmes, quase arquitetônicas, como quem deseja revelar o segredo escondido sob a pele verde da natureza.
É um gesto curioso.
A maioria das crianças colore a superfície.
Ana Bella desenha aquilo que sustenta.
Ela parece compreender, intuitivamente, que toda beleza possui uma estrutura invisível.
As cores dividem o papel como pequenos territórios da imaginação.
O roxo não briga com o rosa.
O azul conversa com o verde.
O amarelo recebe o laranja como quem abre a porta para um visitante antigo.
Nenhuma cor deseja dominar a outra.
Cada uma aceita existir plenamente ao lado da vizinha.
A natureza conhece essa democracia desde o primeiro jardim.
Os homens ainda estão tentando aprendê-la.
Cada folha possui um tamanho.
Uma inclinação.
Uma personalidade.
Nenhuma pretende ser igual à outra.
É como acontece nas florestas.
Ou nas famílias.
Ou nas palavras.
A vida nunca repetiu exatamente a mesma forma duas vezes.
E talvez seja justamente por isso que continua sendo bonita.
Na Mitologia Cosmológica do Eu, as folhas pertencem ao arquétipo da memória. Antes que uma árvore conte sua história, ela a escreve nas folhas. Depois o vento recolhe essas páginas e as distribui pelo mundo.
Talvez seja isso que Ana Bella esteja fazendo sem perceber.
Escrevendo pequenas cartas para o vento.
Há também algo profundamente científico escondido nesta simplicidade.
Os contornos são observados com atenção.
As nervuras obedecem a uma lógica.
Existe curiosidade.
Existe contemplação.
É como se a poesia e a biologia resolvessem brincar juntas, esquecendo por alguns instantes que os adultos insistem em colocá-las em salas diferentes da escola.
Manoel de Barros dizia que a ciência pode classificar uma árvore, mas não ensina ninguém a conversar com ela.
Ana Bella ainda conversa.
Por isso desenha o que a árvore sente, e não apenas o que ela parece ser.
Os espaços coloridos atrás das folhas lembram estações do ano.
O amarelo tem gosto de verão.
O verde respira primavera.
O laranja amadurece como outono.
O azul refresca como chuva.
O roxo guarda o mistério das tardes que demoram a terminar.
Talvez não sejam apenas cores.
Talvez sejam climas da alma.
Os adultos costumam acreditar que uma folha cai porque morreu.
As crianças sabem outra coisa.
Ela cai porque aprendeu a voar para baixo.
Ao olhar esta obra, percebo que Ana Bella não fez um estudo botânico.
Fez um mapa da transformação.
Porque toda folha nasce pequena, cresce silenciosamente, conversa com o sol, dança com o vento e, um dia, retorna à terra para ensinar às raízes aquilo que aprendeu no alto.
Talvez seja essa a mais antiga lição da natureza.
Tudo o que sobe precisa aprender a voltar.
Tudo o que floresce precisa aprender a repartir.
E toda árvore, antes de ser floresta, foi apenas uma folha sonhando em verde.
AS ÁRVORES QUE NÃO TINHAM CIÚMES DOS FRUTOS
Comparam filhos, colheitas, salários, casas, ideias e até felicidades.
As árvores, felizmente, nunca frequentaram essa escola.
Ana Bella parece saber disso.
Desenhou duas árvores lado a lado. Uma carrega pequenos frutos vermelhos. A outra oferece frutos roxos. Nenhuma tenta parecer mais bonita. Nenhuma inveja a colheita da vizinha. Permanecem enraizadas na mesma terra, respirando o mesmo céu, como se a diferença fosse apenas outro nome da amizade.
Na minha Poética do Inacabado, estas árvores não representam espécies vegetais. Representam maneiras diferentes de florescer.
Há quem amadureça em vermelho.
Há quem amadureça em roxo.
E há quem passe a vida inteira sem compreender que a natureza nunca exigiu uniformidade para produzir beleza.
O chão verde é um único tapete.
As raízes, invisíveis, certamente já se encontraram lá embaixo.
As copas, porém, continuam livres para inventar suas próprias cores.
É assim que funciona o afeto.
As raízes unem.
As flores diferenciam.
No alto da folha reaparece o pequeno sol em espiral.
Ele já se tornou uma espécie de assinatura cosmológica da obra de Ana Bella.
Não é um sol que domina.
É um sol que acompanha.
Parece observar silenciosamente o crescimento das árvores, como um avô que sabe que nenhuma fruta amadurece antes da hora.
Ao lado do sol, um traço negro inclinado.
Passei muito tempo olhando para ele.
Talvez seja apenas um risco.
Mas a infância nunca desenha apenas riscos.
Ela desenha intenções.
Vejo ali um gesto.
Um caminho.
Uma pequena seta apontando para a luz.
Como se dissesse que toda árvore cresce porque acredita na direção do sol, mesmo sem jamais alcançá-lo.
Na Mitologia Cosmológica do Eu, as árvores pertencem ao arquétipo do pertencimento.
Elas não caminham.
Mas permanecem.
E permanecer também é uma forma de amar.
Vivemos num tempo em que todos querem partir.
As árvores ensinam outra sabedoria.
Criam raízes para que outros possam descansar.
Os pequenos frutos vermelhos parecem notas musicais penduradas nos galhos.
Os roxos lembram pequenos planetas.
Talvez toda árvore seja um sistema solar disfarçado de jardim.
Cada fruto possui sua própria órbita.
Cada folha conhece a dança do vento.
Cada galho guarda um silêncio antigo que os homens desaprenderam a escutar.
Manoel de Barros dizia que o mundo pode ser aumentado pelas crianças.
Ana Bella não aumentou apenas o mundo.
Aumentou a delicadeza.
Enquanto nós perguntamos para que serve uma árvore, ela responde desenhando duas.
Enquanto discutimos quem produz mais, ela mostra que cada uma oferece aquilo que sabe oferecer.
Sem competição.
Sem aplausos.
Sem vencedores.
Existe apenas abundância.
Talvez essa seja a maior lição escondida neste desenho.
A natureza nunca produziu cópias.
Produziu diferenças.
Cada árvore oferece um fruto porque primeiro aceitou ser ela mesma.
Talvez as pessoas também fossem mais férteis se parassem de desejar os frutos do outro e aprendessem a amadurecer os seus.
No fim, compreendi que Ana Bella não desenhou duas árvores.
Desenhou duas maneiras de existir.
E, entre elas, deixou um espaço vazio.
Não é um vazio de ausência.
É um vazio de encontro.
Porque as coisas que realmente se amam nunca precisam crescer umas sobre as outras.
Basta-lhes compartilhar o mesmo chão e confiar que o sol saberá repartir a luz.





